capa PE 189 web bxPaís nenhum
Ecocídio, militarismo, pobreza, violência: como o Brasil cabe em "Não verás país nenhum", de Ignácio de Loyola Brandão; começa o especial. A ciência como ela é, que publica textos sobre os afetos que atravessam a ciência no país; uma discussão sobre a leitura e a publicação de textos teatrais; Daniela Vieira (UEL) discute a consagração da cultura hip hop

"Não verás país nenhum" segundo Ignácio de Loyola Brandão (do canal PPGECH)

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José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Foto inédito A

 

 

Marapá

anî’kin pi’pî anî’kin pi’pî asanpurari pîkîno                    
akuri pi’pî arawata pi’pî asanpurari pîkîno                   
anî’kin pi’pî anî’kin pi’pî asanpurari pîkîno
akuri pi’pî arawata pi’pî asanpurari pîkîno
arawata pi’pî iwarîka pi’pî asanpurari pîkîno

anî’kin pi’pî anî’kin pi’pî asanpurari pîkîno
anî’kin pi’pî anî’kin pi’pî asanpurari pîkîno
akuri pi’pî arawata pi’pî asanpurari pîkîno
arawata pi’pî iwarîka pi’pî asanpurari pîkîno

anî’kin pi’pî anî’kin pi’pî asanpurari pîkîno
akuri pi’pî arawata pi’pî asanpurari pîkîno
arawata pi’pî iwarîka pi’pî asanpurari pîkîno

anî’kin pi’pî anî’kin pi’pî asanpurari pîkîno
akuri pi’pî iwarîka pi’pî asanpurari pîkîno
arawata pi’pî iwarîka pi’pî asanpurari pîkîno

anî’kin pi’pî asanpurari pîkîno
anî’kin pi’pî asanpurari pîkîno
akuri pi’pî arawata pi’pî asanpurari pîkîno
arawata pi’pî iwarîka pi’pî asanpurari pîkîno

 

Canto da noite (ou dos morcegos)

de quem é o couro do tambor
de cutia de guariba é o couro do tambor
de quem é o couro do tambor
de cutia de guariba é o couro do tambor
de guariba de macaco é o couro do tambor

de quem é o couro do tambor
de quem é o couro do tambor
de cutia de guariba é o couro do tambor
de guariba de macaco é o couro do tambor

de quem é o couro do tambor
de cutia de guariba é o couro do tambor
de guariba de macaco é o couro do tambor

de quem é o couro do tambor
de cutia de macaco é o couro do tambor
de guariba de macaco é o couro do tambor

de quem é o couro do tambor
de quem é o couro do tambor
de cutia de guariba é o couro do tambor
de guariba de macaco é o couro do tambor

 

 

 

Atualmente se veem muitos trabalhos sobre periferia e contemporaneidade, que enfatizam questões caras às populações negra ou transexual, por exemplo. Questões que costumam passar ao largo da parte hegemônica da crítica literária e do mercado editorial. Mas qual a noção de periferia, hoje, nos estudos literários? Por que, ao falar de periferia, nosso imaginário evoca rapidamente imagens das margens sociais urbanas? Por que o entendimento de “periferia” não costuma abarcar, por exemplo, a produção literária de matriz indígena? Não é possível tratar desse assunto de forma profunda neste curto espaço, mas lançaremos algumas ideias a respeito.

A produção literária indígena é periférica em um nível complexo: além de estar, quase sempre, fora dos centros urbanos, ela existe e persiste destacadamente na tradição oral, “dentro” de uma sociedade que existe e se perpetua pela escrita. “Dentro”, entre aspas, porque eles são aviltados física e simbolicamente há mais de 500 anos– o que permite questionar se houve, em algum momento da História, uma preocupação do Estado em valorizar essas populações.

Coletar e traduzir os processos de criação/recriação das artes verbais dos ameríndios é uma necessidade social por 1) perpetuar a produção cultural de um povo oprimido no passado e no presente; 2) por inserir novos protagonistas, novas questões, novas linguagens no meio literário; 3) além de nos expor, de maneira próxima (já que integra a produção cultural nacional), as complexidades e insuficiências do esforço para se definir o que é a literatura e o que é o objeto literário. Não é necessário lembrar Bob Dylan para pensar nessas últimas nuances.

Acima está um eren (canto) dos povos Macuxi de Roraima. É a versão dos cantadores Terêncio Silva e Zenita Lima, coletada e traduzida pelo professor Devair Fiorotti (UERR). Os Macuxi, que chamam a si mesmos de Pemon, habitam a divisa entre Brasil, Venezuela e Guiana Inglesa. Segundo o programa Povos Indígenas no Brasil, há cerca de 33 mil indivíduos no país (dados de 2014), 9.5 mil na Guiana (2001) e 89 na Venezuela (2011).

Os erenkon (plural de eren) são uma arte ancestral sem autoria definida, que podem receber pequenas mudanças de cantador para cantador. Evocam a presença do corpo em suas interpretações. É preciso dançar, mas também se ornar com fibras, amarrar chocalhos a si e pintar o rosto. Por serem cantos, o ideal é que sejam lidos em voz alta. A repetição, quase como um mantra, confere ao eren um tom cerimonial. Evidencia uma espécie de integração e reverência ao componente do material daquele instrumento: é do macaco e da cutia que vem o couro que compõe o tambor. Esse tipo de relação com aqueles que deram seu corpo para a confecção da percussão se expande para toda natureza. A lida com a tradição ancestral que a literatura indígena traz (reproduzindo-a e, em alguns casos, adaptando-a) é preciosa. Não se pode negar que há perdas ao não lidarmos com os erenkon presencialmente – não vemos a dança, os trajes, os instrumentos e o ambiente criado por esses elementos. Ainda assim, ter essa produção registrada em vídeo ou transcrita oferta a nós, seres urbanos, o choque com uma cosmovisão que busca se integrar ao espaço de forma sustentável, auxiliando-nos a entender e vivenciar o meio em que estamos de outra forma. Uma possibilidade diferente de estar no mundo por meio da preocupação, valorização e integração com nossas heranças socioculturais, tempos e espaços.