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Ficcionais


Prefácio Ficcionais

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Escrito por Schneider Carpeggiani   

 

Ao fazer a encomenda de um texto a um escritor, para uma das edições do Pernambuco, cometi a gafe de sugerir: “Mas é uma crônica, se não aconteceu muita coisa nesse evento, você pode mentir e...”. O correto seria ter dito “criar”.


Ele riu e, meio que penalizado da minha inocência, foi direto ao me corrigir: “Eu não minto; sou um autor de fi cção”. Pedi desculpas pelo engano e mudei de assunto com a objetividade típica dos que ainda não sabem como contornar uma falta e prosseguir.


Isto é um prefácio. Não uma coleção de verbetes de dicionário. Mas duas rápidas defi nições são necessárias para que o leitor não seja vítima do erro banal, ainda que tão educativo, que eu cometi. A mentira é uma inclinação no sangue, a Mona Lisa do Museu do Prado, a proteção que nos resguarda de um “sim” ou “não” que ainda não sabemos como aceitar. Um atalho.


A ficção é a mão segura, o olhar sábio, a memória invasora ou o esquecimento premeditado, iniciais e índices. A forma como apagamos as luzes ao sairmos de um cômodo. É quando deixamos algo para trás sem mais o calor do momento. Ficção e mentira suspendem a arrogância da verdade, mas atuam em universos distintos.


Depois daquela gafe, jamais esquecerei a diferenciação tão objetiva entre mentira e fi cção, que me levou a compreender melhor as ferramentas que regem o processo de fi ccionalizar uma lembrança ou mesmo algo que, por desleixo, ou sorte, o destino ainda não fez acontecer.


A proposta da coluna Bastidores, do Pernambuco, muitas vezes, pegou o convidado de surpresa: alguns afi rmaram de pronto que não sabiam mais o que escrever sobre algo já defi nitivo, impresso, o “morto” do mostruário da livraria, mas acabaram cedendo; outros encenaram espanto diante da proposta e prometeram arrumar um jeito de “cumprir a encomenda”, mal escondendo o desconforto diante da provocação. Houve, claro, aqueles que não tiveram medo de revelar o grau zero da escrita. Nesses anos todos, ainda que com dificuldades, ainda que com o receio da confissão, os nossos colaboradores foram primorosos ao lançar luzes e sombras sobre seus processos criativos.


Na verdade, a coluna Bastidores é uma forma disfarçada, e com alguma pompa, de repetir aquela grande pergunta clichê, que Clarice Lispector tão bem respondeu com o fuzilamento de “Por que você bebe água?”, ou seja: “Por que você escreve?”. Talvez se tivéssemos lançado essa questão, que no fundo é a pergunta maior, o “ser ou não ser” do jornalismo cultural, não teríamos conseguido arrancar revelações tão inquietantes sobre o que implica escrever; sobre o que move alguém a passar meses, anos até, enfurnado na gestação de um universo paralelo sem qualquer rede de segurança de leitores ou editoras. Ficção também é solidão (para voltarmos aos verbetes de antes).


Ao escrever esse prefácio, percebo que a coluna Bastidores é uma grande mentira, o eufemismo para não questionarmos de cara o “Por que você escreve?”. Mas nossa grande mentira teve excelentes rendimentos e merece o perdão: foi reunida nesse livro boa parte dos grandes escritores brasileiros em atividade. E mais: muitos deles falando de obras que se tornaram definitivas para nosso cânone literário. Com um resultado assim, prescindimos do mea culpa católico.


Última questão: o título do livro, Ficcionais, faz referência e presta homenagem a Jorge Luis Borges, o homem que nos ensinou que tudo (tudo, menos uma mentira) pode ser ficção, ao intitular uma das suas obras mais poderosas de Ficções. Assim mesmo, sem floreios. A força do substantivo solitário, para comemorar os cinco anos do Pernambuco.


Borges permitiu ao leitor escolher aquilo em que ele deseja acreditar (a crença na mentira não é escolha, mas cegueira ou necessidade). E é essa escolha, às vezes tão sinuosa, às vezes tão na contramão, que faz com que os tigres permaneçam à solta na biblioteca, como ele tão sabiamente já nos alertou.


Acredite sempre, mas com cautela.

 

As perguntas que não querem calar

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Escrito por Adriana Dória Matos   

 

Há certas profissõespara as quais parece não haver dúvidas quanto às suas motivações e processos. Ninguém ou pouca gente se detém em perguntar a um médico os seus porquêse comos. Situação bem diversa vive o escritor, sobre o qual sempre pairam as indagações “por que você escreve?” e “como é o seu processo de criação?”. Perguntas chatíssimas, aliás, pois sempre repetidas nesse ambiente criativo. Um jornalista em entrevista com um escritor, por exemplo, precisa de tato e sagacidade para escamotear essas incontornáveis questões, camuflando-as, disfarçando essa curiosidade atávica. E não foi outra a estratégia de dissimulação dos editores do jornal literário Pernambuco (Cepe), Schneider Carpeggiani e Raimundo Carrero, ao criarem a seção Bastidores, em que se requer do escritor convidado uma resposta à questão: qual o processo de criação de seu livro?

