capa 140Sobre Firmina

Reconstruímos a história e a importância literária de Maria Firmina dos Reis, primeira escritora abolicionista do país. Temos ainda o livro novo de Sérgio Sant'Anna, uma antologia da poeta Aglaja Veteranye e uma homenagem ao legado deixado por Carlos Felipe Moisés

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A representação da pessoa negra na literatura

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José Castello

Everardo Norões

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Neste sábado (16), será lançado em São Paulo o livro Antologia fantástica da República brasileira (Cepe Editora), de José Luiz Passos. A obra é o segundo título do Selo Suplemento Pernambuco. A obra cria uma sequência de tentativas frustradas de representação de nossos anseios políticos enquanto República por meio de uma estrutura experimental que orquestra várias vozes, tempos e espaços do Brasil. Trazemos hoje um trecho da primeira parte da obra. 

O lançamento de Antologia fantástica da República brasileira ocorre na Blooks Livraria do Shopping Frei Caneca, em SP, a partir das 15h, com entrada gratuita.

 

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Os urros, mas também aquele patriota que chegou nesta minha dimensão com cartas que retratam damas vestidas de roxos túrgidos, como carnes secretas, um homem, uma mulher, os estadistas, a noite que nestas latitudes cai de repente e, nisto, na contemplação disso, Mandrake, passaram-se vinte anos desde de que nos falamos pela última vez. Sua visita me tocou profundamente. Mas permita que antes lhe diga uma coisa, não acredite no que afirmam os escritores, eles mentem, é uma cerimônia parecida ao strip-tease. Talvez os escritores tenham simplesmente medo, meu filho, o resto são nuvens. Até mesmo eu tenho um caderno ausente com uma história que quero contar, não fantasmas, presenças penadas, em cada esquina a companhia de fantoches, com eles virá um dia lindo, diria até que me basta pensar nisso e já é verão, mesmo das trevas é impossível não reconhecer o verão. Porém, quem escreve não é confiável, já lhe disse, e receio que ainda esta noite tenhamos mau tempo.

Ora, na metade do céu subido, um segundo patriota me disse justamente isto, “A dúvida te visitará de novo, Totonho”, e lhe respondi que a verdade é que já gosto deste meu undiscovered country, país a ser descoberto e tal, porém, meu filho, uma longa vida, é preciso saber levá-la, acredite, pois sei que não se deve falar aos mortos, mas você também sabe que em certos casos falar aos mortos é apenas uma desculpa, porque nenhuma relação existe entre o doce e a raça e, como a mim, a dúvida também o apanhará em casa, e com ela virá o tédio da dúvida. Ainda hoje, quero lhe contar a história de Doroti. Aliás, a propósito, lembro que o terceiro patriota me apareceu na semelhança de um pequeno leão coroado, com rosto de moça, seus mamilos crestados e castanhos, meu pênis discreto conforme a delicadeza dos gatos, e ela me falava como a Calipso que segue o vácuo do eterno e vê seu marinheiro desmoronar buscando o avesso do próprio tempo no colo de outra mulher. Era a realidade fora da realidade, Mandrake, os olhares devolvidos, enfim, este terceiro patriota súbito chegou mais perto, com um sopro gelado, e me disse, “O espanto condensado no homem é o sorvete de Deus”, engraçado, não é? Soa musical.

Se tivéssemos conversado mais, você talvez me perguntasse, num café, “Pai, realmente, como lhe foi a vida?”. A questão é patriótica, ou não? Com seu rostinho aberto a direções contrárias, mastigando ocasiões possíveis, convenhamos, nosso desencontro foi uma lástima, você a postos para sua aula, parecia um jovem professor Klopp. Espero que me desculpe a graça, agora brinco. É que morri, e o jornal me confirmou o fato com sua lisonja de sempre. Somos parecidos, eu e você, interessados no pecado, pena que não possamos mais jantar fora, pediria codornas com batatas no azeite, salada de palmito e uma garrafa de tinto, pois morri, Mandrake, morri, mas ainda me apetece o cardápio de um verão de caças.

