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Um ensaio sobre Ricardo Aleixo, nome incontornável da poesia contemporânea brasileira e dono de uma poesia em mutação. E ainda: a homossexualidade indígena; uma lembrança de Lillian Ross; sobre ler Alejandra Pizarnik; o último escrito de Ricardo Piglia

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O fruto estranho de Ricardo Aleixo

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José Castello

Everardo Norões

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Dostoievski tales

 

A Editora 34 lança em breve o livro Contos reunidos, de Fiodor Dostoiévski (1821-1881). Reúne 28 ficções do autor russo, que também mostram sua maestria na criação de narrativas curtas e nos ajudam entender suas preocupações enquanto escritor. O contos foram traduzidos diretamente do russo por vários profissionais: Priscila Marques, Boris Schnaiderman, Paulo Bezerra, Fátima Bianchi, Denise Sales, Vadim Nikitin, Irineu Franco Perpetuo, Daniela Mountian e Moissei Mountian.

Abaixo, um excerto da apresentação escrita por Fátima Bianchi, que nos introduz os principais temas tratados por Dostoiévski e reafirma sua capacidade criativa para pequenas ficções. 

 

***

 

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski (1821-1881), ainda hoje um dos escritores mais lidos e  comentados em todo o mundo, ocupa um lugar de grande importância na literatura russa do século XIX. Defensor apaixonado das ideias humanistas e de justiça social, em sua obra ele nos coloca diante de situações e tipos de comportamento que continuam a fazer parte das nossas vidas. Encontramos nela uma realidade social e humana extremamente complexa, marcada pela instabilidade, pela ruptura de tradições, pela destruição de antigos valores morais e espirituais e a inexistência de valores alternativos. Embora o próprio Dostoiévski muitas vezes afirmasse que o “mal” oculto na alma do homem parecia possuir um caráter abstrato, metafísico, como artista, o mal que retrata de forma penetrante e precisa está estreitamente ligado às leis da história, ao tempo e ao lugar — é fruto da alma do homem contemporâneo, historicamente concreto.

Para Dostoiévski, seu país passava por um processo de “desagregação e individualização” que não podia ser tomado como um fenômeno isolado, já que na Europa ele era ainda mais perceptível. No entanto, diferentemente da Rússia, onde ele se manifestava ainda em germe, na Europa esse estado de coisas, promovido pelas novas relações sociais introduzidas pelo capitalismo, era muito mais grave. Na Rússia, a dificuldade para “distinguir as causas da desagregação e individualização e juntar as pontas dos fios rompidos ainda é muito grande”, diria ele, pois, ainda que seu território geográfico fosse imenso, o povo russo estava firmemente unificado sob a figura do tsar e o poder da Igreja Ortodoxa, e isso, no seu modo de ver, ainda permitia ali alguma “esperança de que o feixe se reorganizasse”. Na Europa, “jamais esse feixe poderia se reconstituir, pois lá tudo se individualizou, não à nossa maneira, mas lenta e irreversivelmente”, conclui. [nota 1] E ainda que em suas intervenções jornalísticas ele apostasse com grande otimismo na capacidade da Rússia de reverter esse processo, em suas obras literárias ele se absteve de apontar qualquer saída ou solução nessa direção.

Num momento tão crítico para o seu país, não foram processos como a decadência da aristocracia, a pauperização das camadas menos favorecidas das cidades, o crescimento da criminalidade, ou coisas do gênero, o que mais chamou a sua atenção como artista, e sim, como observa o estudioso russo G. K. Schénnikov, “as mudanças que se processavam na estrutura da consciência moral do indivíduo”. Ele percebeu que “não eram apenas as relações entre as pessoas, as formas de prática social, os interesses que mudavam, mas também a noção do homem sobre si mesmo e o seu lugar no mundo”.[nota 2]

Movido pelo sentimento de que a vida social era gradualmente dilacerada pelo egoísmo, por uma guerra de todos contra todos, o escritor declara estar constantemente com a impressão de ter ingressado numa época em que “tudo se rompe e se fragmenta, e não por grupos, mas por unidades”, escreve. [nota 3] Daí sobressair-se em sua obra uma caracterização da realidade tão aparentada ao “caos”. Pois era nesse novo quadro, que se afastava completamente da rotina e trazia à tona configurações incompreensíveis, inusitadas, fantásticas, que se devia buscar aquilo que constituía a própria essência da realidade.

