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Eu sou pesquisadora da poesia de cordel. Já conversei com um monte de poetas, li incontáveis folhetos. No percurso, sempre aparece Leandro Gomes de Barros, encantado há 100 anos. Me falam dele como “pai” da poesia, por ter inaugurado a forma impressa da poesia popular. São pessoas gratas, dizendo que ele é um gênio. Eu chamaria de empreendedor – o que não lhe suprime a genialidade. Sem recursos financeiros para investir em uma editora, haveria de usar a criatividade para pensar em um formato barato, fácil de transportar, e que mantivesse a aura da poesia oral, que já era o “jornal” do Sertão. E aí ele é quem oferece o folheto colibri. Leve e volante. Capaz de chegar aos mais distantes territórios.

De início, pensei que isso se devia só ao seu pioneirismo. Que, depois, tudo teria se transformado e que essas homenagens constantes eram um esforço de engessamento da poesia de cordel, um apego ao passado e uma resistência ao futuro, com medo da morte do cordel. Como se fosse a criação de uma figura heroica, quase santificada, a quem os poetas poderiam se apegar para reivindicar a própria legitimidade poética. Principalmente, quando eu ouvia falar sobre sua obra conservadora, machista e preconceituosa. Mas eu estava enganada. Ainda bem.

Me permiti a leitura de suas obras. Politicamente, mantenho uma criticidade, por exemplo, diante de seus folhetos sobre a figura da sogra. Mas cedi à qualidade técnica – ora, se é uma técnica poética desenvolvida por ele, claro que ela seria brilhante. E li mais. Percorri os clássicos que me foram sugeridos pelos vendedores de Fortaleza. A Orfã, Pedro Cem, Cancão de Fogo são protagonistas que me despertam simpatia. E eu desço do alto da minha pretensão de não ouvir os poetas e de julgar Leandro.

O que hoje se convencionou chamar de cordel é uma prática que decorre da poesia criada, impressa e vendida por ele. Com maestria, ele falou das mais diversas temáticas: política, sociedade, religião. Escreveu romances que se transformaram nos clássicos da poesia de cordel e criou protagonistas que inspiraram muitos outros personagens de seus contemporâneos e continuam inspirando os poetas de hoje.

Boêmio, dotado de uma criatividade e um senso crítico aguçado, o poeta falava dos temas mais tensos, como a política da época, em tons de humor. A sátira é uma marca que permeia sua obra, principalmente quando se refere às suas antipatias: a figura da sogra, os padres e os protestantes. Os traços de machismo e de conservadorismo de sua obra são reveladores da transição entre os séculos XIX e XX. São marcas daquele cotidiano que permanecem até hoje, inclusive no cordel contemporâneo. Não sei se o machismo tão frequente na poesia de cordel de hoje, também é uma característica que se deve a essa inspiração. Mas, certamente, essas manifestações associadas à comicidade têm apoio literário em sua obra.

Apesar disso, a obra de Leandro Gomes de Barros não se restringe aos sexismos e aos preconceitos. Assim como a poesia de cordel que vivemos. Ela transpassa tais aspectos e é resistência. É instrumento de luta, é política e é o deleite literário, que tanto já se tentou negar.

O que causa espanto, até hoje, em quem se aventura pelos laços da vida com a obra do autor, era a sua pouca escolaridade. Formalismos são mantidos como preconceito contra as artes não moldadas pela escrita e contra os processos criativos livres de amarras técnicas. A falta do ensino formal apontada pelos admiradores não foi definidora do poeta. Sua formação foi oferecida pelo tio, Frei Francisco de Assis Xavier da Nóbrega, dono da biblioteca que foi o portal para um mundo novo, que o poeta reconstruiria mais adiante em seus versos.

Indisciplinado, o poeta emprestou traços de sua própria personalidade à forma literária que lançaria. Ele era afrontoso, o que também define o cordel, que permanece sendo um insulto à poderosa e elitista literatura canônica. Seu tom jocoso alfinetava as pessoas poderosas e as instituições que rejeitava, o que atribuía acidez às suas obras. Em pequenas comunidades, falar sobre exageros do Estado e da Igreja parecia insulto demais. E Leandro, com uma criatividade sagaz e reconhecida até hoje, conseguia dosar sua poesia para que ela permanecesse.

