capa 188O corpo-texto

Coreografias do desejo e outros voleios na dramaturgia de Grace Passô; a subversão do abusador de mulheres como motivo corriqueiro na literatura; Thiago Mio Salla fala sobre pan-lusitanismo e a recepção do romance de 1930 em Portugal; O olhar, um dispositivo literário: sobre Eneida Maria de Souza (UFMG) e seu "Narrativas impuras", novo livro do Selo Pernambuco/Cepe Editora

"Parto", leitura feita por Grace Passô (Flip 2017)

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José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

 

Foto por Chico Ludermir

A cidade se comprime.Nos deprimimos. A cidade grita, a gente grita de volta, mas ninguém se escuta. A casa é demolida, somos demolidos juntos. Porque nos desapropriamos, desapropriamos a cidade.

 

Há sangue, sim, correndo no concreto, em cima ou embaixo dos viadutos, pulsando junto com pneus. Existe pele revestindo cada edifício, veias, nervos, glândulas sudoríparas. Existe laço, calor, abraços nas fachadas e pelos arrepiados no teto e no chão.

 

Sim! O corpo é extensão da cidade.

 

Com os nós dos nossos dedos, revestimos paredes: azulejaria de falanges. Com ladrilhos, cobrimos o ventre, com cerâmica a pélvis. Substâncias de baixo calor específico compõem a membrana do peito; nas costas, tatuamos janelas.

 

É! A cidade é a continuação do corpo.

 

Nesse híbrido interdependente, o hurbano, nos modificamos um ao outro. O eu-humano desiguala, discrimina. O eu-urbano espreme, angustia. O eu-corpo se repudia ao repudiar a cidade. Em troca o corpo sente, sofre.

 

Somos os dois. Porque somos um.

 

Nessa projeção de urbe sobre epiderme, o movimento de um reflete no outro. Reverbera nos cinzas, nas formas, nas cores e nas curvas. Em cada ruído. Nos fios e na face. Construções e expressões.

 

Nesse quadro de M. C. Escher, não dá pra saber quem desenha quem. Qual escada levou à outra. É mesmo indefinido. Por que não assumimos? Por que teimamos em separar.

 

Transpomos nossas dores, faltas e medos para aquilo que planejamos. Mais alto, mais distantes, mais só. Assim somos. Fugimos para condomínios, cidades menores, mais rurais, mais silenciosas como quem foge de si. Lá construímos de novo aquilo que estamos.

 

O processo de criação da exposição Entre — premiado no SPA das Artes deste ano e em cartaz até o dia 8 de dezembro — partiu desse chão, desse híbrido de hurbano. No museu Murillo La Greca, a fachada e as paredes se revestiram de fotos de um ensaio meu, que havia sido batizado de EntreCorpos. Cotovelos, braços, peito, costas superdimensionados confundiam as escalas. De dentro de monóculos, paisagens mínimas; miniatura do “gigante cidade”, que, por vezes, vemos em sobrevoos. Quem é maior?

 

Por trás dos tapumes, a possibilidade de brechar, adentrar. Por trás do véu usado nas reformas de prédios, a critica àquilo que deixamos de ver nessa cidade que cresce tão rápida quanto nós enlouquecemos.

 

Se, por um lado, a pele se imprimiu no concreto, numa sala escura fotos de outro ensaio, agora com o nome de EntrePrédios, foram projetadas em corpos de pessoas. Cada movimento, cada passo, cada dança faziam mexer sobre o homem esquadrias, postes, prédios inteiros. Os corpos coreografados como plantas que correm em direção à luz do sol, corriam para a luz dos prédios. Cada mudança de foto cobria de outras cores e texturas as peles dos modelos vivos. A performance do Hurbano escancarou a possibilidade de interferência recíproca cidade-homem.

 

“Você se veste de mim”, “meu corpo tocar no seu”, “E do que há em mim, te dou uma parte daquilo que é você” dizem as frases da jornalista Carol Almeida, coladas em uma das paredes da exposição. Carol, quando escreveu o texto, falou do encontro dos corpos entre si; pele com pele. Mas, nesse outro contexto, ao lado da ilustração de Adeildo Leite, o significado é de que nos vestimos de metrópole. O alicerce do homem é parecido com aquele que usa para projetar seu espaço.

 

Também performático, o vídeo nossa casa? mistura dores. De um viés, uma casa desapropriada, demolida para dar lugar ao “progresso”. Mais vias, mais carros. Um não lugar substituindo um lugar. De quem é mesmo esta casa se o fim dela é determinado por uma instância de poder que extrapola as paredes do lar? Do outro viés um relacionamento de um casal também rui. E a casa e o homem nus sentem a destruição iminente.

 

A estrutura destruída é mais uma metáfora de como a cidade cresce, a despeito da vontade de alguns, para o interesse de outros. O namoro que se finda, com marcas na parede, dá lugar a um vazio branco. No museu, o barulho do trator é trilha sonora. E o visitante assiste a tudo sentado no sofá da minha sala.

Mas o sol há de brilhar mais uma vez. Sempre brilha. Nem que seja em brechas, frestas, entre prédios. Fazendo um balé de se espremer entre os cimentos.

 

Conheça as imagens da exposição Entre, de Chico Ludermir, que teve curadoria de Olivia Mindelo, no endereço cargocollective/chicoludermir