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Desde que o deputado Eduardo Cunha venceu a eleição para a presidência da Câmara, em fevereiro, a vida política brasileira entrou num estado de crescente tensão, que atinge seu mais alto grau agora, com o acolhimento do pedido de impeachment da presidente da República.

Mas, a rigor, a tese do impeachment começou a ser formulada antes mesmo da vitória de Dilma Rousseff. Na imprensa, foi discretamente plantada por Merval Pereira em sua coluna do Globo de 24 de outubro de 2014, dois dias antes da realização do segundo turno das eleições. A partir da famosa capa da revista Veja, que acusava Dilma e Lula de saberem “de tudo” – isto é, do esquema de corrupção na Petrobras, segundo uma suposta acusação do doleiro Alberto Youssef –, Merval escreveu que, se comprovadas as denúncias, “o impeachment da presidente será inevitável, caso ela seja reeleita”.

Dilma venceu por pequena margem e a oposição logo contestou o resultado, levantando a hipótese de fraude, ao mesmo tempo em que estimulava protestos a favor do impeachment. Manifestações insignificantes, que reuniam trinta, vinte, dez pessoas e até menos, ganhavam status de notícia. Manifestações significativas, que reuniam multidões de verde e amarelo e misturavam palavras de ordem contra a corrupção e o governo a esdrúxulos apelos por “intervenção militar constitucional já”, eram cobertas intensivamente, em tempo real, na internet e nas TVs. Em março, durante os preparativos para a monumental passeata na Av. Paulista, a Folha de S.Paulo se esmerou na convocação, publicando um quadro no estilo “serviço” que informava sobre os “atos contra Dilma”, “quando” e “onde”.

É preciso, portanto, recuperar o fio da meada de toda essa história para perceber o papel da grande imprensa nessa profecia autocumprida do impeachment, que começa a se concretizar agora. Inclusive porque esse processo vem de longe: tem suas raízes na cobertura do “mensalão”, ainda no governo Lula, e de seu sucedâneo, a Operação Lava Jato, que até o momento ignorou deliberadamente o esquema de corrupção na Petrobras anterior aos governos petistas. Mesmo agora, quando a prisão do senador Delcídio do Amaral ameaça pôr em causa o que ocorria antes desse período, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vem a público declarar que, “se houve algo, durante o meu governo, foi conduta imprópria, não corrupção organizada, como agora”.

Com o auxílio luxuoso das grandes corporações de mídia, é confortável argumentar nesses termos. Em fevereiro, quando começaram a circular as informações da delação premiada de Pedro Barusco, ex-diretor da Petrobras preso na Lava Jato, a diretora da Central Globo de Jornalismo ordenou, por email, a retirada dos trechos que mencionavam o ex-presidente. “Revisem os VTs com atenção! Não vamos deixar ir ao ar nenhum com citação ao Fernando Henrique”. No mês seguinte, um descuido de um jornalista da Agência Reuters, em relação ao mesmo episódio, tornou famosa a expressão “podemos tirar, se achar melhor” – uma observação colocada no processo de edição da reportagem e inadvertidamente publicada, para logo depois ser apagada, não sem antes deixar o inevitável estrago que “viralizou” e provocou infinitos memes na internet.

Os motivos para o impeachment variaram ao longo do tempo: inicialmente, foi a “denúncia” do doleiro, na edição da revista – que, aliás, foi imediatamente obrigada a publicar a resposta dos acusados, embora só tenha cumprido a determinação judicial, com o devido destaque, uma hora antes do fim da votação, sem incluir qualquer informação a esse respeito em seu acervo digital. Depois surgiram vários outros, até o atual, que aponta as “pedaladas fiscais”, apesar de amplamente realizadas por outros presidentes, por motivos justificados ou não, e que nunca suscitaram um arquear de sobrancelhas.

A questão, portanto, para a oposição e para a imprensa que atua em seu favor, sempre foi uma só: derrubar o governo, a qualquer custo.
Mas, naturalmente, sempre em nome da democracia.

Como em 64.

Não, não se trata de comparar os contextos, mas os métodos. Na época, a luta de classes era mais clara e organizada. Havia interesses poderosos contrariados, que impuseram o golpe. Agora, a polarização ideológica típica aparentemente arrefeceu – há quem insista em afirmar o anacronismo da distinção entre esquerda e direita, por mais que a exploração do trabalhador, as desigualdades sociais e o preconceito continuem flagrantes –, mas se expressa no discurso do ódio que se reproduz nas mídias sociais e volta e meia se concretiza nas ruas, sobretudo nas manifestações políticas pró-impeachment ocorridas ao longo do ano.

O governo atual não deveria provocar tamanha reação, pois aplica o programa que combateu durante a campanha, embora ainda preserve interesses relevantes, como a exploração do pré-sal, objeto de permanente cobiça de grupos estrangeiros e seus representantes domésticos. O que move os articuladores do golpe são interesses pessoais, entre os quais o do próprio Eduardo Cunha, que, atolado em acusações de corrupção, abusa das manobras para retardar seu julgamento no Conselho de Ética da Câmara e conta com aliados que ofendem, pelo cinismo e pela absoluta falta de compostura, aqueles que ainda creem na necessidade do respeito a um mínimo de valores para o exercício da vida pública.

Este é o complicador atual: esta imprensa alimentou o golpe, mas não quer a companhia de uma figura como Cunha.

Pode ser tarde.

Por isso – por causa dos métodos – é que podemos evocar 64.

Entraram para a história os editoriais do Correio da Manhã – “Basta!”, “Fora!” – que marcaram aqueles dias. Porém, já em 2 de abril, quando comemorava a vitória, deplorava, em texto-legenda que acompanhava foto de primeira página, a “atitude condenável de vindita” de grupos armados que empastelaram o jornal Ultima Hora, o único a defender o governo então derrubado.

É só um singelo exemplo, entre tantos possíveis.

Quem cria corvos e semeia vento não pode ignorar as consequências. Nem pode arrogar inocência, 50 anos depois.

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