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O Carnaval de 2016 tem o símbolo da Zika, da crise econômica, dos rumores políticos, enfim, a herança do desânimo que sobreviveu a 2015. Numa crônica recente, Ruy Castro declarou: "Para muitas pessoas "o Carnaval de 2016 será fabuloso - pelo menos de que, nessa disparada rumo ao Buraco, logo mais não haja mais Brasil ou Carnaval". Seu palpite eufórico vem de uma crônica de Nelson Rodrigues, em que ele relata o inesquecível Carnaval de 1919, de quando o Rio de Janeiro ressurgiu na folia, após ter sofrido o pavor da Gripe Espanhola.

Publicamos abaixo um pequeno trecho desse texto Nelson, presente no livro A menina sem estrela:

...

E eis que o Hélio Pellegrino e o Mário Pedrosa foram passar três dias em Cabo Frio. O Mário tem, lá, uma casa selvagem. Eu os imagino na praia, ouvindo o silêncio das ilhas. Nada de jornal, de manchete. Estavam espantosamente sós. E não leram, através das 72 horas, um único e escasso jornal, uma única e escassa
manchete. Era uma solidão virginalmente analfabeta. 

E, então, nos três dias e nas três noites, Hélio Pellegrino e Mário Pedrosa foram dois centauros e repito: — dois centauros esculpidos em areia, sal e vento. Depois voltaram, claro. Mas vinham convencidos de que o asfalto é homicida e suicida. Na vida urbana o homem mata e se mata. Eis o que eu queria dizer: — também homicida e suicida foi o Carnaval de 1919, logo depois da espanhola.

O Hélio Pellegrino não era nascido. O Mário Pedrosa, sim. Mas o Hélio Pellegrino não era nascido, nem o Otto Lara Resende e muito menos o Cláudio Mello e Sousa, nem o Alfredo C. Machado. Mas já andava por aí o Álvaro Nascimento, que hoje escreve no Jornal dos Sports sob pseudônimo de Zé de S. Januário. Na espanhola, ele foi caçado, quase laçado no meio da rua. O nosso Álvaro só adoeceu no fim da gripe e quase morreu quando já ninguém morria. Como eu ia dizendo: — deram-lhe uma pá e disseram-lhe: — “Vamos enterrar defunto!”.

E ele os enterrou, aos borbotões. Foi coveiro. E, ainda hoje, vê um morto, qualquer morto, como a um velho conhecido. Mas voltemos ao Carnaval de 18, aliás, 19. Hoje, temos um sociólogo, o Sérgio Lemos, que liga tudo à epopéia industrial. Se a galinha pula a cerca do vizinho, se o caçula tem coqueluche, se usamos cabeleira à Búfalo Bill — está explicado. As coisas acontecem, e só acontecem, porque o Brasil se industrializa.

Mas eu me permitiria insinuar que, em 1919, não foi bem assim. Começou o Carnaval e, de repente, da noite para o dia, usos, costumes e pudores tornaram-se antigos, obsoletos, espectrais. As pessoas usavam a mesma cara, o mesmo feitio de nariz, o mesmo chapéu, a mesma bengala (naquele tempo, ainda se lavava a honra a
bengaladas). Mas algo mudara. Sim, toda a nossa íntima estrutura fora tocada, alterada e, eu diria mesmo, substituída.

Éramos outros seres e que nem bem conheciam as próprias potencialidades. Cabe então a pergunta: — e por quê? Eu diria que era a morte, sim, a morte que desfigurava a cidade e a tornava irreconhecível. A espanhola trouxera no ventre costumes jamais sonhados. E, então, o sujeito passou a fazer coisas, a pensar coisas, a sentir coisas inéditas e, mesmo, demoníacas.

Estou aqui reunindo as minhas lembranças. Aquele Carnaval foi também, e sobretudo, uma vingança dos mortos mal vestidos, mal chorados e, por fim, mal enterrados. Ora, um defunto que não teve o seu bom terno, a sua boa camisa, a sua boa gravata — é mais cruel e mais ressentido do que um nero ultrajado. E o Zé de S. Januário está me dizendo que enterrou sujeitos em ceroulas, e outros nus como santos. A morte vingou-se, repito, no Carnaval.

