capa 142Do real e da ficção

Sobre como toda a obra de Margaret Atwood, e não apenas "O conto da aia" fala sobre as crises do nosso tempo. E mais: o lugar do Afrofuturismo nas narrativas assinadas por mulheres negras; cartas de Françoise Ega a Carolina de Jesus; design editorial em 2017

Clique para baixar o pdf

Atwood fala sobre aborto, Twitter e o que deu errado (leg. em espanhol)

banner site

José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

vtopia brasil A

 

 

A célebre Utopia de Thomas More, escrita em 1516 em latim renascentista, o chamado “neolatim”, levou mais de 400 anos para ser traduzida no Brasil. Não que não se conhecesse a obra – menções a ela e a More frequentam nossa imprensa pelo menos desde os anos 1830. Uma edição em tradução brasileira, porém, só aparece pela primeira vez em 1937.

Saiu pela Athena Editora, feita por um certo Luiz de Andrade, a partir de uma tradução francesa. Foi reeditada inúmeras vezes, até data muito recente, e continua em viçosa circulação. É, de longe, a tradução mais corrente entre nós.

Apenas em 1980 sai outra Utopia brasileira: fica a cargo de Anah de Melo Franco, também a partir de uma (outra) tradução francesa, pela editora da UnB. Em 1993, temos a de Jefferson Luiz Camargo e Marcelo Brandão Cipolla, a partir do inglês, pela Martins Fontes. A seguir, em 1997, sai a tradução de Paulo Neves, pela L&PM, a partir do francês.

Em 2016, ano em que foram comemorados cinco séculos da Utopia moriana, a Vozes publicou a tradução de Leandro Dorval Cardoso, a primeira, entre nós, a ser feita a partir do original em neolatim. Agora em 2017, sai a tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, também a partir do neolatim, pela Autêntica.

Esses 80 anos da presença utopiana no Brasil não passaram isentos de duas ou três malandragens editoriais, que aqui não vêm muito ao caso.

 

II

Fico curiosa sobre o tradutor da primeira Utopia brasileira. Quem era Luiz – posteriormente grafado Luís de Andrade?

Em pesquisas, a única referência mais imediata se encontrava num registro no sistema de catalogação das bibliotecas da USP, que, anos atrás, achara por bem identificar esse nosso Luiz de Andrade como Luiz de Carvalho Paes de Andrade (1814-1887), um engenheiro que durante o Império desempenhara várias funções no setor alfandegário dos portos de Pernambuco. Como e de onde se extraiu tal ilação é um mistério, mas, em todo caso, o equívoco foi desfeito em data recente.

Nesse meio tempo, entre o registro bibliográfico e a retificação do lapso, porém, tal identificação chegou a ser adotada por alguns pesquisadores em seus estudos e artigos: assim, a Utopia de Thomas More teria sido traduzida no século XIX pelo engenheiro pernambucano supracitado e reeditada pela Athena em 1937.

Mas, não. Como a própria agência catalogadora reconheceu, a informação não procede. E a pergunta continua: quem era Luiz de Andrade?

 

III

A Athena iniciou suas atividades editoriais no final de 1934, no Rio de Janeiro, tendo à frente Pasquale Petraccone, um italiano radicado no Brasil, ativo militante antifascista e vinculado à Liga Comunista Internacionalista (LCI). Os escritórios da Athena operavam também como sede da seção brasileira do Socorro Vermelho (ala trotskista), que tinha como uma de suas principais finalidades fornecer apoio material a perseguidos e presos políticos.

A Athena, desde o começo, trabalhava com uma linha diversificada de coleções: Biblioteca Clássica, Biblioteca Moderna, Biblioteca de Cultura Política, Biblioteca de Teatro etc., abrangendo um grande leque de obras e autores.

Chama a atenção seu catálogo humanista, quase uma propedêutica à grande tradição do pensamento ocidental. São dos primeiros aportes entre nós de Platão, Sêneca, Campanella, Erasmo, More, Maquiavel, Shakespeare, Descartes, Rousseau, Voltaire, Diderot, Hegel, Ricardo e muitos mais.

Chama a atenção, também, o perfil de seus tradutores: trotskistas e anarquistas como Lívio Xavier, Berenice Xavier, Fúlvio Abramo, Aristides Lobo, Rachel de Queiroz, Maria Lacerda de Moura, e mesmo comunistas como Carlos Lacerda e Heitor Ferreira Lima.

E a terceira coisa que chama a atenção é o frequente uso de pseudônimos em suas traduções dos anos 1930 – aliás, recurso mais do que compreensível durante a ditadura varguista: “Paulo M. Oliveira”, “Luiz Fontoura”, “J.A. Soares”, “J.L. Moreira”, e que soam tão genéricos, quase anódinos... (exceção é um esdrúxulo “Blásio Demétrio”, a saber, Fúlvio Abramo, traduzindo a dantiana Vida nova – que ironia – no cárcere.)

Tal era, em parcos e sumaríssimos traços, o perfil da editora que publicou a primeira tradução brasileira da Utopia de Thomas More.

Quanto a seu tradutor, Luiz de Andrade, aposto meus tostões que se trataria de mais um pseudônimo, protegendo a identidade de um militante de esquerda sob a mira do regime.

Se non è vero, non è forse ben’ trovato?