capa 153Solidariedade

A amizade como força política em tempos de crise no livro "As meninas", clássico de Lygia F. Telles lançado há 45 anos. E mais: entrevista com a feminista negra Patricia Hill Collins; Heloisa Starling pensa a República a partir de Machado de Assis; a recepção da literatura russa no Brasil da Era Vargas

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Breve panorama da obra de Lygia Fagundes Telles

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José Castello

Everardo Norões

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Ficcao AlbertoGuerraNaranjo.jun18 HanaLuzia

 

O conto abaixo, Um simples rato pode te envenenar, foi escrito pelo cubano Alberto Guerra Naranjo e é inédito no Brasil. O autor, nascido em 1963, ganhou em março último o XXIV Premio de Relatos Cortos Jose Nogales. A tradução é de Alejandra Rojas C., professora da UFFS. 

 

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UM SIMPLES RATO PODE TE ENVENENAR

Descrever a violência da batida com a corrente nas costas recebida por Jesús Larrea, vinda de um rapazote, confere grande responsabilidade àquele que tentar fazê-lo, principalmente se não considerar que entre ambos (vítima e agressor) o diálogo não verbal ganhava espaço há muito tempo.

Uma chicotada de corrente nas costas, quando inesperada, força uma inclinação imediata, a procura do local atingido, um giro para identificar a procedência. Movimentos simultâneos, frações de segundos, que nenhuma palavra consegue descrever como deveria.

O golpe com a corrente também aceita um grito, Ai, caralho, pronunciado no idioma materno da vítima, com palavras não compreendidas pelo agressor, nem pelos outros quatro que o acompanhavam, mas suficientes para perceber a vantagem. Eles estavam em maior número, ele era um só e foi atacado de surpresa.

Sorrir, apesar de tamanha pancada, desconcertou o agressor e seus comparsas por alguns segundos; primeiro uma careta inesperada, resposta tão contraditória como o próprio ataque, algo do tipo: O que é isso, pessoal? estampado no rosto assustado de Jesús Larrea, que tocava sua dor com uma mão nas costas, enquanto cinco jovens na entrada de um bar, mais espantados do que a sua vítima, sem ter muita clareza de qual ação procederia, o contemplavam sorrindo depois da pancada.

Mas a parte desconcertante de uma história assim, para aquele que pretende contá-la, não deve ser o inesperado ataque sofrido por Jesús Larrea, mas o fato de que ele, como um evidente animal costumeiro, frequentava esse bar cada vez que saía do trabalho.

Tarde após tarde abandonava o metrô entre a multidão, subia as escadas de sua estação assoviando algum antigo modão, caminhava alguns passos até o bar, e se esses mesmos rapazes estivessem enchendo o saco na porta da frente, como quase sempre o faziam, exigia um rotundo pedido de licença com uma voz grave para que se afastassem rápido, meio assustados diante da surpresa, e o deixassem passar com a calma de quem já viveu o bastante e não estava ali para brincadeiras.

Tarde após tarde Jesús Larrea entrava disposto a sentar-se no mesmo banco junto ao balcão, desfrutava que o barman lhe servisse o dobro de vodca após a corriqueira frase amável, assistia ao futebol numa televisão pendurada no alto, colocava o celular encima do balcão num ato solene, meditava um pouco com o olhar perdido no copo, ou no celular, e sua mente ia longe, bem longe, para um lugar onde não havia bares nem balcões como esse, nem rapazes entediados, cheios de tatuagens, que usassem suásticas carregadas de rancor.

Esse 25 de dezembro era feriado, nascimento do menino Jesus, Natal, e ninguém ou quase ninguém tinha ido ao trabalho. Sobravam os enfeites nas ruas, promoções anunciadas nas vitrines, que em função da crise não tinham o mesmo efeito de antes, e as lojas completavam com reforços de santinhos e imagens de Jesus de Nazaré de diferentes tamanhos. Jesús Larrea havia comprado uma dessas imagens antes de exigir licença aos jovens e entrar no bar como se estivesse voltando do trabalho. Também havia comprado uma garrafa de vodca e uma bela caixa de bombons com seu 13º salário para presentear a esposa de seu amigo, um velho pedreiro que já estava prestes a se aposentar e que na noite anterior o havia convidado para jantar em sua casa. Jesús Larrea caminhava com suas sacolas de náilon quando ouviu de longe as vozes dos jovens e, como evidente animal costumeiro, desejou sentar-se no mesmo banco junto ao balcão do bar, de frente para o barman e para a dose dupla de vodca, com o olhar perdido no celular, ou no copo.

Na delegacia, o mais gordo do grupo, aquele de sardas no rosto, a princípio negou todas as acusações com um descaro implacável. Merda, gritou furioso com suas mãos agarradas às grades, mas logo, à medida que o tempo passava, sentiu os murmúrios festivos do lado de fora, inclusive alguns vindos dos próprios policiais, e foi tomado por um medo de adolescente em apuros que logo se transformou em pânico, até que não aguentou mais e confessou aos oficiais que ele havia desferido o golpe.

