Man on wire

Em 2015, por ocasião do lançamento comercial do documentário Últimas conversas, a montadora Jordana Berg escreveu um texto para a revista Piauí em que partia de uma hipótese tentadora para analisar a obra de Eduardo Coutinho, o cineasta com quem ela trabalhava desde 1999 e que morreu antes que o seu Últimas conversas pudesse ser por ele concluído. Dizia Jordana que, já havia algum tempo, Coutinho vinha aos poucos eliminando em seus filmes os artifícios cinematográficos. Eliminou pesquisa e roteiro (O fim e o princípio), cenários (Jogo de cena, Canções), direção de atores (Moscou), apagou até o próprio dispositivo da câmera (Um dia na vida), até que, por uma infeliz ironia, conseguiu eliminar a si próprio de seu último filme, o já citado Últimas conversas. E o que Jordana falava nesse texto é que, à exceção de sua não programada morte, quanto mais Coutinho suprimia os elementos cinematográficos de seu cinema, mais seus filmes acumulavam uma potência, maiores eram as questões colocadas e mais instigantes eles se tornavam.

Gostaria de tomar emprestada essa hipótese de Jordana Berg para usá-la como alegoria do que acontece hoje no jornalismo cultural, algo que por sua vez está inevitavelmente entrelaçado à ideia macro que fazemos do próprio jornalismo. No caso específico do Brasil, o que se vê nesses últimos anos é um gradual desaparecimento de revistas e cadernos de jornais dedicados àquilo que se convencionou chamar de “cultura”. De forma mais direta, é possível dizer que há um sistemático apagamento dos espaços reservados às reportagens e críticas sobre literatura, artes plásticas, cinema, música e assim por diante. Naturalmente, esse não é um movimento voluntário como pode ter sido aquele do cineasta que eliminava o “cinema” para fazer cinema. O apagamento dessas revistas e cadernos no Brasil é antes o sintoma de um total descontrole sobre o objeto “jornalismo cultural” do que um domínio que se faz dele, como era o caso de Coutinho diante da gramática do cinema documental.

No entanto, e aqui vem a minha hipótese, é possível que essa gradual eliminação das páginas impressas que outrora foram reservadas à crítica e a longas reportagens culturais crie, assim como aconteceu na obra de Coutinho, o que há de mais produtivo e instigante no terreno do debate sobre o próprio jornalismo. E não deixa de ser curioso observar que, a cada “marca” de jornalismo cultural que padece, mais ampla e intensa se torna a discussão sobre, com o perdão do vício, o que, como, onde e, particularmente, por que meios esse jornalismo deve operar. Ou seja, quanto menos jornalismo cultural for publicado nessas páginas, mais jornalismo cultural podemos criar fora delas. É preciso celebrar esse momento.

Note-se que estamos falando, muito precisamente, do apagamento de um certo tipo de texto dentro de um modelo de “grande imprensa”, ou seja, dos produtos de mercado sustentados pela estrutura corporativista. Já se sabe, e os números dentro e fora do Brasil provam isso, que o modelo de negócio dessas corporações midiáticas está falido. Mas não é, e isso precisa ser reiterado sempre, a falência desse modelo a causa do padecimento das páginas de crítica cultural nos jornais e revistas. Se elas são as primeiras a serem sacrificadas no abatedouro das reuniões de pauta, é porque eram justamente nelas que podia haver algum espaço de dissonância. O esvaecimento do jornalismo cultural acontece, portanto, muito antes que se elimine o papel em si. Ele começa quando, no lugar da crítica, entra a agenda cultural; no lugar do repórter, coloca-se a assessoria de imprensa; no lugar do atrito, a conformidade.

De modo que não vejo apocalipse algum no desejo de que o chamado jornalismo cultural, preso ao cada vez maior engessamento dormente da “grande imprensa”, seja apagado, eliminado e jogado, enfim, para longe da cena. Para usar um termo do cinema, é no extracampo, ou seja, no que está fora de quadro, que muitas vezes se dá o conflito mais poderoso da narrativa. O debate, hoje, sobre o jornalismo cultural está, igualmente, para além das bordas, num espaço que ainda não foi enquadrado e organizado. Ele está nesse terreno baldio onde, embora nada tenha sido ainda construído, tudo se torna potência de algo por vir (que o diga o vasto terreno ainda desocupado do Cais José Estelita, no Recife, alvo de tantas disputas e nascedouro de um reposicionamento da população diante do direito à cidade).

Não recebo com nostalgia a notícia de que não mais existe o carimbo do caderno cultural onde trabalhei por 10 anos (e sou grata a esse tempo). Falo do Caderno C, do Jornal do Commercio, de Pernambuco. Porque sei que há algo forte na história da marca desse caderno (e da revista Bravo, do suplemento Sabático…), que, ao morrer, produz uma energia de discussão muito maior do que suas páginas poderiam suportar hoje. Entendo que essa nostalgia seja absolutamente natural diante dos acontecimentos. Como já diria a artista e pesquisadora russa Svetlana Boym, quanto mais fragmentado é o tempo e espaço em que vivemos, mais forte se torna o desejo por uma ideia de continuidade, e aí a nostalgia nada mais é que um mecanismo de defesa para o acelerado ritmo em que as coisas mudam de lugar.
Acredito, portanto, que é efetivamente na ausência e morte dessa marca que se produz a presença do debate capaz de brotar questões velhas e novas, tais como: Até que ponto o jornalismo cultural pode ser o agente legitimador da arte? Existem mudanças estruturais quando se transfere esse agenciamento antes feito por jornalistas e hoje administrado por celebridades das redes sociais? Por que a dissonância e a crítica está hoje, predominantemente (é claro que há exceções ainda na “grande imprensa”), em blogs e sites bem distantes da chancela da empresa corporativista? Será produtivo dessacralizar a ideia da imprensa? A quem serve o jornalismo cultural? Ou ainda mais adiante: ele deve, de fato, servir?

Todas essas perguntas são (ou deveriam ser) transversais ao próprio fazer do jornalismo cultural. Não é preciso que se responda a nenhuma delas, mas é fundamental que elas sejam feitas nesse momento tão profícuo em que, na ausência de matéria, o universo possa entrar em expansão. Ou, para usar a cosmologia mais concreta de Eduardo Coutinho, é importante que se possa finalmente tensionar o jornalismo cultural a partir da eliminação de seus dispositivos e de sua pretensa solidez. Isso não significa, de forma alguma, esquecer a importante fortuna crítica já armazenada até aqui. Na verdade, o jornalismo cultural sobre o qual deveríamos estar pisando é uma corda amarrada entre duas torres gigantes: uma se ergue na memória do que essa produção de pensamento conseguiu criar, a outra se constrói nas possibilidades que se abrem a partir das fissuras do edifício da comunicação. O ponto é: Para que o caminho seja excitante, eliminemos as telas de proteção que possam nos amortizar. É preciso suprimir o jornalismo cultural dessa “grande imprensa” para que o jornalismo cultural volte a ser um caminho excitante sobre o abismo.

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