capa 153Solidariedade

A amizade como força política em tempos de crise no livro "As meninas", clássico de Lygia F. Telles lançado há 45 anos. E mais: entrevista com a feminista negra Patricia Hill Collins; Heloisa Starling pensa a República a partir de Machado de Assis; a recepção da literatura russa no Brasil da Era Vargas

Clique para baixar o pdf

Breve panorama da obra de Lygia Fagundes Telles

banner site

José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Zizek ineditos.1un18 HanaLuzia

 

O texto abaixo, inédito no Brasil, é a tradução de um breve artigo do filósofo esloveno para o site www.rt.com. O livro mais recente de Žižek no Brasil é O sujeito incômodo, lançado pela editora Boitempo – a quem agradecemos a cessão do texto traduzido. 

 

***

O moralismo politicamente correto atingiu um de seus ápices no recente debate acerca da necessidade de se regulamentar as relações entre humanos e sexbots (robôs sexuais). Eis o que diz uma matéria sobre esse estranho fenômeno:

No ano passado, uma robô sexual chamada Samantha foi ‘molestada’ e seriamente danificada durante o festival de uma indústria tecnológica; o incidente desencadeou um debate acerca da necessidade de se levantar a questão da ética em relação às máquinas. […] Embora a alegação dos desenvolvedores dos robôs sexuais seja de que seus produtos farão qualquer coisa para satisfazer os desejos de seus clientes, parece que eles podem começar a rejeitar alguns homens persistentes. […] [A]s pessoas parecem esquecer que não é porque as máquinas não têm a capacidade de dizer ‘não’ às suas ‘investidas’, que eles não possam provocar danos graves a elas. […] [N]o futuro, os robôs sexuais humanoides podem vir a atingir um grau de sofisticação suficiente grande para ‘desfrutarem de certo grau de consciência’ e a ponto de se poder falar em consentimento no que diz respeito às suas relações sexuais – ainda que, na visão dos pesquisadores, sentimentos conscientes não eram componentes indispensáveis para garantir a capacidade de conceder ou recusar consentimento. […] Para eles, em ternos jurídicos, a introdução da noção de consentimento às relações entre humanos e robôs sexuais é praticamente tão vital quanto a introdução dessa noção nas relações sexuais entre seres humanos e ajudará a prevenir a criação de uma ‘classe de escravos sexuais legalmente incorporados’.” [nota 1]

Embora essa discussão seja apenas um desdobramento da conhecida proposta do comitê da União Europeia de se atribuir “direitos” básicos a entidades de inteligência artificial, sua aplicação específica à esfera dos robôs sexuais traz à tona de maneira clara os pressupostos implícitos que determinam esse tipo de pensamento. Basicamente, estamos diante de um fenômeno de preguiça de refletir: ao adotarmos essa atitude “ética”, confortavelmente nos esquivamos de encarar a complexa rede de problemas subjacentes que precisam ser abordados.

Para começar a enfrentar essa questão adequadamente, é preciso em primeiro lugar evitar a armadilha de nos enredarmos no debate a respeito do estatuto dos robôs sexuais dotados inteligência artificial – isto é, se eles realmente possuem algum tipo de autonomia ou dignidade a ponto de merecerem certos direitos. A resposta a essa questão é, ao menos por hora, obviamente negativa: nossos robôs sexuais não passam de bonecos mecânicos desprovidos de vida interior. O cerne da questão em jogo está em outro lugar. E primeira suspeita nesse sentido é que talvez os proponentes de tais demandas na verdade pouco se importam com as máquinas dotadas de inteligência artificial. Que, no fundo, eles têm plena consciência de que os robôs não podem efetivamente experimentar sentimentos de dor e humilhação, e sua preocupação central é efetivamente com a agressividade dos humanos. Ou seja, o que querem não é aliviar o sofrimento das máquinas, mas, sim, refrear os desejos, as fantasias e os prazeres violentos e problemáticos dos próprios humanos.

Isso fica claro assim que introduzirmos o tópico dos video games e da realidade virtual. Se ao invés de robôs sexuais (corpos de plástico mesmo, cujos movimentos e repostas são regulados por inteligência artificial), imaginarmos jogos de realidade virtual (ou, para usar um exemplo ainda mais plástico, de realidade aumentada) em que podemos torturar e explorar brutalmente as pessoas de maneira sexual. Nesse caso, fica mais do que evidente que nenhuma entidade de fato estaria experimentando qualquer tipo de sofrimento. Ainda assim, os proponentes dos direitos das máquinas de inteligência artificial muito provavelmente não deixariam de insistir na necessidade de se impor algumas limitações ao que nós, humanos, poderíamos ou não fazer nesse espaço virtual.

