capa 137Narrar é resistir

Vinte anos após Cidade de Deus, de Paulo Lins, quais as narrativas, na favela, que surgiram influenciadas pela obra? E mais: Nabokov morria há 40 anos; as prateleiras e disputas da Biblioteca Nacional Argentina; bastidores de uma tradução da Bíblia; Joselia Aguiar fala da Flip

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Marginow - Dona Tuca e sua poesia de esquina

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José Castello

Everardo Norões

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michelangelo

Intelectual intuitiva, estudante prodígio, pesquisadora incansável e polêmica. De aprendiz e amante de Martin Heidegger, o filósofo alemão mais influente do século 20, a desafeto da comunidade judaica, cultura da qual se origina e com a qual começa a discutir o pensamento moderno, Hannah Arendt tinha alquimia suficiente para ser uma intelectual pop star, se estivesse em nosso tempo. No entanto, ficou restrita a círculos acadêmicos; sendo citada e recomendada, mas pouco difundida ou discutida no Brasil.

A biógrafa Laura Adler resume: “é a única mulher do século 20 que tentou dar conta dos tormentos do século e que soube descrever como essas cisões da humanidade haviam arruinado a crença numa razão capaz de explicar o que tenha acontecendo, atacando, no interior de cada um de nós, a própria ideia de universal”.

Atualmente, com o crescimento da intolerância – religiosa, sexual ou étnica –, Hannah volta ao debate sobre as condições capazes de, mesmo tendo aprendido sob o impacto de sistemas políticos trágicos, como o nazismo ou a ditadura, fazer com que nos deparemos com pessoas que clamam com plena convicção a volta de tais regimes, como uma chamada à “ordem”.

Apontamentos que nos servem de reflexão para o entendimento do crescimento de ideologias totalitaristas ou excludentes, apoiadas por uma rede de anonimato e executados nas multidões das ruas, que vão ao espaço público pedir a força como nova engrenagem para a manutenção da ordem. No pelotão de fuzilamento, o povo. Estigmas de classe, etnia, geografia, sexualidade rompem a barreira do bom senso e chegam em memes, vídeos caseiros e toda a sorte de material que circula indiscriminadamente no ambiente virtual e real, aprovando o que um dia foi responsável pela morte, prisão e tortura de milhares.

Seu questionamento sobre a banalidade do mal ou sobre a condição humana pode nos direcionar a compreender de certa forma o que motiva pessoas aparentemente “esclarecidas” a optar por defesas intransigentes sobre a validade de determinadas políticas como um retorno a um sistema “ideal”. Eduardo Jardim, da PUC-RIO, estudioso da obra de Arendt, aponta para as perguntas feitas por ela: “será que a ausência de pensamento tem alguma coisa a ver com o pensamento? Existe uma dimensão moral do pensamento? Pensar previne de cometer o mal?”, coloca. Hannah procurou desenvolver essa problemática dentro de uma tradição ética e moral, destacando, porém, os aspectos práticos que nos levam a determinados gaps históricos. Como podemos esquecer? Por que esquecemos? É uma pergunta retórica e cuja resposta pode ser encontrada tanto no sistema estrutural que marca a nossa consolidação como nação, quanto na naturalização de opiniões radicais, que vão de encontro a uma série de conquistas ligadas aos Direitos Humanos.

RECEPÇÃO

Coincidentemente, ou não, o pensamento de Hannah chegou ao Brasil, apenas nos anos 70, durante o Regime Militar, três décadas após a publicação de sua principal obra, As origens do totalitarismo. Em uma de suas últimas entrevistas televisionadas, filmada sempre com um cigarro na mão, faz questão de ratificar sua posição. “Nunca fui uma filósofa, sou uma teórica da política”. As fronteiras do seu pensamento também chegam à academia, onde foi disseminada primeiramente nos circuitos filosóficos para, em seguida, ganhar status na teoria política, o que só veio acontecer na década de 80.

Durante os anos 90, o crescimento das análises sobre o cenário global e o surgimento dos cursos de Relações Internacionais contribuíram para o aumento do interesse pela obra da intelectual nascida em Hannover. Em 2006, a jornalista Laura Adler lançou o livro Nos Passos de Hannah, no qual investiga sua origem e produção mas foca, sobretudo, nas passagens mais polêmicas de sua trajetória.