Ninguém mandou gritar com a gente, disse, para que constasse em ata, mas omitiu o único motivo que o teria posto a salvo naquela tarde. Jamais declarou aos policiais que levava algum tempo vendo seu pai triste, sem ter muito o que colocar na pequena árvore de natal, e então esse estranho saiu do bar com seus pacotes, como se os tivesse roubado de seu pai, e já não conseguiu se controlar.

Naquela tarde de natal, no balcão, como se tivesse um mau pressentimento, Jesús Larrea procurou um número comprido em sua agenda no celular. Discou consciente de que seria um grande gasto, mas não importava, sentiu necessidade de conectar-se de outra maneira com a distância. Vários minutos depois escutou palavras em seu idioma natal. Sim, tinham recebido a tempo o envelope com o dinheiro; do outro lado, agradeceram fervorosamente e o parabenizavam; deste lado, ele devolvia os cumprimentos e a gratidão; do outro lado lhe pediram que se cuidasse muito; deste lado, ele pediu que se cuidassem também, lhe mandavam beijos e ele os devolvia. Quando acabou de falar, colocou o celular outra vez sob o balcão, o barman sorriu como quem diz, Oh, a família, e ele um pouco triste, terminou sua bebida.

Na noite anterior, tinha esperado o 25 de dezembro na casa de seu amigo, o velho pedreiro prestes a se aposentar, que pensava em torná-lo herdeiro de todas as ferramentas que foram de seu pai, porque gostava dele como um filho e já estava na hora de passá-las para boas mãos. Assim balbuciou o velho enquanto cortava o queijo, assim repetiu meio bêbado na porta na hora da despedida, assim o recordava Jesús Larrea enquanto vestia seu casaco, pegava suas compras e abria essa outra porta, a do bar. Mas assim o recordou, além de tudo, horas antes de morrer na cama de hospital para onde o levaram de urgência.

Nessa tarde de natal, um frio intenso feriu Jesús Larrea ao abrir a porta, disse com licença com voz grave, sem imaginar que o mais obeso daquele grupo, aquele com sardas no rosto, iria desajustar seus planos com uma pancada. Por isso sorria inexplicavelmente, depois de um grito de dor em seu idioma, Ai, caralho, ao olhar a corrente nas mãos daquele gordo, sentir um tac mecânico de uma navalha recém aberta nas mãos de outro, perceber o soco-inglês, faca, perigo, adrenalina, linchamento.

Jesús Larrea recuou com suas sacolas de náilon, esquivou a segunda pancada, mas a sorte já estava lançada, nada podia ser feito, cinco criaturas difíceis precisavam dele derrubado, submetido, linchado, como fim inevitável de um diálogo não verbal que ambas as partes (vítima e agressores) sustentavam há muito tempo.

Jesús Larrea morreu no dia do nascimento de Jesus de Nazaré, na frieza de uma cama de hospital, mas antes, seus agressores viram-no pôr sua vida em jogo um par de vezes. A primeira, quando atravessou correndo uma rua repleta de carros, e a segunda, ao jogar-se do quarto andar de um prédio em construção.

Mais de um motorista freou bruscamente diante do medo do homem que alcançou por milagre a calçada da frente e correu como pôde com um casaco de inverno, molhado de suor, como se estivesse em alguma das praias de seu longínquo país e não prestes a ser massacrado por cinco capitães-do- mato pós-modernos, que corriam atrás dele, com o hálito em sua nuca, até que conseguiu entrar no edifício e alcançar as escadas.

No hospital, Jesus Larrea lembrou o seu amigo, o velho pedreiro, não em sua casa, mas no trabalho, quando descobriram uma rata morta na área dos escombros e logo outra na área de alimentos. Lembrou que o velho não quis comer, preferiu fumar devagar, falar da fatalidade que implicava em provar algo mijado por elas, um simples rato é capaz de te envenenar, disse, enquanto Jesús Larrea engolia seu duvidoso sanduíche com coca-cola, e o velho, para mudar de assunto, convidava-o para jantar no dia 24 de dezembro.

Jesús Larrea raivava de dor, mas não deixava de pensar no velho, Um simples rato te envenena, repetia em seu idioma, e a enfermeira, antes de dar-lhe uma injeção, grudava o ouvido em sua boca tentando encontrar coerência em seu devaneio.

Se descrever a pancada recebida por Jesús Larrea, desferida pelo rapazote, confere grande responsabilidade a quem tentar fazê-lo, esforçar-se para ser fiel aos acontecimentos que ocorreram no quarto andar de um prédio em construção, obrigaria a um infrutífero rigor de escrita. Acho preferível doá-lo à imaginação dos leitores e apenas considerar que Jesús Larrea se viu cercado, sem outra saída a não ser lançar-se ao vazio; ressaltar, além disso, que seu corpo caiu sobre o frágil telhado de um jardim de inverno, onde um ancião condimentava um peru, feliz em ter pela primeira vez a família completa, em época de natal.