capa PE 189 web bxPaís nenhum
Ecocídio, militarismo, pobreza, violência: como o Brasil cabe em "Não verás país nenhum", de Ignácio de Loyola Brandão; começa o especial. A ciência como ela é, que publica textos sobre os afetos que atravessam a ciência no país; uma discussão sobre a leitura e a publicação de textos teatrais; Daniela Vieira (UEL) discute a consagração da cultura hip hop

"Não verás país nenhum" segundo Ignácio de Loyola Brandão (do canal PPGECH)

Pernambuco Banner na lateral

José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Badiou Foto Inédito 21.01.17

 

Para o francês Alain Badiou (1937, foto), o mundo contemporâneo não quer e não gosta de filosofia*, porque é avesso à revolta, à lógica, à universalidade e à aposta – segundo ele, os quatro pilares do desejo do exercício filosófico. Badiou alerta para a necessidade de um pensamento que escolha a revolta, ou seja, que não aceite o mundo tal como ele é; e que essa opção não descambe em anarquismo cego, mas sim em um impulso mediado por argumentos convincentes.

Talvez possamos dizer que o inédito deste sábado se encaixe neste ímpeto de urgência. O trecho abaixo é do livro Em busca do real perdido, que a editora Autêntica lançou recentemente. Nele, Badiou se aventura a pensar o real e o poder que temos de modificá-lo. A tradução é de Fernando Scheibe.

 

***

 

Hoje, o real, como palavra, como vocábulo, é utilizado essencialmente de maneira intimidante. Devemos nos preocupar constantemente com o real, obedecer a ele, devemos compreender que não podemos fazer nada contra o real, ou – os homens de negócios e os políticos preferem esta palavra – as realidades. As realidades são impositivas e formam uma espécie de lei, da qual é insensato querer escapar. Somos atacados por uma opinião dominante segundo a qual existiriam realidades impositivas a ponto de não se poder imaginar uma ação coletiva racional cujo ponto de partida subjetivo não seja aceitar essa imposição.

Pergunto-me então diante de vocês [nota 1]: a única resposta possível para a questão “O que é o real?” deve assumir como evidência que só se pode falar do real como suporte de uma imposição? O real nunca é encontrado, descoberto, inventado, mas sempre fonte de uma imposição, figura de uma lei de bronze (como a “lei de bronze dos salários”, ou a “regra de ouro” que proíbe qualquer déficit orçamentário)? Será preciso aceitar como uma lei da razão que o real exige em toda e qualquer circunstância uma submissão mais do que uma invenção? O problema é que, em se tratando do real, é muito difícil saber como começar. Esse problema atormenta a filosofia desde suas origens. Onde começa o pensamento? E como começar de maneira que esse começo ajuste o pensamento a um real de verdade, um real autêntico, um real real?
­
Por que é tão difícil começar quando se trata do real? Porque não se pode começar nem pelo conceito, a ideia, a definição, nem pela experiência, o dado imediato ou o sensível. É fácil demonstrar que começar pela definição, o conceito, a ideia leva a uma construção que é na verdade o contrário do que acredita ser, que é uma perda ou uma subtração do real. Afinal, como posso alcançar o real, encontrar a prova do verdadeiro real, se me instalei justamente, e de maneira peremptória, naquilo que aceita existir – ao menos aparentemente – sem prova do real, ou seja, justamente a ideia, o conceito ou a definição? A simples realidade do conceito não pode valer como uma autêntica prova do real, já que, precisamente, supõe-se que o real seja aquilo que, à minha frente, resiste a mim, não é homogêneo a mim, não é imediatamente redutível a minha decisão de pensar. Quando muito, posso pretender formular, com semelhante ponto de partida, uma hipótese sobre o real, mas não uma apresentação do próprio real. Assim, a filosofia, exageradamente racional, ou tentada pelo idealismo, careceria de real, porque em sua própria maneira de começar ela o teria rasurado, obliterado, dissimulado sob abstrações fáceis demais.

Ora, assim que se diagnostica esse defeito, essa falta idealista de uma prova do real, é o real como imposição que vai voltar. O poder de intimidação do uso da palavra “real” vai levantar precisamente o “concreto” como bandeira. Vai se opor à mania idealizadora, que costuma ser chamada hoje de utopia criminosa, ideologia desastrosa, devaneio arcaico... Todos esses nomes estigmatizam a fraqueza da tese que pretenderia começar a busca pelo real com a figura da abstração. Ao que oporão então um verdadeiro real, autêntico e concreto: as realidades da economia do mundo, a inércia das relações sociais, o sofrimento das existências concretas, o veredicto dos mercados financeiros... Oporão tudo isso, que efetivamente tem um grande peso, à mania especulativa, à ideocracia militante, que – dirão – nos meteu em tantas aventuras sangrentas ao longo do século XX.

Há algo que, desse ponto de vista, desempenha hoje um papel decisivo: o lugar ocupado pela economia em toda e qualquer discussão que diga respeito ao real. Parece até que o saber do real foi confiado à economia. É ela que sabe.

E, no entanto, tivemos, não faz muito tempo, diversas oportunidades de constatar que ela não sabia grande coisa, a economia. Ela não sabe nem sequer prever desastres iminentes em sua própria esfera. Mas isso não mudou quase nada. É ainda e sempre ela que sabe o real e o impõe a nós. É aliás muito interessante constatar que a função da economia em relação ao real sobreviveu perfeitamente à sua incapacidade absoluta não apenas de prever o que ia acontecer, mas até mesmo de compreender o que estava acontecendo. Tudo indica que, no mundo atual, o discurso econômico se apresenta como o guardião e o fiador do real. Enquanto as leis do mundo do Capital continuarem sendo o que são, a prevalência intimidante do discurso econômico não será desbancada.

[…]

É uma lição extremamente interessante: a economia como tal não nos ensina de maneira alguma como poderíamos sair da concepção intimidante e, em última instância, opressiva do real a que essa mesma economia consagra seu desenvolvimento e a sofisticação de sua “ciência” impotente. Isso é muito importante, porque a questão do real é evidentemente também a questão de saber que relação a atividade humana, mental e prática, mantém com o referido real. E, mais especificamente, se ele funciona como um imperativo de submissão ou se pode ou poderia funcionar como um imperativo aberto à possibilidade de uma emancipação.

Digamos que a questão filosófica do real é também, e talvez sobretudo, a questão de saber se, estando dado um discurso segundo o qual o real é impositivo, podemos – ou não podemos – modificar o mundo de tal maneira que se apresente uma abertura, anteriormente invisível, através da qual se consiga escapar dessa imposição sem contudo negar que haja real e que haja imposição.

 

 


* A síntese sobre o pensamento do filósofo francês que abre esta postagem é fruto da leitura do artigo Filosofia, política e verdade em Alain Badiou, cujo autor é Francisco Guedes de Lima. A íntegra do texto está neste link.

[nota 1] Antes de se tornar um livro, em 2015, este texto foi apresentado como conferência inaugural do evento Citéphilo, de 2012, que tinha por tema a pergunta “Quel réel?” (que real?). (Nota do tradutor)