capa 135O que é a mulher?

A partir do “Mulherio” _ movimento que reúne escritoras de todo país – discutimos a reescrita da História na Literatura pelas mulheres e as articulações dessas autoras. E ainda: pesquisa sobre a crítica literária acadêmica; ensaio sobre “Quarup”; conversa com Javier A. Contreras

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Uma conversa com Maria Valéria Rezende

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José Castello

Everardo Norões

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Lygia

Em fevereiro a União Brasileira dos Escritores enviou à Academia Sueca a indicação de Lygia Fagundes Telles para o Prêmio Nobel de Literatura. No entanto, para muitos leitores a maestria da sua escrita já é, há muito tempo, campeã. Uma maestria que espeta quem se atreve a chegar perto, deixando um filetinho de sangue escorrendo. Mas "nada muito profundo, mas o suficiente para incomodar, na hora e por extenso tempo, cravadas na memória. O suficiente para se lembrar de que, nas próximas vezes, você não deve se aproximar tão desguarnecido e confiante, porque o bote pode vir, quanto menos se espera, não se sabe de onde", segundo o crítico Antônio Dimas.

No aniversário da autora (ariana nascida em 1923) selecionamos 10 trechos que corroboram o porquê da sua indicação.


1.
"Era o que ele estudava. “A estrutura, quer dizer a estrutura” - ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso, porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. “A estrutura da bolha de sabão, compreende?” Não compreendia. Não tinha importância. -"

(Do conto A estrutura da Bolha de Sabão)

2.
"Leio a advertência no maço, Fumar é Prejudicial à Saúde. Mais prejudicial do que o cigarro é a memória, digo baixinho ao velho que lançou um olhar reprovador ao meu cigarro. A memória e os seus detalhes. Coisas pequenas, minúcias"

(Do conto Uma branca sombra pálida)

3.
"E se a vida estiver lá fora, naquelas vozes que desdenhei?"

(Do livro A disciplina do amor)

4.
"Abro os braços, crucificada na roupa suja que espalhei pelo chão. O braço direito é o do Bem mas o outro, o pobre braço gauche. Os bibelôs gêmeos com seus morangos. Ou cerejas? Ah! que lúcida eu fico quando bebo, encho a boca, encho o peito e digo que a confusão vem de longe, Sodoma e Gomorra, hein?! Com o Anjo fugindo espavorido da população desenfreada, atirando pedras nele. E o Papa-Anjo lá em San Francisco tentando explicar aos gays. Aids. E daí? A delícia da vida sem delícias, também esta você quer me tirar? Eu ficaria com os que atiraram pedras ou com os outros que se ajoelharam? Não sei. Sempre que tenho que escolher me vem esta aflição, detesto escolher."

(As horas nuas)

5.
"A campainha está tocando outra vez e agora mais forte. Estremeço, o som agudo lembra o som de uma cigarra que vai me serrando pelo meio, oh! Deus! Os trovões, raios, E Loris de pé, oscilando triunfante como se estivesse na proa do barco. Engulo penosamente a saliva, estou salivando sem parar porque no medo a saliva cresce borbulhosa, quero repetir que não pode ser ele mas o anzol me puxando mais... Ouço a minha voz num sopro, Ele tem plantão lá no hospital, Lori, é dificílimo sair... Não pode ser ele!

- Afonso, queridinho, vai abrir a porta! - ela ordena.

Baixei a cabeça. E eu que já tinha cedido sem a menor resistência, um pouco mais e confessaria, tudo é mentira, não tenho nenhum homem, tenho um gato que achei na rua, Emanuel é um gato! Aperto contra a boca o copo vazio, eu vazia. E todos falando ao mesmo tempo. A janela se escancarou na ventania, a cortina subiu e derrubou garrafas, copos, tumultuando a sala que rodopiou o vento. E a voz de Afonso pairando sobre as águas, voltou arfante porque subiu a escada correndo:

- É o Emanuel, minha querida, é o Emanuel!"

(Do conto Emanuel)

6.
"No fim do ano, ao passar pelo pequeno restaurante resolvi entrar mas antes olhei através da janela, não queria encontrar o velho e o menino, não me apetecia vê-los, era isso, questão de apetite. A mesa estava com um casal de jovens. Entrei e Franz veio todo contente, estranhou a minha ausência (sempre estranhava) e indicou-me a única mesa desocupada. Hora do almoço. Colocou na minha frente um copo de chope, o cardápio aberto e de repente fechou-se sua cara num sobressalto. Inclinou-se, a voz quase sussurrante, os olhos arregalados. Ficou passando e repassando o guardanapo no mármore limpo da mesa, A senhora se lembra? Aquele senhor com o menino que ficava ali adiante, disse e indicou com a cabeça a mesa agora ocupada pelos jovens. Foi uma coisa horrível! Tão horrível, aquele menininho, lembra? Pois ele enforcou o pobre do velho com uma cordinha de náilon, roubou o que pôde e deu no pé. Um homem tão bom! Foi encontrado pelo motorista na segunda-feira e o crime foi no sábado. Estava nu, o corpo todo judiado e a cordinha no pescoço, a senhora não viu no jornal?! Ele morava num apartamento aqui perto, a policia veio perguntar mas o que a gente sabe? A gente não sabe de nada! O pior é que não vão pegar o garoto. Ele é igual a esses bichinhos que a gente vê na areia e que logo afundam e ninguém encontra mais. Nem com escavadeira a gente não encontra não. Já vou, já vou!, ele avisou em voz alta, acenando com o guardanapo para a mesa perto da porta e que chamava fazendo tilintar os talheres. Ninguém mais tem paciência, já vou!...

Olhei para fora. Enquadrado pela janela, o mar pesado, cor de chumbo, rugia rancoroso. Fui examinando o cardápio, não, nem peixe nem carne. Uma salada. Fiquei olhando a espuma branca do chope ir baixando no copo."

(Do conto O menino e o velho)

7.
"- Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja - disse apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas... Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso."

(Do conto Venha ver o pôr-do-sol)

8.
"Quero deixar bem claro que a única coisa que existe para mim é a juventude, tudo o mais é besteira, lantejoulas, vidrilho. Posso fazer duas mil plásticas e não resolve, no fundo é a mesma bosta, só existe a juventude. Ele era a minha juventude mas naquele tempo eu não sabia, na hora a gente nunca sabe nem pode mesmo saber, fica tudo natural como dia que sucede a noite, como o sol, a lua, eu era jovem e não pensava nisso como não pensava em respirar. Alguém por acaso fica atento ao ato respirar? Fica, sim, mas quando a respiração se esculhamba. Então dá aquela tristeza, puxa, eu respirava tão bem..."

(Do conto Apenas um saxofone)

9.
"Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal."

(Do conto Natal na Barca)

10.
"As recomendações de Clarice. No último bilhete que me escreveu, naquela letra desgarrada, pediu: Desanuvie essa testa e compre um vestido branco!

Um momento, agora eu estava em Marília e tinha que me apressar, o depoimento seria dentro de uma hora, ah! essas demoradas lembranças.

Quando entrei no saguão da Faculdade, uma jovem veio ao meu encontro. O olhar estava assustado e a voz me pareceu trêmula, A senhora ouviu? Saiu agora mesmo no noticiário do rádio, a Clarice Lispector morreu essa noite! Fiquei um momento muda. Abracei a mocinha. Eu já sabia, disse antes de entrar na sala. Eu já sabia."

(Do conto Onde estiveste de noite)