capa 142Do real e da ficção

Sobre como toda a obra de Margaret Atwood, e não apenas "O conto da aia" fala sobre as crises do nosso tempo. E mais: o lugar do Afrofuturismo nas narrativas assinadas por mulheres negras; cartas de Françoise Ega a Carolina de Jesus; design editorial em 2017

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Atwood fala sobre aborto, Twitter e o que deu errado (leg. em espanhol)

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José Castello

Everardo Norões

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Castello1 A nov17

 

As recentes manifestações e atos de censura a exposições de arte, que se multiplicam tristemente pelo país, ilustram nossa difícil relação com o Estranho – com tudo aquilo que parece fora de seu centro, ou fora do lugar. A onda conservadora que adoece o Brasil de hoje é, antes de tudo, uma defesa veemente do conhecido. Do Mesmo. Uma opção, em consequência, pela imobilidade. Ao pensar no Estranho e nas reações que provoca, penso sempre em Freud. É ele quem, em um célebre ensaio de 1919, nos recorda que, apesar de associarmos o Estranho, por hábito, ao assustador, ou ao monstruoso, a palavra, na verdade, guarda significados mais profundos; que nos ajudam agora, um século depois, a refletir sobre o que se passa nas mentes daqueles que defendem a censura e não só a paralisia, mas o retrocesso.

Na acepção de Freud, o Estranho não seria tanto o monstruoso, ou o horroroso, mas, sim, o estrangeiro, ou, em outras palavras, o não familiar. Algo primitivo, ou ao contrário, futurista, que vem perfurar o sossego de nossos dias banais. Em alemão, língua em que Freud escreveu, a noção de Estranho, ele nos diz, se encarna na palavra heinlich; palavra ambígua, mostra-nos que guarda significados contraditórios; mas que, seguindo Schelling, o filósofo, prefere traduzir como “tudo o que deveria ter permanecido secreto, mas veio à luz”. A tradução para outras línguas, lembra ainda, pode nos ajudar. Uncomfortable, em inglês. Inquiétant, em francês. Sospechoso, em espanhol. Tudo aquilo que parece guardar algo que se mantém fora da vista, mas que, no entanto, está todo o tempo ali.

Meditando sobre a presença do Estranho entre nós e, mais ainda, sobre como ele se torna, para muitos, um sinônimo do “inaceitável”, lembrei-me de um livro que acabo de ler: O mestre de Petersburgo, do sul-africano J. M. Coetzee. Para os que desconhecem o romance, tento resumi-lo. Aos 48 anos de idade, e vivendo na Europa, o escritor russo Fiódor Dostoievski retorna a São Petersburgo na esperança de desvendar a morte misteriosa de seu enteado Pavel. Não chega a tempo de assistir ao enterro, mas, ao longo de sua visita, defronta-se com o anarquista Serguei Nietcháiev, um rapaz de 22 anos, grande amigo do falecido e figura-chave em sua morte.

O romance – que li na tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves para a Companhia das Letras – é extraordinário, e aproveito para recomendá-lo com ênfase. Nele, a questão do Estranho ocupa um lugar central, e me ajuda, portanto, a pensar a respeito das medonhas cenas de intolerância, convertidas em ações de censura, que vivemos hoje. Lendo Coetzee, uma preciosa chave talvez se encontre no capítulo 10, batizado “A torre em ruínas”. É nele que me detenho, para tentar refletir a respeito do que nos assombra.

Fiódor está tenso. A mulher que o hospeda, com quem ele tem um caso amoroso, o ajuda a pensar. O escritor suspeita de Nietcháiev. Pensa em entregá-lo à polícia, mas não sabe distinguir a justiça da vingança, e isso o atormenta. A mulher, Anna, o incita a agir, mas ele desconhece que opinião verdadeira tem a respeito do jovem militante. “Nietcháiev não é um anarquista. Esse é o erro das pessoas. Ele é outra coisa”, diz, vacilante. Mas se é outra coisa – estranha -, o que é? Marca então um encontro com uma finlandesa que milita no mesmo grupo político. Ela o leva a Nietcháiev.

A versão de Nietcháiev é a de que a polícia matou Pavel. Tenta demonstrar sua tese. Conduz o escritor por uma escada muito íngreme. Fiódor se deixa levar. “De dentes cerrados, ele repete a si mesmo as palavras: Eu não deveria ter vindo”. Tudo lhe parece estranho – mas será, por isso, monstruoso, ou apenas não familiar? O rapaz se defende, afirma que salvou Pavel, que não o matou. Fiódor lhe pede que jure sobre sua alma imortal. “Não jurarei por algo em que não acredito”. O escritor se perturba. “Acreditar: mais uma palavra. O que significa acreditar?” Leitor do célebre Crime e castigo, Nietcháiev não nega, porém, seu respeito por Fiódor. Enfim: ambos têm sentimentos ambivalentes. Ambos estão diante do não familiar. Diante do Estranho, e é sobre sua sombra que eles precisam se mover.

Nietcháiev lhe narra sua versão da morte de Pavel. Estamos em uma luta de versões. Isso bastará? Tudo o que a polícia lhe disse após a morte do amigo foi que ele estava morto, e que havia acontecido no Cais Stolyarny. O delegado não usou a palavra suicídio, mas outra mais vaga e, em consequência, mais estranha: infortúnio. Quanto a Fiódor, que evidentemente não é o responsável pela morte do enteado, sente ainda assim “uma inércia da qual a morte de Pavel é apenas a causa imediata”. Em outras palavras: de alguma forma, mesmo estando distante quando tudo aconteceu, ele está comprometido com o que aconteceu. Atordoado, chega a uma surpreendente conclusão: “Sou eu quem morreu e fui enterrado. Pavel é quem está vivo e sempre estará”.

Embora discorde das posições políticas que o rapaz abraçou sob a influência de Nietcháiev, o escritor nelas reconhece um valor – uma potência –, que não consegue ver em si mesmo. Fiódor consegue, então, aceitar o Estranho. Continua a discordar de Pavel, mas não empurra sua posição para o campo da monstruosidade. Em vez disso, mesmo repudiando seus atos, consegue admirá-lo. Creio que aqui está a chave que procuro: mesmo com um sentimento de perturbação, precisamos aprender a aceitar a potência (beleza) que há naquilo que repudiamos. A dolorosa viagem de Fiódor de volta a Petersburgo é, por fim, uma aprendizagem. Mesmo a contragosto, ele aprende a suportar, e até a admirar, o que o perturba.

Pensei no romance de Coetzee porque creio que é disso que estamos precisando hoje. Diante do Estranho – daquilo que nos parece fora do lugar, daquilo que subitamente veio à luz quando preferíamos que permanecesse secreto – precisamos de uma segunda palavra: tolerância. E ainda mais que isso: lutar para entender por que o Estranho nos inquieta tanto. O que há dele dentro de nós? O que há, enfim, de Estranho em nós mesmos? Por isso, só posso entender a atitude dos que tratam de fugir, ou, até mais, dos que pedem a censura e o extermínio, com uma terceira palavra: covardia.