O poeta teve a teimosia necessária à resistência, que traz o cordel até os dias de hoje, com todas as transformações tecnológicas que pareciam ser limitadoras. Mas o apego ao passado é estético e os poetas sabem que devem continuar nos rastros empreendedores de Leandro e se apropriar das mídias como aliadas.

Tanto que é a internet o espaço mais fácil de encontrar seus folhetos. Os acervos virtuais da Fundação Casa de Rui Barbosa, do Fonds Cantel e da Fundação Joaquim Nabuco têm cordéis digitalizados e com acesso livre. Seus títulos também vêm sendo reeditados, impressos e vendidos em feiras. A editora Tupynanquim é a que tem mais folhetos reeditados atualmente, e vem publicando títulos do poeta, que são vendidos em feiras e bancas. Difícil mesmo é encontrar bancas de folhetos espalhadas pelo Brasil.

Mas, no Nordeste, onde o cordel é parte do cenário, Leandro figura entre os autores mais procurados e vendidos. As editoras Luzeiro e Queima-Bucha também reeditaram seus cordéis. Os folhetos circulam pelos mesmos espaços por onde Leandro transitava vendendo suas produções: são bancas, feiras, rodoviárias.

Como formas de divulgar esses folhetos, a professora Ione Severo me contou que mantém a cordelteca Leandro Gomes de Barros em Pombal (326Km de João Pessoa), com cerca de mil títulos doados por poetas colaboradores, que reconhecem a importância da obra. O trabalho dela tem sido fundamental para a valorização da poesia popular do Nordeste. A visibilidade nacional vem com Ariano Suassuna, que se inspirou nos folhetos O cavalo que defecava dinheiro e O dinheiro ou O testamento do cachorro para sua peça O auto da Compadecida. Os créditos foram dados nas diversas palestras de Ariano.

Além da grande influência para o Movimento Armorial, Leandro também causou fascínio em Carlos Drummond de Andrade, que o comparou a Olavo Bilac como Príncipe dos Poetas brasileiros, em 1976 no Jornal do Brasil. E Mário de Andrade, amante da cultura popular, afirma no Diário Nacional, em 1931, ter se inspirado na obra de nosso poeta para a criação de seu Macunaíma. Em ambos os casos, os escritores modernistas mostram o exercício de valorização do folclórico que, na época, era tão desmerecido.

Sua pouca escolaridade formal, ou sua poesia de folhetos por muitos considerada de baixa qualidade não aprisionaram a qualidade técnica, estética e criativa do poeta. Que, além do reconhecimento de figuras do cânone da literatura nacional, permanece até hoje ensinando poetas a fazerem versos de cordel, e estes o referenciam diariamente.

O pioneirismo de Leandro está na publicação de folhetos impressos na forma como eles são identificados hoje. Tanto com relação à métrica e às rimas (sextilhas e septilhas, rimadas na forma ABCBDB ou ABCBDDB), como também pelo formato de folhetos (11x16 cm). Costuma-se dizer que a nomenclatura cordel vem de uma herança portuguesa, em que os primeiros cordéis eram vendidos pendurados em cordas. Mas já conhecemos uma diversidade “genética” do cordel mais ampla e essa dita herança ibérica é somente a mais próxima, por ter vindo na mala da Coroa Portuguesa, fugida para o Brasil em 1808. São os folhetos mais antigos dos quais se tem registro.

A história do Brasil e, mais especificamente, do Nordeste têm em Leandro um marco: o da efetivação de uma literatura que, de tão rica, não se consegue definir como gênero, como formato, nem se consegue dizer exatamente o que a define. Porque essa literatura, que chamamos de cordel, escapa inclusive das amarras literárias, das escolas e dos padrões.

O cordel é o imaginário que o poeta organizou em folhetos. O que nós acadêmicos chamamos de transdisciplinar, porque é usado como registro do cotidiano, como objeto de ensino, como documento historiográfico, como forma de conhecimento. O imaginário do Nordeste que é narrado na poesia do autor retorna ao mágico mundo real construindo novos imaginários.