Eu poderia fazer, aqui, todo um capítulo sobre o pudor. O comportamento do homem e da mulher até princípios de 1919 era medieval, feudal ou que outro nome tenha. Psicologicamente, ainda não ocorrera para nós a abertura dos portos. A mulher que ia ao ginecologista sentia-se, ela própria, uma adúltera. 

E tudo explodiu no sábado de Carnaval. Vejam bem: — até sexta-feira, isto aqui era o Rio de Machado de Assis; e, na manhã seguinte, virou o Rio de Benjamin Costallat ou, ainda, do Theo Filho. — Caímos muito de categoria”, dirão vocês. Respondo que até um verso de jornal de modinha, ou uma manchete de O Dia, tem a sua dimensão sociológica. Desde as primeiras horas de sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade. Eram os mortos da espanhola — e tão humilhados e tão ofendidos — que cavalgavam os telhados, os muros, as famílias.

Nada mais arcaico do que o pudor da véspera. Mocinhas, rapazes, senhoras, velhos cantavam uma modinha tremenda. Eis alguns versos: — “Na minha casa não racha lenha./ Na minha racha, na minha racha./ Na minha casa não falta água. / Na minha abunda.” etc. etc. As pessoas se esganiçavam nos quatro dias; e iam assim de
paroxismo em paroxismo.

Nos carnavais seguintes, a cidade teve medo dos próprios abismos; houve um certo recuo. Mas o Rio de Machado de Assis, ou de Macedo, ou sei lá, estava morto. O que quero dizer, ainda, sobre o Carnaval da espanhola é que foi de um erotismo absurdo. Daí a sua horrenda tristeza. Disse não sei quem que o desejo é triste. E nunca se desejou tanto como naqueles quatro dias. A tristeza escorria, a tristeza pingava, a alegria era hedionda.

Mas escrevi que o desejo é triste. Vejam o último Carnaval, o de 67. Nunca as mulheres se despiram tanto. Muitas usavam menos que a folha da parreira. Foi essa nudez difusa, multiplicada, oferecida, que matou todo o erotismo dos bailes e das ruas. Os homens nem olhavam os nus; ou olhavam com surdo ressentimento e um tédio cruel. Era como se, de repente, nascesse uma incompatibilidade maligna entre os dois sexos. E, por isso, foi um salubérrimo Carnaval, sem nenhuma obscenidade. O que víamos, nos bailes, nas ruas, nas avenidas, eram castíssimas multidões.

Todavia, de vez em quando, julgo perceber no Rio moderno o clima de 1919, logo após a espanhola. Imaginem vocês que, há uns dez ou quinze dias, o Otto Lara Resende resolveu conhecer a noite. Como se sabe, há toda uma promoção tenaz e profissional da noite. Há sujeitos que pagam o leite do caçula e o sapato da mulher escrevendo sobre a vida noturna. E o Otto traçou o itinerário sábio e proveitoso e invadiu a madrugada.

É ele próprio quem o diz. Voltou da noite apavorado. Por exemplo: o Bateau. Todo mundo desgraçado, todo mundo no extremo limite da loucura e do suicídio. É uma excitação sem desejo. É uma obscenidade sem prazer. É um deserto interior, deserto inconsolável, sem uma pia, sem uma bica. De repente, o Otto viu um padre. Quem o trouxe, quem? Segundo o próprio Otto, ele veio pela mão de um velho conhecido nosso: — o Diabo. E podia ser também o próprio Satã, numa de suas inumeráveis caracterizações. De que igreja, ou de que deus, seria essa batina que florescia, ali, numa mesa do Bateau? Súbito, a batina começou a se encharcar de uísque. Aquele só podia ser o sacerdote de uma fé defunta e de um deus também fenecido. E todo mundo, ali, tinha a cara vingativa dos suicidas. No seu canto, o religioso passava a mão na cara para sentir a própria hediondez.

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