 

Nos últimos cinco anos – que é o tempo de vida desse mensário –, vários escritores se dispuseram a responder os tais porquês ecomosde suas mais recentes obras. E, observa-se pela leitura, nem todos os clichês são dispensáveis. Vale a pena insistir nessas questões: é prazeroso ler os depoimentos que são momentos de exposição profissional e pessoal para o escritor.

 

Diante dessa constatação, e como marco do “aniversário” do Pernambuco, está saindo Ficcionais (pela mesma Cepe), livro que reúne 32 dos textos publicados em Bastidores no período.

 

E o que temos em Ficcionais? Bem, se quisermos ser dramáticos, um monte de angústias. Se preferirmos simplificar um pouco as coisas, vozes que esclarecem quanto a uma prática que pode ser percebida como mais um campo profissional, em que há regras a serem seguidas (ou, quase isso). Porque, embora uma parte considerável de leitores continue a acreditar que a feitura de um romance ou de um poema deve-se a uma encarnação do divino, a tarefa pode ser muito mais pragmática, objetiva, afinal, escrever é uma técnica como o é manipular um bisturi (embora as consequências do contato com um mau texto sejam menos desastrosas que com um mau manuseio de bisturi).

 

Então, observemos alguns dos depoimentos a partir dessas bitolas e suas nuances: autores que demandam processos extremamente racionais, outros que encaram a atividade como uma necessidade saciada, feliz; e os que sofrem muito para entregar ao leitor aquela obra bem empacotadinha que ele compra na livraria.

 

Alberto Mussa, autor do ótimo O senhor do lado esquerdo e que comenta Meu destino é ser onça para o Pernambuco, avisa logo no primeiro parágrafo: “Para começar a escrever eu necessito de um estímulo intelectual. Não consigo escrever sobre minhas experiências pessoais, observar e analisar o mundo ao meu redor ou expiar minhas próprias angústias”. E o que faz o carioca? Pesquisa, anota, cria esquemas, coteja obras, estuda línguas e até faz mapas para chegar ao ato da escrita, propriamente, mas não deixa de ter suas idiossincrasias, como a de escrever pouco por dia e sempre à mão (isso valendo só para a ficção).

 

Não é exagero dizer que Eric Nepomuceno é “o homem que traduziu a América Latina”, título dado à contribuição do autor para os Bastidores. Tudo ou quase tudo de Gabriel García Marquez que lemos em edições nacionais chegou à língua portuguesa através dele. De tanto traduzir Eduardo Galeano – sua primeira tradução do uruguaio foi em 1975 –, ficou amigo dele. E isso diz muito da relação do escritor com a atividade. Ele escreve: “Eu sou incapaz de aceitar uma tradução por razões em termos exclusivamente profissionais. Volta e meia recuso convites para traduzir autores que respeito, ou cuja obra admiro, mas por quem não tenho nenhum afeto pessoal, ou sinto que não fazem parte do meu universo. Na hora de traduzir, sou movido em primeiro lugar por afinidade, por afeto”.

 

É possível colocar tradutores no elenco de escritores escalados para participar dessa seção, pergunta o leitor? Se você admitir que traduzir também é criar... Nepomuceno defende um ponto de vista legítimo, quando afirma que livro bem traduzido é aquele em que não percebemos que foi traduzido. “Estranha determinação”, escreve, “a de se esforçar o máximo para que ninguém perceba o que você fez”. Ainda bem que os editores não se ativeram a classificações estanques, e convidaram tradutores para escrever também – o texto desse autor é um dos melhores da coletânea.

 

Se estamos falando de pessoas que não se afligem com o ato da escrita autoral, falamos também daqueles para quem a ficção é dolorosa. E há muitos exemplos disso, seja porque o autor é exigente demais, ou porque ele hesita, reluta, briga com a criação. Claro, sabemos que há a retórica da dor, sua encenação, mas isso é apenas um detalhe, afinal, quem encena também sofre.

 

Antes que se esqueça, é preciso dizer que alguns dos escritores reunidos nesse livro foram detalhistas e trouxeram descrições das várias etapas pelas quais passaram para escrever aquele livro, e de como fizeram com isso ou aquilo. O mérito desse impulso é trazer para o leitor processos mentais, estruturas de raciocínio muitas vezes convergentes. Cai o mito do divino e isso é salutar.

 

Entre os relatos que colocam a produção literária como uma angústia, ou, pelo menos, como uma disputa de forças internas para se chegar a um produto final, há Um manual de como encontrar a sua salvação, o depoimento de Sidney Rocha sobre a feitura do seu livro de contos O destino das metáforas. Aqui, o autor se debate entre escrevê-los ou retomar um romance abandonado. Na luta, quem vencerá? Enquanto se debate, o autor quase se afoga. Ele dá ao texto encomendado pelo jornal um corpo ficcional, como se fosse uma metáfora daquilo que é mesmo um sofrimento.

 

 

 

 
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