A primeira delas, a relação com Heidegger, filósofo que a encantou e influenciou e de quem se distanciou duas vezes: primeiro quando desistiu de ser a jovem amante do influente pensador; posteriormente, quando Heidegger adere à propaganda nazista e Hannah, ainda no início de sua carreira, já intui que a nova política alemã poderia gerar um sistema totalitarista. Outro grande problema na trajetória de Arendt foi a publicação de Eichmann em Jerusalém. Hannah, que se refugiou em Paris e nos EUA durante o regime nazista, não conseguiu acompanhar o principal julgamento das atrocidades nazistas, o conhecido Julgamento em Nuremberg. Quando Eichmann, um dos oficiais nazistas, foi encontrado, vivendo de forma simples e anônima numa cidadela argentina e, então, levado para Jerusalém para ser confrontado por um tribunal, Hannah viu a chance de acompanhar de perto a confissão monstruosa de um membro da Gestapo.

Suas impressões, no entanto, chocaram a comunidade judaica, entre eles Gershon Scholen, outrora amigo da pensadora. Hannah observou a midiatização e espetacularização do julgamento, enfatizando, sobretudo, a perspectiva de diabolização, digamos assim, coordenada pela corte israelense. Havia um massacre e um responsável por um massacre. Gripado e sem muita retórica, Eichmann respondia burocraticamente às perguntas levantadas pelo júri promotor, esclarecendo para a pensadora de que não se tratava de um assassino sanguinário, mas de um homem relativamente comum.

Para Eduardo Jardim, da PUC-RIO, filósofo e estudioso da bibliografia arendtiana, a popularização de sua teoria tem crescido consideravelmente e tem ido além da obra mais conhecida, Eichmann em Jerusalém, que gerou o tema da “banalização do mal”. “Isto significa que a filósofa foi não só uma pessoa muito conhecida na sua época, quando participou dos debates públicos sobre assuntos tão variados como, entre outros, o julgamento de Eichmann, a questão da integração racial, a crise das universidades e os conflitos no Oriente Médio. Ela ganhou também uma fama póstuma, aquela que é mais duradoura e que é das mais raras e menos desejadas formas de notoriedade”, aponta.
Para Jardim, o sucesso do pensamento de Hannah reside nas abordagens executadas ao longo de sua construção teórica. “É sabido que Hannah Arendt interessou-se pela política sob dois aspectos. Por um lado, ela apresentou um diagnóstico da situação contemporânea marcada pela falência da autoridade política e das instituições tradicionais. Por outro, ela pretendeu pensar a partir de novas bases o que é a política e esteve atenta para o aparecimento de novas formas de experiência política na história recente, sobretudo nos episódios revolucionários”, descreve.

“Ainda podemos utilizá-la como parâmetro?”, pergunta Jardim. Primeiro, ele coloca a forte instabilidade do cenário político atual como um elemento importante para se rever/reler Hannah Arendt à luz de seu pensamento original. “Nota-se o descrédito das formas políticas tradicionais, e não se vislumbram novos caminhos. Ainda vivemos nos ‘tempos sombrios’, como chamou a filósofa. E somos desafiados a compreender este tempo. As análises de Hannah Arendt da crise da política na contemporaneidade, em obras como A condição humana, Entre o passado e o futuro e Crises da república, são muito importantes para dar conta da situação política contemporânea”, explica. 

Apesar de ser dona de uma obra extensa, densa, como As origens do totalitarismo, cujos originais continham mais de 900 páginas, a tese sobre a banalidade do mal ainda hoje centraliza a sua visibilidade do ponto de vista midiático e editorial. A discussão surgiu em 1963, época do crescimento das ditaduras latino-americanas. Jardim descreve a sua investida na análise do Julgamento em Nuremberg como um dever moral para consigo mesmo e contrariou a indicação dos amigos para que não se envolvesse no assunto. “Durante o julgamento o aspecto que mais intrigou Hannah Arendt na figura de Eichmann foi sua incapacidade de pensar e de julgar por conta própria, ou seja, sua total irreflexão. O criminoso Eichmann não parecia ter sido motivado em suas ações por nenhum elemento especialmente profundo, por alguma forma de ódio ou de ressentimento. Não se assemelhava a nenhum dos personagens da literatura que Hannah Arendt conhecia, como os das peças de Shakespeare ou dos romances de Melville. Eichmann simplesmente não tinha a capacidade para questionar as ordens que recebia. Seus crimes eram monstruosos, mas os motivos para cometê-los não eram profundos, mas banais”.

