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Nos 100 anos de Sophia de Mello Breyner, sua poesia política nos provoca sobre justiça e participação. E mais: Silviano Santiago pensa o corpo “inconveniente” que hoje marca militâncias; a luta territorial dos Tupinambá; Maria-Mercè Marçal traz a linguagem dissecada pelo corpo lésbico

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Discurso de Sophia de Mello Breyner na Emissora Nacional (áudio, 1974)

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José Castello

Everardo Norões

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Ilustração por Karina Freitas

 

Não tenham dúvida:a humanidade é sempre uma banda de rock. Numa bela sacada criativa, de quem sabe o que quer e qual caminho tomar, o paulista Wander Shirukaya escreveu o romance Ascensão e queda, e com ele venceu o Prêmio Pernambuco de Literatura. Os quatro componentes da banda oferecem as vozes narrativas para a construção da história — se é mesmo que existe uma história ou variações em torno das histórias que, no íntimo, representam improvisação e criatividade -, que o autor trabalha com habilidade e arte, numa criação romanesca cheia de equilíbrio e harmonia. Talvez por conhecer esse forte elemento musical — a harmonia —, o autor compôs, mais do que simplesmente escreveu, uma obra de qualidade e, por isso mesmo, vencedora. O autor compreendeu, de cara, que não podia trazer a humanidade para sua narrativa numa voz única, voz de narrador absoluto com mão de bronze, mão de ferro, artificial, bonitinha, mas ordinária.

 

A narrativa por vozes internas e, por isso mesmo, cheia de contradições e de conflitos - as contradições e os conflitos são próprios da vida humana — surge com Dostoièvski, criador da polifonia narrativa, e, mais tarde, com Faulkner. Mas há entre eles diferenças básicas: o russo reúne as muitas vozes num só texto, o que nem sempre convence o crítico pouco experimentado e sem erudição suficiente. São muitas as teorias segundo as quais Dostoièvski não escrevia bem. Enquanto isso, o norte-americano opta pela narrativa com vozes distintas e objetivas, que se multiplicam ao longo do romance.

 

Numa escrita ainda mais rigorosa, Henry James criou a Técnica da Iluminação, que consiste em fazer com que os muitos personagens esclareçam outro personagem através de diversos olhares. Esses pontos de vista podem aparecer em monólogos, solilóquios ou trechos do narrador único e absoluto.

 

Essa é, na verdade, a grande vantagem dos narradores múltiplos — acabar com o reinado do narrador único e absoluto, Deus todo poderoso e onisciente, que obedece ao autor e unicamente ao autor e nem mesmo ao narrador, ao narrador com mão de ferro, que não só decide pela história, mas sobretudo pelas palavras. E reina em todas as circunstâncias e situações. São poucos, ou raros, os autores que descobrem que eles não são narradores, mas apenas autores.

 

Mesmo Flaubert, o francês criador do estilo objetivo, reconheceu a oportunidade das várias vozes narrativas, criando os diálogos entrecruzados, que não são outra coisa senão a presença dos personagens apresentando seus pontos de vista e contando as histórias. Os diálogos entrecruzados aparecem nos comícios agrícolas de Madame Bovary, quando Rodolfo e Emma namoram em meio às chamadas dos leilões. Foi, em princípio, apenas uma experiência depois desenvolvida em Educação sentimental, quando a narrativa é apresentada na voz de dois personagens decisivos na história.

 

No final do século 20, o prêmio Nobel Mario Vargas Llosa — que sempre trabalha com a multiplicidade de vozes — escreveu o romance Mayta, revelando o personagem através do ponto de vista de cada um dos outros personagens, de forma a enriquecê-lo e diversificá-lo. As vozes entrecruzadas de Llosa retiram o narrador mandão e enriquecem a narrativa contemporânea, sempre de modo surpreendente. Aliás, surpresa é uma palavra sempre muito presente na narrativa de Ascensão e queda. Surpreende a ascensão da banda, surpreende o modo como a mídia a recebe a e surpreende o suicídio de Johnny. Assim como surpreende o apuro técnico do escritor iniciante. Aí estão as dores e as alegrias humanas, as glórias e os fracassos, a admiração e a inveja. Como se tudo acontecesse numa tragédia grega, com seus monólogos e suas exaltações, seus lamentos e seus gemidos, suas linguagens e suas gírias . É verdade que, às vezes, se aproxima muito de Jack Kerouac, mas não são raros os momentos em que se distancia completamente. Sem dúvida, um autor de fôlego. Aliás, ele poderia ter escrito um livro mais próximo dos beat ou até de Salinger, mas se mostrou cuidadoso e criou o seu estilo, mesmo que ainda reticente.

 

É neste sentido que o romance de Wander Shirukaya impressiona e torna-se dessa forma o microcosmo da humanidade. Esta humanidade representada por uma banda de rock.