madonna
 
Vendo as fotografias de um perfil no Instagram, me deparei apenas com selfies: exatos 487. Rostos fotografados a uma curta distância da câmera – o celular – em situações que não se evidenciavam. Em quase todas elas, o tal rosto ocupava perto de 80% da área da imagem e via-se, numa certa periferia da fotografia, rastros de algo que fosse ambiência, espaço, senão. 
Tudo era certeza no rosto que nos interpela. 
 
Mas havia rastros. Uma sombra, uma luz de amanhecer, um traço de parede, uma luz mais branca, menos alaranjada (seria noite?), algo como um lençol, um tecido quadriculado. 
Meu exercício: tentar ver o que há na selfie que não é rosto. O que não se dá na convocação. Ou, por já terem exaustivamente comentado sobre o punctum nos escritos sobre fotografia de Roland Barthes, talvez seja oportuno pensarmos o studium. As condições sócio-históricas, a cultura, algo como a tessitura do consciente que se evidencia na imagem. Se o punctum era afecção, sentimento, algo que nos ata, nos aprisiona e nos comove; o studium seria aquilo que não nos convoca, o dado – embora não evidente – na própria materialidade das coisas.
 
O studium talvez fosse a chapa em que a imagem fotográfica um dia esteve. O papel fotográfico que registrou o negativo. A nudez do negativo. Aquilo que nos dizia: é esta a época desta imagem. Na desmaterialização do suporte fotográfico, o que restou? Os grãos de prata viraram pixels. A poeira material se constituiu digital. De opacidade a brilho. Então, como postular sobre studium num suporte que chamamos tão destraidamente de “arquivo digital”? Um ícone solto na branquidão de uma interface computacional. O que nos resta: olhar para o que se constituiu nos pontos digitais. 
 
Proponho um exercício: ver o que não é rosto numa selfie. E, talvez como uma postulação barthesiana, encontrar vestígios de uma época. 
 
A saber: selfie é um autorretrato. Normalmente tomado com uma câmera fotográfica de mão ou celular com câmera. Selfie é um limite. A câmera e o rosto. Um intervalo. A constituição de um elo. Selfie foi considerada a palavra internacional do ano de 2013 pelo Oxford English Dictionary. Talvez porque todos tenham falado. Ouvido. Visto.
 
Selfie é uma pose. Pele que se oferece. Tez sem poros. Beijo sem língua. Um querer ser visto em seu domínio de visibilidade. Selfie é um controle. Uma disciplina. Um corpo dócil – como proporia Foucault. Vigiado em sua singularidade. 
 
O que há de político na selfie?
 
Se pensarmos que política é a negociação em torno de aspectos tangíveis da vida comum, a selfie nos diz sobre uma época de vigilância. De uma disciplina que se ergue sob a égide da felicidade que ocupa “pelos olhos, boca, narinas e orelhas”. A selfie seria a política da presença – na presença. Paralisia do momento em que tudo começa. Desintegração e atualização do outro. 
 
A política da selfie é a política das narrativas dos sujeitos deslizantes do Facebook. Da espectatorialidade que se projeta sobre nós com a inevitabilidade dos amantes sedentos. A história sendo contada por ninguéns querendo ser alguéns. Ou de uma período que insistem em chamar de “era da ostentação”, do narcisismo, mas que talvez possamos compreendê-lo como “era da busca”. Época dos pertencimentos. E dos estranhamentos. 
 
Proponho olhar a selfie para além do rosto e para aquém da pele. O que se localiza entre a beleza almejada e a repulsa adquirida. O que me faz belo? 
 
Diante das 487 selfies do perfil do Instagram que vi, lembrei de uma amiga me dizendo algo como ter vergonha de postar selfie. E talvez a vergonha de postar a selfie possa ser um dos últimos vestígios de intimidade que nos resta. A vergonha da selfie parece ser a fotografia de papel repousada na gaveta, em sua insignificância espacial e profundo pesar existencial. A negação à selfie poderia ser pensada como a reclusão quase que inexplicável aos deleites do pertencimento. Alguém olhando uma cena, mas deliberadamente virando o rosto. Ou talvez, poderiam pensar os materialistas utópicos, a observação de um intangível. 
 
Na vergonha da selfie estaria também contida a dor da selfie.
 
E chamo dor da selfie algum sentimento de desamparo que acomete a selfie pouco curtida. A oferta do prato de comida recusado. A dupla negação: da coisa e da imagem. Haveria uma profunda solidão na selfie que não consegue a ação do outro. Um like. Um pequeno ato de bravura na costura das intenções. A política da selfie seria portanto a política da ação mínima. O quase. Limiar entre desejo e ação. Leve toque. Dedilhar a imagem como um piano. E na ação mínima, o laço mínimo. Pertencimentos fortes a fantasmagorias e vigilâncias.
 
E também num clique, saio do perfil com 487 selfies e começo a ver as fotos de uma conhecida que está viajando por Buenos Aires. A princípio, ela posta imagens mais gerais, planos mais abertos. As ruas de Palermo, papas fritas e sanduíches de miga em San Telmo, estátua de Mafalda. Começo a me lembrar que ela posta pouco no Instagram, mas vai ver é a viagem, a comoção pelos lugares, um afeto perdido pela história. Divagações minhas e dela – nas imagens que vejo. Num certo período da viagem, percebo que ela começa a ser fotografada por alguém. Sempre ligeiramente distante, angulações cubistas, enquadramentos higiênicos. Fico aguardando a selfie. Aquela. A tal.
 
Adentro as curvas da imagem. 
 
Quem está fotografando ela? Por que tanta frieza na imagem? Chegue mais perto. Diga uma coisa bonita. E seguem as fotos de paisagens. Num dado momento, muitas janelas. E converso com um amigo que me sai com “fotografias de janelas são a prova de que alguém não quer ver o mundo”. Ou “fotografias de janelas são sintomas de alguém que está mais interessado na moldura que na imagem”. Ou “fotografias de janelas são fotografias de esqueletos: onde está a carne do real?”. 
 
Não houve nenhuma selfie na viagem desta conhecida. 
 
E dias depois, numa mesa de bar, alguém comenta que ela tinha viajado com um “amigo” que insistia em deixá-la na friendzone - aquela zona do relacionamento em que as pessoas são “amigas” talvez pela covardia de viver um amor recluso ou pela coragem de apostar na amizade como elo tenaz. E, não sei bem porque, me veio a ideia de política: aproximação e distância. O ausente na imagem que era a coisa mais presente. E logo eu pensei também numa certa vez em que falei algo como “Vamos fazer uma selfie”, fazia barulho, um som distante, luzes, dois corpos, hálito de cerveja, “Vamos fazer uma selfie” “O quê?”, e parece que a música aumentou de volume ou foi o exato momento em que a bebida bateu, só sei que o meu vamos-fazer-uma-selfie se espraiou na multidão das palavras desacontecidas, das ações incompletas e, como aquela música que fala em desquebrar meu coração, nossa selfie habitou algum intervalo entre o meu pedido e a sua desatenção, o meu querer e o seu sentir.
 
Deve haver um lugar em que nossa selfie vai acontecer.
 

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