E agora, Mandrake, enquanto espero pela última criatura, que talvez nem seja fêmea, lhe digo que não basta estar vivo, pois pode-se estar vivo e ser inocente, e um olhar inocente nada vê. Porém, entre o que mais quis ver está um país de matas e histórias em que as pessoas sofrem sem saber que sofrem tanto. Então, como diz o poeta, ó, “Quem quiser ver de mim uma excelência, onde a fineza mais se apura, perpétuas saudades me tenham, que tudo muda uma áspera mudança”. Não é? De mudança sabemos o bastante, horror é isso, e elas aconteciam enquanto corria em família, na sua infância, a anedota de que um político só era realmente grande quando movido a álcool. Com seus olhos de criança velha, você apanhava na risada dos adultos a imagem dos patrícios de província tropeçando em uísque e cachaça, mas a piada tinha raízes fundas. Era da época em que montei uma destilaria na usina em que você nasceu, Mandrake, me meti num zepelim, aos trinta, ticket a cinco contos, e por acompanhante Hans Sievert. “Entôn, Totonrro, famos lar?”. E lá fomos, a Hamburgo, comprar patentes e maquinaria.

O zepelim levava Hans, eu e mais vinte e dois, oitenta horas de voo, o Atlântico por carpete, ordens de uma tripulação de doze apóstolos, duas eram zepelinomoças de lábios finos, praticamente sem lábios, e o Brasil aos poucos ficando para trás. Já na primeira noite senti saudades de arroz-doce, enquanto a cada hora e meia elas me traziam café e licor de chocolate, brancas, sem curiosidade, pouco menos que azedas, Mandrake, meu filho, você já viu uma vagina alourada? É um acontecimento raro na vida de uma patriota. Mas olha. Espera. Na realidade, minto. Falei, fui falando, quando vi, estava mentindo.

Você sabe, meu filho, a eternidade pesa, ela pesa, mas nem sempre se nota, é inacreditável. A ciência nunca foi meu fraco, ou melhor, nunca foi meu forte. E as mentiras brancas se perdoam, não se perdoam? Certeza que sim. Não fui eu, foi seu avô o autor dessa destilaria. Foi ele quem voou no zepelim. Não sei se as moças tinham os lábios finos nem as vaginas como disse que tinham. É verdade, imaginei isso. Melhor, invaginei tudo, como se diz. Fiz da história dele uma conversa minha. Queria falar dessas coisas, e a imagem era boa. Usei. Você vai me entender, puxou a mim, adora livros. Como diz a canção, “Metade de meu amor, por você já chega a ser, pra lá de infinito”. Linda, não é? Uma canção diz tudo, tem som, força, fica na cabeça. Ó se fica, hein?

Acontece que, de novo, sinto muito, meu filho, me desculpe. Agora então é que agi mal, mau mesmo, não tem canção nenhuma, essa que mencionei. Soaram as palavras na cabeça. Metade de meu amor por você já chega a ser para lá de infinito. Parece uma canção, não parece? Dava um samba. E talvez até seja, e a memória é que esteja brincando comigo, lembrando e ao mesmo tempo escondendo parte do que é lembrado. Neste caso, omitindo o autor, o compositor disto que agora soa musical e, por isso mesmo, quis compartilhar com você, Mandrake, galeguinho, meu galeguinho. A mentira é o que mais aproxima as pessoas. Pense na história de Doroti. Dou-lhe esta lição daqui de cima, onde pude comprovar tudo. E sobre seu avô, só se pode falar dele, como se diz, daquele jeito, que ele era, abre aspas, complicado, fecha aspas, entendeu? Mas não estou julgando, de jeito nenhum, é só uma opinião minha, de quem teve por pai um químico, e conviveu pouco, muito pouco, com esse homem imensamente científico.