Hannah Arendt chamou atenção também para o fato de que, nos contextos totalitários, crimes podem ser cometidos sem uma justificativa ideológica precisa. Celso Lafer, um dos filósofos que introduziram o pensamento de Hannah no circuito acadêmico brasileiro, coloca bem, nos cadernos Estudos avançados da USP, a atualidade de sua obra: “No mundo contemporâneo continuam a persistir situações sociais, políticas e econômicas que, mesmo depois do término dos regimes totalitários, contribuem para transformar os homens em criaturas supérfluas e sem lugar num mundo comum. Entre outras tendências, menciono a ubiquidade da pobreza e da miséria; a ameaça do holocausto nuclear; a irrupção da violência, os surtos terroristas, a limpeza étnica, os fundamentalismos excludentes e intolerantes”.

Em Reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento de Hannah, de 1988, Lafer aponta que a pensadora identifica, avalia e diagnostica a ruptura trazida pela experiência totalitária do nazismo e do stalinismo: a inauguração do tudo é possível. “O tudo é possível levou pessoas a serem tratadas, jure et facto, como supérfluas e descartáveis”.

O maior desafio do pensamento intelectual é dissertar coerentemente sobre seu tempo e não se esgotar na defasagem dos anos, das crises, das mudanças e das novas teorias que se renovam para dar lugar a tantas hipóteses sobre outros tempos e outras crises. Analisar os fenômenos sociais no decorrer de seus acontecimentos é como fotografar as consequências de um furacão quando ele ainda está em ação. Há sempre o risco de captar o pior ângulo possível ou, ainda, a melhor cena, sem qualidade técnica o suficiente para que o registro resista à sua instantaneidade.

Para o bem ou para o mal, Hannah Arendt, ao analisar os desdobramentos da razão moderna, e as piores consequências de sua instrumentalização, com os regimes totalitaristas, deixou um legado fundamental para a compreensão da sociedade contemporânea. Enfrentou o furacão e é dona do registro mais emblemático sobre as causas e desdobramentos de sua passagem pela civilização mais recente. Sobretudo na análise dos Direitos Humanos, sua abordagem continua respondendo, ainda, a questões filosóficas, práticas e pragmáticas. Como fora possível, por exemplo, que o mal tenha se estabelecido como burocracia, ao ponto de um funcionário da Gestapo acreditar estar fazendo a sua tarefa correta, portanto em paz com sua própria consciência, ao administrar a logística de extermínio de milhões de judeus?

A pergunta é respondida em Eichmann em Jesuralém, publicado, originalmente, em 5 artigos na conceituada revista New Yorker. E hoje, 50 anos depois do julgamento que condenou um dos oficiais da política nazista, ainda nos responde muita coisa. Para o bem ou para o mal. A trágica experiência de Auschwitz e a compulsória recusa do “outro” das culturas totalitaristas serviram como base para a Declaração universal dos direitos humanos (1948), texto de ordem mais filosófica do que jurídica, composta quase como um mea culpa da humanidade, pela recém-criada Organização das Nações Unidas. 

Os regimes stalinista e nazista, responsáveis pelas atrocidades cometidas em nome de uma cultura “limpa”, eram ambos apoiados por uma logística administrativa e burocrática capaz de “banalizar o mal”. Para Arendt: naturalizar ou neutralizar o que para muitos poderia ser antiético ou amoral. Na Declaração universal dos direitos humanos há a projeção da igualdade social como uma entidade abstrata: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”, diz. Arendt, porém, entendia essa igualdade como uma questão social.