Partindo do princípio de que “o homem é inteiro apenas no futuro” e de que é extremamente difícil prever o seu movimento, já que a todo instante “a nova realidade surpreende com o inesperado do seu desenvolvimento”, em seu vivo processo criador Dostoiévski procura penetrar naquilo que pode verdadeiramente gerar a formação de novos tipos humanos e constituir o sentido da vida. Mas fazer isso exige do artista, em sua opinião, uma grande capacidade de clarividência, pois “o importante não é o objeto, são os olhos; se tiverem olhos, o objeto será encontrado. Se não tiverem, são cegos, e qualquer que seja o objeto, nada descobrirão nele”. [nota 4]

Um fator essencial de sua grandeza como escritor reside justamente na imensa sensibilidade poética para perceber as transformações humanas, vinculadas às mudanças que ocorriam na sociedade russa. Por ter conseguido captar essa nova realidade numa forma tão fundamental, Georg Lukács considera que “Dostoiévski foi o primeiro que, com uma arte ainda insuperada, fixou os sintomas da deformação psíquica que necessariamente surge no campo social da vida na grande cidade”. Para o crítico, “o gênio de Dostoiévski manifesta-se precisamente no acontecimento que ele reconhece e exprime ainda em seu primeiro germe, na dinâmica das mudanças sociais, morais e psicológicas que estão se aproximando”. [nota 5]

[...]

Apesar da vastíssima fortuna crítica existente, o estudo de sua obra, que teve início há bem mais de um século, continua sendo questão atualíssima para a teoria da literatura e para diversas outras áreas do conhecimento. Esse interesse maior pelo escritor e o reconhecimento universal de sua obra se devem em muito aos chamados grandes romances: Crime e castigo (1866), O idiota (1869), Os demônios (1872), O adolescente (1875) e Os irmãos Karamázov (1880).

Entretanto, Dostoiévski foi também um mestre da narrativa curta, a qual constitui a razão de ser desta coletânea. Uma de nossas principais preocupações consistiu em organizar, no âmbito da “forma narrativa breve”, um panorama o mais abrangente possível de sua trajetória, comportando desde o primeiro conto publicado (“Como é perigoso entregar-se a sonhos de vaidade”, escrito ainda em 1845, em colaboração com outros autores e assinado sob pseudônimo, inédito no Brasil) até excertos de obras da maturidade, que operam como “narrativas dentro de outras narrativas”, como “O sonho de Raskólnikov”, “A história de Maksim Ivánovitch” e a lenda “O Grande Inquisidor”, extraídos, respectivamente, de seus grandes romances Crime e castigo, O adolescente e Os irmãos Karamázov.

Outro aspecto fundamental a levar em conta é que, em Dostoiévski, a veia da ficção atravessa todo o seu pensamento e praticamente contamina todos os meios em que se expressou. 

[...] 

As primeiras ficções de Dostoiévski [...] vinculam-se ao momento em que se desenvolvia na Rússia a crítica social através da “escola natural” e do ensaio “fisiológico”, corrente na qual o autor ganhou lugar de destaque ao publicar seu primeiro romance, Gente pobre (1846), que lhe deu fama da noite para o dia.

 

 

NOTAS

Todas as notas são de Fátima Bianchi.

[nota 1] - Fiódor Dostoiévski, “Algo sobre a Europa”, Diário de um escritor (Dnievník pis- sátelia), março de 1876, em Obras completas em 30 volumes, publicada pela Academia de Ciências da URSS (Editora Naúka — Ciência), Leningrado, 1972-1990, vol. 22, p. 84.

[nota 2] - Gurii K. Schénnikov, Dostoievskii i rússkii realizm (Dostoiévski e o realismo russo), Sverdslovsk, Urálskogo Universiteta, 1987, p. 211.

[nota 3] - Dostoiévski, “Individualização”, Diário de um escritor, março de 1876, em Obras completas, vol. 22, p. 80.

[nota 4] - Idem, vol. 25, p. 173.

[nota 5] - Georg Lúkacs, Ensaios sobre literatura, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965, p. 155, tradução de Leandro Konder e Giseb Vianna Konder.