O marco zero da poesia de cordel é impossível de ser definido. Desde que existe ser humano no mundo, há uma necessidade imanente da consciência de construir narrativas. E cada comunidade trabalha suas histórias a partir dos recursos que dispõem. No Nordeste brasileiro, muitas histórias foram contadas em rimas, acompanhadas por violas, configuraram disputas poéticas (os repentes). Essas poesias são a base da estrutura poética do cordel, que é a forma impressa das poesias orais que já foram os jornais do Sertão. O autor é o grande marco da escrita no processo poético do cordel.

As influências de Leandro Gomes de Barros para a literatura estão no espaço definidor da poesia de cordel. Que ele não precisou “inventar”, mas, pela escrita, ofereceu-lhe uma proposta de permanência que foi aceita e incorporada. Desde seus contemporâneos, como Manoel de Almeida Filho, Manoel Camilo dos Santos e José Camelo de Melo Rezende, passando por poetas que viveram no final do século XX e começo do século XXI, como por Manoel Monteiro e José Alves Sobrinho, até poetas atuais, como Leila Freitas, Maestro Rafael Brito, que continuam se inspirando em sua obra e tomando-a como padrão de qualidade formal e estética.

Os versos de Leandro são estudados nas escolas. Professoras e professores utilizam a poesia de cordel em aulas de literatura e como referência lúdica na educação. Há alegria nos versos e isso chama a atenção de crianças em fase de aprendizagem da leitura. Os exercícios despertam, inclusive, a vontade de fazer composições poéticas, porque essas crianças se deparam com uma linguagem que é acessível a elas e que tem uma estrutura que facilita seus processos de memorização.

Sua genialidade, como a de muitos poetas, artistas e pessoas de outras atividades cotidianas, não passa pela educação formal. É a sagacidade de ler e interpretar o mundo, e fazer dele poesia. Uma poesia que dispensa saberes acadêmicos e socialmente legitimados, dispensa a literatura canônica e empreende em um mercado editorial excludente, propondo uma produção alternativa que permanece em plena vitalidade mais de 120 anos depois.

A cabeça, um tanto grande e bem redonda,
O nariz, afilado, um pouco grosso:
As orelhas não são muito pequenas,
Beiço fino e não tem quase pescoço.
(Peleja de Manoel Riachão com o Diabo)

Leandro tem uma biografia escrita pelo poeta cearense Arievaldo Viana. Esta obra é uma referência tanto historiográfica quanto poética sobre a vida do pioneiro do cordel, que abriu caminho para muitos outros cantadores e editores que trabalharam em suas próprias tipografias. Além do livro de Arievaldo, outros estudiosos e pesquisadores da poesia e cordel se propuseram a contar sua vida, mas em âmbito acadêmico ou como parte de outras histórias, as quais ele atravessa. Conto aqui um pedaço do que admiradoras e admiradores do poeta me falaram sobre ele. Foram as conversas plenas de entusiasmo que me ajudaram em meu percurso de relacionamento com Leandro.

O poeta nasceu no sítio Melancias, no município de Pombal, na Paraíba, em 1865 e seus primeiros folhetos datam de 1893, quando abriu sua tipografia, depois de comprar máquinas impressoras que estavam em desuso nas grandes cidades. Quando começou a imprimir folhetos, ele já morava em Pernambuco, em Vitória de Santo Antão, a 55 Km do Recife. Em seguida, mudou-se para Jaboatão e viveu a maior parte de seus dias na capital.

Leandro casou-se com dona Venustiniana Eulália de Sousa, provavelmente, segundo Arievaldo Viana, no mesmo ano em que teria publicado seu primeiro folheto, 1893. O casal teve três filhas um filho: Raquel Aleixo, Esaú Eloy, Julieta e Herodías. O sustento da família vinha da venda dos folhetos produzidos por ele, que circulavam nas feiras e nos trajetos de ônibus que ele realizava. Podia também enviar folhetos por correios e os anúncios dos títulos apareciam nas contracapas.

O poeta era “bom de copo”, mas evitava uísque por rejeitar costumes ingleses – que criticava em versos sobre a população do Recife. Detestava a figura da “sogra”, assim como daqueles a quem chamava de “nova seita”, os protestantes.

