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Coreografias do desejo e outros voleios na dramaturgia de Grace Passô; a subversão do abusador de mulheres como motivo corriqueiro na literatura; Thiago Mio Salla fala sobre pan-lusitanismo e a recepção do romance de 1930 em Portugal; O olhar, um dispositivo literário: sobre Eneida Maria de Souza (UFMG) e seu "Narrativas impuras", novo livro do Selo Pernambuco/Cepe Editora

"Parto", leitura feita por Grace Passô (Flip 2017)

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José Castello

Everardo Norões

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bastidores FINAL A

 

Talvez tenha que começar com um provérbio africano que abre o oitavo capítulo de Um defeito de cor: “Quando não souberes para onde ir, olha para trás e saibas pelo menos de onde vens”; e com um trecho da nona tese de Walter Benjamim, em Teses sobre o conceito de História: “Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele [o anjo da História] vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos”. Acho que escrever o livro foi basicamente isto: realizar o desejo do anjo da História, poder ignorar a tempestade e deter-me diante dos acontecimentos com as asas e os olhos bem abertos, recortar uma fatia de tempo que, aparentemente pertencia ao passado e revirar suas ruínas.

Eu não tinha a menor ideia do que significava embarcar nessa viagem, e uma das grandes surpresas – é preciso dar-lhes importância máxima aqui – foi perceber que lidava com ruínas internas. Já havia experimentado o processo como leitora de alguns livros que me leram mais do que eu a eles, embarcando em viagens alheias, lidando com o deslocamento interno de grandes blocos de certezas e incertezas. Mas nada se compara ao processo de ter que remexer nas próprias ruínas, que escolher caminhos que me levavam a lugares bastante assustadores, nos quais não havia saída, escape, mapa, trilha, boia, facho de luz, companhia. Eu era um ser da diáspora, só depois entendi, que insistia, que precisava, que não tinha escolha senão olhar pra trás para saber de onde vinha.

Nascida de mãe negra e pai branco, sou daqueles seres cujo corpo e mestiçagem foram e continuam sendo usados para defender o que não se sustenta: a inexistência de racismo. Racismo que está na própria raiz da minha existência ao ter sido inventado para justificar o envio de corpos negros como força motriz na construção do Mundo Novo. Tive então, como mestiça, o privilégio de não ter que me pensar negra, de não ter que me pensar como fruto de um projeto de dominação até bastante tarde na vida, quando o livro já começava a fazer parte dela. Foi o meu mapa. Foi o meu guia por entre as ruínas internas de onde brotavam vozes, histórias, segredos, lamentos, risos, resquícios de outros mapas cujas línguas e símbolos fui aprendendo a interpretar.

Na tentativa de encontrar caminhos, lembro-me do que escreveu a poeta, romancista, ensaísta e documentarista canadense Dionne Brand, em seu maravilhoso A map to the door of no return. É sobre como, a partir do momento em que nossos ancestrais atravessaram esta porta em África, a Porta do não Retorno, sob a qual deveriam abandonar todas as memórias, passamos todos a habitar um não lugar. Um ponto que é, ao mesmo tempo, real e imaginário, uma coleção de lugares que também são metáforas de todos os outros lugares onde fomos parar, espalhados pelas Américas. “Ter o próprio pertencimento alojado em uma metáfora”, diz Dionne Brand, “é um enredo luxuoso; é como habitar uma alegoria, ser um tipo de ficção. Viver na Diáspora Negra é, penso eu, viver como um ser fictício – uma criação dos impérios, mas também uma autocriação. É ser alguém vivendo dentro e fora de si mesmo. É entender-se como signo estabelecido por alguém e ainda assim ser incapaz de escapar dele, a não ser em momentos radiantes de simplicidade transformados em arte. Ser uma ficção à procura de sua metáfora mais ressonante é ainda mais intrigante.”

Intrigante e libertador, porque sempre é possível se reinventar. Dizer que Kehinde sou eu, poderia ser uma metáfora? Dizer que, ao remexer nas ruínas, catando fragmentos de vida aqui e ali, o que eu fazia era tentar reunir material suficiente para construir a ponte de volta é explicação que satisfaz? Dizer que ao caminhar sobre os escombros empilhados, o que eu, ser fictício, queria era ser vista? Eu; invisível. Eu; tantos eus comigo. Eus, tentando nos explicar, nos entender, nos reconhecer. Nós; atravessando o mar carregados sobre os ombros dos nossos antepassados, levando gravado a ferro nas retinas espantadas as imagens dos nossos mortos. Para depositar ao pé da porta, que já não está mais lá como julgávamos conhecê-la. Dizer o que? Por mim, é Kehinde quem diz. Abra o livro e ouça só:

 

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