“Nós não nascemos iguais. Nós nos tornamos iguais como o resultado da organização humana na medida em que é norteada pelo princípio da justiça”, conceitua Hannah. Igualdades e direitos não são naturalizados pelo conceito de civilização e desenvolvimento histórico. Estão, antes, como elabora em A condição humana, como a possibilidade de qualquer cidadão ter direito. “A igualdade é, assim, um construído político da convivência coletiva baseado na pluralidade dos seres humanos que compartilham a terra com outros seres humanos. Por isso, o primeiro direito é o direito a ter direitos, o que antes de mais nada significa dar a uma pessoa um lugar no mundo por meio do acesso a uma ordem jurídica e política”, arremata Celso Lafer, que amplamente divulgou a obra de Hannah Arendt nos anos 70. Em entrevista ao filósofo Eduardo Jardim, publicada em 2011, na revista de filosofia da PUC-RIO, Lafer aponta para o peso que a estrutura social, local onde se julgam juridicamente ou pelo senso comum as ações e opiniões, tem para oferecer na garantia de afirmação da diversidade de identidades com as quais convivemos diariamente. 

Apesar da força simbólica da Declaração e da coerção da estrutura social, o progresso histórico não pôde evitar que mal de se alastrasse como uma erva daninha e dizimasse a ideia moderna de razão como capacidade de discernimento do bem e do mal, e, portanto, mecanismo social para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa ou igualitária, conforme a tese central do Iluminismo. A banalização do mal não é só possível, mas compartilhada e curtida diariamente num frenesi de ódio, desprezo, indiferença com todos aqueles que fogem de um suposto padrão de normatividade. Homossexuais, pretos, pobres, transexuais, nordestinos, mulheres. Não importa gênero, etnia, orientação sexual, localização geográfica. Que os aceitemos, desde que não compartilhem o mesmo espaço conosco. Ou pior: não os aceitemos, pois não devem compartilhar o mesmo espaço conosco. 

O ÓDIO MIDIÁTICO

O discurso de ódio se desenvolveu rapidamente na tribuna livre das redes sociais e da cultura da convergência midiática, ambiente desprovido de hierarquia tradicional, centralização e, sobretudo, burocratização. Em Eichmann em Jesusalém, Hannah avalia os mecanismos instrumentais capazes de criar não monstros, mas empregados funcionais. Nosso ambiente, porém, é ao mesmo tempo oposto e igual à perseguição implacável da cultura totalitarista. É diferente porque se distancia completamente da centralização de um poder autoritário. Mas se iguala ao mal de Auschwitz quando entendemos que a ética como instituição simbólica é incapaz de frear a maldade.

Células atomizadas, personagens anônimos, perfis falsos ou oficiais, como a Desumaniza, capitaneada pelo humorista Danilo Gentilli para parodiar a campanha Humaniza, do Governo Federal, lançada em abril exatamente para conter o rastro sanguinário da orgia de liberdade de expressão na web. Em uma semana de atuação, a Humaniza continha pouco mais de 7 mil seguidores. A Desumaniza, apoiada pelo simbolismo da celebridade, contabilizava mais de 20 mil usuários, dispostos a aproveitar tempo livre e criatividade para fazer nada mais do que o mal, em sua acepção mais ontológica possível: xingar, linchar, incitar o escárnio, o desprezo a quem estivesse fora do circuito de normalidade conceituado pela Desumaniza. 

Sorrateiramente, a difamação assume um caráter performático. É uma atuação. Um papel social, cuja lógica não difere muito dos personagens, dos vilãos de HQ, que precisam existir para se contrapor e afirmar a autoridade do mocinho. O problema aqui é que a vilania performática existe num loop, num circuito de feedback e retroalimentação compactuado por grupos cada vez maiores que disseminam estigmas, estereótipos e indiferença – não há mocinhos, apenas a humanidade desolada. O poder simbólico é sorrateiro. Se esconde aonde menos podemos o reconhecer. Mas quando um negro é assassinado por ser negro ou um grupo de garotos acredita que é necessário estuprar mulheres “vulneráveis”, o poder simbólico se materializa em manchete de jornal, com a complacência de uma nação, completamente absorta no seu próprio automatismo. 

Arendt dizia que a banalidade do mal se instala na ausência de pensamento. Ao discutir o mal, Hannah Arendt retomou o tema do Mal Radical, de Kant, um dos filósofos que mais contribuíram para o esclarecimento do problema da moral humana. Há, na verdade, uma grande e intensa tradição social e epistemológica em analisar o que é a maldade e como ela pode se desenvolver na sociedade. Kant parte de uma lógica ética: o que eu quero, eu posso; o que eu posso, eu devo? Hannah retoma essa questão de forma complexa mas que aponta para uma direção. Se eu quiser fazer o mal, o farei, independente de estrutura social e Declaração de Direitos Humanos. E não. Não se trata de uma massa de psicopata. Mas daquele vizinho, da sua manicure, de um estudante ou de um parente próximo que, ao descortinarmos o véu de sua atuação social, encontraremos alguém com crença suficiente para acreditar que defender o linchamento de um criminoso é o que podemos fazer para viver melhor.