Uma rivalidade de tons comerciais foi nutrida entre Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde, que comprou os diretos autorais de sua obra, em 1921, depois de sua morte. Athayde ficou conhecido pela admiração que tinha ao poeta, pelas inspirações que tomava, mas também por, depois de comprar os diretos de publicação da obra de Leandro, suprimir o nome do autor e deixar somente o próprio nome nas capas dos folhetos, causando grandes confusões posteriores, decorrentes dos conflitos de autoria. Athayde chegava a alterar os acrósticos (última estrofe do cordel tem cada verso iniciado com uma letra do nome do poeta), para retirar as assinaturas dos folhetos.

Olhos grandes, bem azuis, têm cor do mar:
Corpo mole, mas não é tipo esquisito –
Tem pessoas que o acham muito feio,
Mas a mamãe, quando o viu, achou bonito!
(Peleja de Manoel Riachão com o Diabo)

 

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A obra

Sátiras, anticlericalismo, rejeição à “nova-seita” (protestantismo), críticas a estrangeirismos, romances, ciclos carolíngios, adaptações de clássicos ibéricos são temas recorrentes de destaque que conheci na obra de Leandro Gomes de Barros.

Ainda muito incomodada com traços de misoginia, buscando entender mais sobre a obra do poeta, não me conformei que tantos insultos à figura da sogra pudessem ser gratuitos. Perguntei ao professor José Itamar Sales, que escreveu um livro sobre a temática (A sogra na obra de Leandro Gomes de Barros), que pesquisou a vida e a obra do autor em seu trabalho de mestrado. Ele associa esses cordéis a um estigma social com relação a essa relação de parentesco, e ao fato de ele ter vivido problemas com Dona Carolina, mãe de sua esposa, que era contra o casamento da filha com o poeta devido à sua fama boêmia e pelos preconceitos que havia contra artistas. Por conta de questões financeiras, já que Leandro vivia apenas da venda de seus folhetos, o casal morou cerca de 8 anos em conflito na casa da sogra.

A explicação de Itamar não justifica, mas explica que o poeta escrevia sobre seus próprios posicionamentos, por mais contraditórios que eles pudessem ser. Escrevia com a verdade de quem acredita no que diz. E, em seus moldes literários de falar do real, despertou o encantamento em canônicos, nas elites intelectuais e também nos demais poetas populares. Os trabalhos do autor se apresentam como uma forma da literatura tratar de questões ideológicas e políticas. Ele usava metáforas, fábulas, criava personagens para criticar a Igreja Católica e os protestantes, o judiciário e as práticas coronelistas. Tinha um posicionamento favorável à figura dos cangaceiros, tratando-os nos versos como heróis do sertão.

Foi um narrador do cotidiano do Nordeste, a partir de sua vida no Recife. Contava as transformações que acompanhava na virada do século XX, problemas decorrentes da seca, histórias religiosas e tantas outras questões que pairavam na cidade e, assim, documentava os acontecimentos de sua época.

“Quando você encontrar um folheto bem-feito, um cordel bem-elaborado, com métrica, rima e oração, usando uma linguagem popular e agradável, polvilhada de chistes e de filosofia, de riso e de pranto, pode ter certeza que ali está a influência de Leandro”, falou-me Arievaldo Viana. Fascinado pela sua obra, o poeta cearense pesquisou e escreveu sua biografia como uma forma de homenagear o autor que fez parte de sua formação literária e inspira constantemente as suas produções.

A história de Leandro Gomes de Barros é permeada de problemas da ordem de autoria. Depois de sua morte, quando João Martins de Athayde comprou os direitos das obras de Leandro e assinou suas capas, houve grandes dificuldades para a identificação das obras, diante da complicada atribuição autorias precisas. Os acrósticos acabaram sendo a forma mais próxima de identificação, ainda que tenham sido alterados.

A forma dos versos, as estruturas narrativas, as temáticas críticas, os traços de humor, são marcas cunhadas pelo poeta. Porque sendo Leandro “o pai” do cordel, a desobediência fica restrita aos de fora. Todos os poetas cordelistas de hoje têm pelo menos um elemento de sua obra presente em suas produções. Já que o cordel do autor é a referência para classificar se uma poesia é ou não cordel.

Foi esse Leandro que conheci. Eu que, na tentativa de reagir a preconceitos, tive um preconceito atrapalhando meu mergulho em uma história que explicaria muito o fenômeno que eu estudo tanto, pelo qual eu brigo, que eu defendo como legítimo, inclusive sem a necessidade da minha validação. Conheci um grande cronista que, nas críticas, deixava transparecer a inquietação das opressões, apontava o dedo e alfinetava lugares de poder.

