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Nos 100 anos de Sophia de Mello Breyner, sua poesia política nos provoca sobre justiça e participação. E mais: Silviano Santiago pensa o corpo “inconveniente” que hoje marca militâncias; a luta territorial dos Tupinambá; Maria-Mercè Marçal traz a linguagem dissecada pelo corpo lésbico

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Discurso de Sophia de Mello Breyner na Emissora Nacional (áudio, 1974)

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José Castello

Everardo Norões

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Flip Site abertura

Na história de homenagens da Flip, antes apenas Gilberto Freyre sofrera tantas navalhadas, tantos empurrões e xingamentos. A começar pela escolha da palestra de abertura, proferida por um FHC deitado eternamente no berço esplêndido uspiano, elogiando as belas letras freyrianas e assim enterrando qualquer viés científico do homenageado – ah, a sutileza das tijoladas dos vetos ficcionais... Mas Freyre já é maior que a Flip, maior que FHC, é um fantasma que assombra o imaginário brasileiro para o bem e para o mal. Ele sobrevive do confronto, da dúvida, dos bolos de rolo de finas fatias, do nosso desconforto ao trafegar pelo Recife cercado por tantas edificações batizadas entre a casa-grande e a senzala, como se nada tivessem com isso. Saiu mais forte.

Mas Ana Cristina César, a Ana C, é outra história. Sua homenagem na Flip deste ano chegou cercada de pontiagudas desferidas contra a relevância dos seus livros, contra a espessura (!!! Meudeus!!!) dos seus livros, exalando a falta de manejo de parte da crítica, de parte da imprensa e dos anunciantes (claro, os anunciantes) com sua geração de autores anticabralinos, de versos livres, de afetos como anúncios de páginas de jornais. E política, bem política. (Digo isso, mas afirmo, e acredito, na importância de se discutir poesia, de se questionar a relevância de um autor, de uma geração, isso sempre. Mas quando o questionamento é realizado pelas vias corretas. Problematizar um autor pelo número de páginas escritas, como tem ocorrido com Ana C, é de uma imbecilidade sem tamanho). O curioso é que a crítica maior em relação à homenageada foi realizada pela própria Flip, que, talvez insegura da sua escolha, esvaziou de Ana C a mesa de abertura de uma festa que tem Ana C como tema.

O poeta Eucanaã Ferraz durante uma hora conversou com Armando Freitas Filho e o diretor Walter Carvalho sobre... Sim, sobre o filme que Walter Carvalho fez sobre Armando Freitas Filho, Em tecnicolor, exibido em seguida. Uma conversa de homens, e apenas homens, sobre homens. É como aquela história do Partido das Mulheres sem mulheres. Nenhuma representante do "Mondo Feminino" em cena. Na mesa de abertura, a obra de Ana C sofreu a maior paulada que um artista pode sofrer: o silenciamento, a lembrança lateral. Os quartos vazios sem ninguém para revisitá-los.

É importante que pensemos o que implica a simbologia desse (quase total) silenciamento. Vivemos um momento de discursos em colisão, necessariamente em colisão. É importante questionarmos não a relevância da Flip (o showbizz necessário da nossa literatura), mas seus silêncios, seus embranquecimentos, seus desvios históricos, sobretudo quando, como afirmou o curador Paulo Werneck, no discurso de abertura, vivemos um período de “crise”, de “descontinuidades”. E Ana C com seus navios mal ancorados, com sua biografia picotada e seus saltos fatais diante do nada, talvez seja uma ótima alegoria sobre como escrever/olhar/silenciar 2016.

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