“Minha opinião é de que o mal é apenas extremo e não possui profundidade nem qualquer dimensão demoníaca. Ele pode cobrir e deteriorar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como um fungo na superfície. Ele é ‘desafiador-do-pensamento’, como eu disse, porque o pensamento tenta alcançar alguma profundidade, chegar às raízes, e o momento em que se ocupa do mal é frustrado porque não há nada. Essa é sua ‘banalidade’”, diz a pensadora.

Que o mal existe não há dúvida. No nazismo, uma lógica administrativa tornou possível a sua produção. E na web? O que diríamos dessa massa de anônimos armados até os dentes com o mínimo de discurso e o máximo de ódio a fim de simplesmente boicotar conquistas decanas em torno da igualdade de direitos? De certa forma, a web se aproxima do conceito de esfera pública grega em Hannah Arendt. A polis era como um palco comum a todos os habitantes, onde os indivíduos-atores poderiam aparecer e contracenar tendo assim reconhecidas e certificadas as suas existências pelos seus cidadãos-espectadores. “Fazer valer sua própria opinião, referia-se a ser capaz de mostrar-se, ser visto e ouvido pelos outros. Para os gregos, esse era um grande privilégio que se ligava à vida pública e que faltava à privacidade doméstica, em que não se é visto nem ouvido por outros. Na vida privada se está escondido e não se pode aparecer nem brilhar, não sendo ali, portanto, qualquer doxa”.

A polis era um espaço de cooperação, ação coletiva mas também de disputa entre os cidadãos Num mundo marcado pela imprevisibilidade inerente à própria capacidade dos homens de tomarem novas iniciativas, o novo mal banalizado assume os mesmos riscos e pode ser extraído de um sistema muito mais complexo, tratado por Hannah Arendt: a atomização dos indivíduos sob o sistema produtivo industrial. A lógica capitalista, materializada na sociedade de consumo, aniquila e reduz a conexão entre os indivíduos, eliminando a solidariedade comunitária. 

Paloma Mendes Saldanha, advogada e especialista em ciberativismo, relata a polarização e contradição dessa nova plataforma: “O que para uns significa liberdade de expressão, para outros significa agressão. As pessoas estão utilizando o ciberespaço para manifestar seus piores sentimentos, suas opiniões mais bizarras, sem se importar com palavras como ‘limite’ e ‘respeito’. É como se as tecnologias da informação tivessem servido como válvula de escape para sentimentos negativos que estavam represados. Dessa forma, a sensação de impunidade no meio virtual pode ser vista como ponto fundamental para esse fenômeno contemporâneo”, coloca.

Para Paloma, há normas de Direitos Humanos sobre liberdade de expressão e sobre a internet. Há, também, normas de Direitos Humanos sobre isso, normas na constituição, legislação federal etc. “O problema (ou não!) é que tais normas são abstratas, no sentido de apenas garantir a liberdade de expressão e a não interferência de alguns provedores de rede no que diz respeito ao conteúdo da informação. O problema consiste em se usar deste direito fundamental de forma negativa. Existe uma tendência mundial de se prezar pela liberdade de expressão, garantindo-a de forma absoluta, porém punindo os usos desta liberdade que terminem constrangendo demais pessoas. Não é negar a possibilidade de se expressar, mas garantir que as pessoas se expressem com responsabilidade e ética”, acredita.

Outro problema enfrentado é a própria velocidade do meio virtual, diz a especialista: “Do que adianta termos leis específicas para um determinado ‘crime virtual’, por exemplo, se daqui há 1 (uma) semana esta conduta colocada como crime virtual estará desatualizada, tendo em vista a existência de uma nova conduta? A legislação tem que ter efeito e ser eficaz para a sociedade. Se já não tem mais serventia ela sequer deveria estar no ordenamento”, afirma.