capa 142Do real e da ficção

Sobre como toda a obra de Margaret Atwood, e não apenas "O conto da aia" fala sobre as crises do nosso tempo. E mais: o lugar do Afrofuturismo nas narrativas assinadas por mulheres negras; cartas de Françoise Ega a Carolina de Jesus; design editorial em 2017

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Atwood fala sobre aborto, Twitter e o que deu errado (leg. em espanhol)

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José Castello

Everardo Norões

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Bastidores Hallina 1 A set17

Com as mãos arroxeadas, abro os aquênios carnosos e sumarentos de Amora.

Eu queria escrever um livro com protagonistas lésbicas. Então, fiquei pensando em como fazer com que essas histórias ultrapassassem a questão da lesbianidade por si. Não que não seja importante, mas minha proposta era outra.

Amora fala principalmente sobre desejo e afeto.

O desejo, como pulsão, está no momento em que as personagens se apresentam: mulheres de várias idades e caminhadas, cujo mundo é estremecido por um evento (e não é isso mesmo o princípio de toda história?) que as obriga a agir. O afeto está presente no modo como buscam suas próprias resoluções e como, nessa busca, se relacionam.

Explico.

Quando a personagem de oito anos do conto Flor, flores, ferro retorcido ouve a mãe dizer “Como pode uma machorra daquelas?”, instaura-se em seu mundo infantil uma curiosidade, e o desejo de saber o que seria uma machorra, palavra atribuída à vizinha como uma doença. Com a sentença de convalescente, a criança leva flores. Uma obviedade infantil. A relação de afeto é mútua: a menina afetada pela curiosidade, a vizinha afetada pela delicadeza da menina.

Assim, narra-se Amora, dentro de uma escolha que é política, porque se faz fundamental para mim como autora e leitora e que cumpre a função de expor representações mais plurais. E que também se faz estética, justamente pela mesma motivação: revisitar estereótipos para repensar o estar-no-mundo dessas personagens, o que foi fundamental ao processo de escrita. Tentar passar longe de registros que abundam na literatura e no cinema quando o assunto ou o protagonismo é lésbico (mulheres erotizadas, jovens, em uma relação conturbada, mulheres casadas e insatisfeitas com os homens, mulheres que estão passando por uma “fase”, mulheres que, infantilizadas, aparecem como lésbicas para causar constrangimento alheio). Não que essas representações sejam problemáticas por si, mas ter que cavoucar para encontrar outras é dose!

Como é um livro de contos e como o principal para o processo de criação foi mesmo a constituição das personagens, apresento algumas. Vera, em Deus me livre, é uma pastora e se prepara para seu primeiro sermão em uma igreja sem nome e sem rótulo, que tenta subverter alguns dogmas. Com Vera, tento emular mesmo um discurso religioso inflamado e contagiante. Em Marília acorda, falo da morte como horizonte da perda de quem a gente ama. Clara e Ângela, em Como te extraño, Clara, descortinam a relação mestra-aluna, em que a mestra casada e com filhos sofre um acidente e, naquela situação de fragilidade, se apresentam diversas dúvidas para as personagens: sou velha demais, jovem demais, casada demais, imprudente demais, mãe demais, o que somos demais? Débora, em Os demônios de Reinfield expõe um quadro de depressão, ao sair de uma relação quase vampiresca. A narrativa dá saltos temporais, borra-se um pouco o ambiente, as impressões se sobressaem, o texto flui como sangue embotado de demônios. Sobre isso também fala Dramaturga hermética, derrama-se em primeira pessoa, sobre os absurdos da alma humana, sobre suas inquietações de artista, sobre os rumos complexos que sua vida tomou. A narrativa epistolar (por e-mails) dá vazão a todo drama da personagem (que eu acho chata!). Para mim, um modo de rir também de uma escrita afetada, pretensiosa e hermética, mas que, em verdade, está repleta de referências-clichês, facilmente acessados.

Por aí caminham as narradoras e personagens. Há uns dias, perguntaram-me: quem narra Amora? Eu disse meio em transe: uma legião de sapatonas. Acho que é isso. Esse coletivo de vozes lésbicas tão peculiares e, ao mesmo tempo, tão presentes em identificação, porque narram experiências de afeto.

Sobre a forma, não me preocupei com regularidades. Por ser um livro de contos, procurei experimentar. Não é um livro experimental, nesse sentido, o meu Recortes para álbum de fotografia sem gente (2013), é mais aventureiro. Enfileirei narrativas em primeira, segunda e terceira pessoa, que, por vezes, saltam de um modo narrativo para outro; diálogos com travessão, discurso direto, com aspas, discurso indireto livre, esse último que me obrigou a criar vozes mais marcantes para as personagens, como a histeria da mãe de Eduarda, contos inteiros em modo dramático, enfim, a dimensão do conto é explorada em diversas maneiras de narrar. Quanto aos textos finais, mais curtos, se ligam mesmo ao Recortes, são mais líricos, mais imagéticos.

Assim me parece ser o livro por dentro. Agora, licença, que vou lavar as mãos e terminar o próximo.