Adentramos assim a velha querela: se alguém possui tendências brutais, não seria melhor permitir que esse alguém possa descarregá-las no interior do espaço virtual (ou com máquinas/objetos), na esperança de se promover uma neutralização desses impulsos evitando assim o risco de que eles sejam postos em prática na vida real? Ou então ao invés de abrir uma inofensiva válvula de escape, isso na verdade alimentaria ainda mais esses impulsos indesejáveis?

O argumento de que a pessoa que fantasia sobre determinadas coisas está mais propensa a efetivamente realizá-las na vida real é bastante problemático. A relação entre imaginar na fantasia e efetivar na vida real é muito mais complexa, em ambos os sentidos. Muitas vezes fazemos coisas horríveis enquanto imaginamos estar fazendo algo nobre, e, inversamente, é comum termos devaneios em que fazemos coisas que de forma alguma poderiam ser efetivamente realizadas na vida real.

Encontramos aqui a estrutura psicanalítica do renegado fetichista: enquanto o ofensor está lá maltratando brutalmente seu robô sexual, ele sabe muito bem que só está brincando com um boneco mecânico de plástico mas mesmo assim não deixa de se enredar nessa sua ficção e realmente desfruta dela. (A prova simples: seu orgasmo, se ele o alcança, ele é real, e não é “mera” ficção). A implicação dessa estrutura fetichista não é que o sujeito que participa nela é ingenuamente estúpido pois crê em uma ficção, mas, muito pelo contrário, que até mesmo em nossa interação sexual real com outro ser humano vivo, a ficção já está operando. Isto é: eu uso meu parceiro como um objeto por meio do qual enceno as minhas ficções. Concretamente, até mesmo um sadista brutal que maltrata uma mulher real a usa para encenar suas ficções.

Outra questão: se um robô sexual rejeita nossas investidas violentas, isso não significa simplesmente que ele foi programado agir assim? Por que então não reprogramá-lo de outra maneira? Ou, para ir logo às últimas consequências, por que não programá-lo de tal forma que acolha e estimule maus tratos brutais contra si próprio? (A pegadinha, evidentemente, é a seguinte: será que assim não se perderia toda a “graça”? Afinal, o sádico quer que sua vítima se mostre aterrorizada e envergonhada.) Mais uma questão: e se um programador malicioso constituir seus próprios robôs sexuais enquanto sujeitos sádicos que gostam nos maltratar, seus parceiros? Ora, se concedermos direitos aos robôs sexuais dotados de inteligência artificial e proibir seus maus tratos brutais, isso significa que estamos os tratando enquanto entidades minimamente autônomas e responsáveis. Deveríamos então também tratá-los como minimamente “imputáveis” caso eles nos maltratem, ou seria o caso de simplesmente culpabilizar o programador?

Mas o equívoco fundamental cometido pelos partidários dos direitos das entidades de inteligência artificial é pressupor os nossos padrões (e direitos) humanos como sendo a mais alta norma. O problema torna-se mais claro se imaginarmos uma situação em que, com o explosivo desenvolvimento da inteligência artificial, surjam novas entidades dotadas de algo que poderíamos denominar condicionalmente de uma “psicologia” (uma série de atitudes ou disposições mentais de conduta), que será necessariamente incompatível com a nossa, mas que em certo sentido será também definitivamente mais “elevada” que ela (medida segundo nossos padrões, ela pode parecer tanto mais “má” quando mais “boa” que a nossa). Que direito nós, humanos, termos de medi-los a partir de nossos padrões éticos?

Concluamos então essa divagação com um pensamento provocativo. Talvez o verdadeiro indicativo da autonomia ética e subjetiva de um robô sexual não seja a sua eventual rejeição a nossas investidas, mas, sim, a constatação de que, mesmo sendo ele programado para rejeitar nosso tratamento brutal, o robô secretamente passe a gostar desses maus tratos de alguma maneira. Assim, o robô sexual tornar-se-ia um verdadeiro sujeito de desejo, dividido e inconsistente, assim como nós, humanos.

 

NOTAS

[nota 1]Samantha’s #MeToo: Will Sex Robots Start Rejecting Humans?, artigo do site Sputnik News – Tech. Disponível AQUI.