capa 168Vou-me embora pra Pasárgada

O poema de Manuel Bandeira faz 90 anos e fala da importância de termos utopias hoje. E mais: a tradução de "As guerrilheiras", de M. Wittig; Carmen Silva discute a cidade de SP; as escritas brasileiras nos encontros e desencontros pelo país; as bandeiras e a política na história da arte brasileira

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Bandeira declama seu poema (de "O poeta Manuel Bandeira", de Joaquim P. de Andrade)

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José Castello

Everardo Norões

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Há pouco uma amiga chegou afobada contando da consulta que fez ao pai de santo plantonista num mercado público do centro. Por R$ 20 e 20 minutos, o oráculo de aluguel lhe prescreveu a receita ideal para apaziguar as dores do seu crônico tédio: em menos de um mês um homem apareceria na sua vida de forma repentina. O envolvimento seria efêmero, mas duraria o suficiente para colocar de cabeça para baixo sua vida amorosa por um bom tempo. Apesar de assustada com a possibilidade da montanha-russa emocional, ela não via a hora da profecia se realizar. Mas o Nostradamus recifense lhe fez uma pergunta que não caberia naquele momento de tamanha excitação: “Não quer saber de outras áreas da vida, nada de família, nada de saúde?”. “E eu lá queria saber de disso. Quero saber de amor”, me contou, indignada. Sua sinceridade não poderia ser mais certeira.


Família + saúde, apesar de fazerem parte do pacote, não são os itens mais preciosos dessa instituição que prezamos e tememos com igual intensidade chamada Destino (com maiúscula). Destino é final feliz por um triz e frio na barriga. Ninguém merece tirar férias para fazer raio-x ou exame de sangue. Vivemos na expectativa de um encontro sobrenatural e, por isso, muitas vezes tomamos todo o entorno da nossa existência por uma grande sala de espera bege. Em nome do Destino, esquecemos que o “nada” pode ser alguma coisa e vamos a oráculos fajutos, lemos horóscopos, Balzac, passamos horas no mimimi com os amigos... É preciso o mínimo de conhecimento de causa para quando o imprevisto chegar ou se atrasar.


É diante de tamanhas expectativas que compreendemos o sucesso da coluna Sexo @ Cidade que a jornalista Flávia de Gusmão publica desde 2006 no Jornal do Commercio. Aos risos, ou melhor, às gargalhadas, a cronista vem subvertendo o receituário do aconselhamento sentimental ao questionar o que ficou combinado como certo para homens e mulheres, seja lá de que orientação sexual eles forem. Se o Destino é imprevisível, que assim você também se comporte, parece ser sua maior lição.


No final do mês, Flávia lança o livro Sexo @ Cidade, catalogando os melhores textos da sua coluna. Quando lidas de uma só vez, essas crônicas colocam uma lupa de aumento no papel sui generis que Flávia ocupa em meio à história literária do Recife: os cronistas locais, em geral, se dispuseram mais a pensar a cidade e suas contradições do que a enfrentar o difícil das relações emocionais debaixo desse sol que nos (des)protege. Flávia não é Casa-grande e senzala; é Apartamento e Barzinho.


Pela leitura dos textos de Flávia podemos perceber ainda o quanto os problemas amorosos humanos mudaram pouco desde a invenção do fogo. Somos, todos nós, vítimas e criminosos de uma equação maluca de falta de cuidado e pouca comunicação eficiente. Talvez saibamos disso desde o princípio dos tempos. Mas é preciso alguém que nos puxe pela memória vez por outra.


Apesar da cronista jamais condenar seus leitores à sala bege do Destino, como faria um pai de santo de mercado público, ela prefere lembrar que, melhor que o tal do Destino, existe uma instituição chamada Tempo, capaz de apaziguar as dores e renovar o espírito, talvez não com o salto brusco de um novo amor, que irá pular na sua cara como um ladrão numa rua escura. O Tempo irá agir “devagarzinho, nos cheiros estranhos, nos homens estranhos, com nomes difíceis de gravar, a gente vai se achando de novo. Ah, se vai”.