Foi um poeta de contradições, como a matéria da linguagem que ele inaugura. Com a leveza das folhas, alcançou públicos em Portugal, na Espanha, na França e movimentou a academia para tentar entender que poesia é essa, tão “simples”, tão “barata” e por isso mesmo popular, combativa e complexa. Leandro, com essa ousadia, é impossível de ser conhecido com amarras. É preciso fluir em sinestesias e ouvir as cores dos versos que ele traz da voz para o papel e transforma em produto do corpo, em performance.

O negócio de Leandro deu certo, ainda que não venha acompanhado de um grande lucro. É parte da luta, da resistência do popular. Leandro permanece, assim como o cordel que tantas vezes teve a morte anunciada. Estamos nos transformando juntos.

 

Heranças do poeta

O cordel é, muitas vezes, associado a uma poesia do passado. Os folhetos são tomados como uma literatura menor, “simples”, ingênua e intuitiva. Mas isso é uma grande falácia em que muitos acadêmicos da década de 1970 tentaram nos fazer acreditar. Trata-se de uma poesia com todos os requintes de sofisticação estéticos, estruturais, formais e temáticos.

Seja na fala de folcloristas e até mesmo ouvindo poetas contemporâneos – não preciso nem dizer que a academia, de forma geral, se fecha e bate o pé contra a poesia popular, mas aos poucos, vamos conseguindo brechas para inserir as discussões culturais de forma plural – há uma ideia do cordel associada à fragilidade e pobreza. Como se, o tempo todo, ele precisasse de legitimação externa, quando essa poesia é, por si só, detentora de uma sabedoria que o cânone não dará conta, em sua cultura grafocêntrica, de apreender, porque ela vai além das letras escritas nos folhetos.

O cordel é uma forma de experiência no mundo, é um diálogo, é uma performance, é voz e sua interpretação engana a hermenêutica e se faz como epifania. Esses preconceitos não se sustentam nem quando o cânone é tomado como referência. Lembro aqui que Patativa do Assaré era um amante d’Os Lusíadas, por exemplo. Conheço poetas professoras e professores de universidades, outro que é juiz. E esses títulos passam longe da validação de sua poesia, porque o que está em questão é uma poiesis que não se aprende e uma técnica que demanda exercícios contínuos de criação.

Grandes poetas como Jarid Arraes, Salete Maria, Maestro Rafael Brito, Rouxinol do Rinaré mantém suas produções vivas e constantes. E elas circulam nos mais diversos meios: em folhetos, como a forma tradicional, mas também em redes sociais, em blogs, em livros, em declamações na televisão. E trazem temas fundamentais para o cotidiano, que tratam de representatividade, de questões ideológicas e políticas, comentam grandes acontecimentos e permanecem sendo, como na época de Leandro, crônicas fundamentais do presente.

Crianças e adolescentes são, cada vez mais, o público consumidor do cordel – o que tem me inspirado. Elas aprendem na escola e transitam nas bancas, nas feiras e em festivais de poesia, buscando folhetos que ouviram na aula. Pela forma considerada “simples” de métrica e rima, a musicalidade do cordel auxilia no exercício da leitura. Buscam por títulos clássicos, conhecem autoras e autores, fazem referências aos temas e demandam: “Eu quero um cordel do Leandro Gomes de Barros”.

Quando observo os modos de fazer do cordel hoje em dia, debato-me com as materialidades, os sentidos, a história e os campos de conhecimento pelos quais transita. Mas isso não é exclusividade dos dias atuais, nem de um pequeno grupo de intelectuais vaidosos. Leandro, quando publicou seus folhetos, lançou para o mundo literário uma nova forma de construir narrativas, de viver e de construir imaginários que ficariam tão marcados para uma região. Leandro ofereceu para nós, nordestinas e nordestinos, uma obra que é parte do nosso reconhecimento de identidade, que tomamos como nosso, pelo qual lutamos e resistimos. Leandro deu forma e permanência às histórias que são o nosso sentir.

 

* Gisa Carvalho é jornalista e doutoranda em Comunicação (UFMG).

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