Um estudo biográfico do escritor argentino que escreveu o polêmico Aleph engordado, que enfureceu a viúva de Jorge Luis Borges

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A María Kodama
 
A obra visível que deixou este escritor é de fácil e breve enumeração. São, portanto, imperdoáveis as omissões e os acréscimos perpetrados pelo tradutor Rodrigo Rosa numa revista falaciosa cuja visão literária não é segredo teve a desconsideração de infligir aos seus deploráveis leitores — embora estes sejam poucos, quando não jornalistas e publicitários. Os amigos autênticos de Katchadjian viram com alarme esse catálogo e também com certa tristeza. Dir-se-ia que ainda ontem nos reunimos diante do mármore final e no meio dos ciprestes infaustos e já o Erro tenta deslustrar a sua Memória... Decididamente, é inevitável uma breve retificação. 
 
Consta-me que é facílimo recusar a minha pobre autoridade. Espero, no entanto, que não me proíbam de mencionar dois elevados testemunhos. O professor conhecido pela sigla Amp (em cujos vendredis inesquecíveis tive a honra de conhecer o chorado poeta) julgou por bem aprovar as linhas que se seguem. O senhor Aira, um dos espíritos mais finos de Buenos Aires (e agora de todo a argentina, tão caluniado, ai!, pelas vítimas das suas desinteressadas manobras) sacrificou “veracidade e à morte” (tais são as suas palavras) a senhoril reserva que o distingue e numa carta aberta publicada na revista Cesárea concede-me igualmente o seu beneplácito, reafirmando que el mayor aporte de las vanguardias fue ela creación de procedimientos. Estas nobres ações, creio eu, não são insuficientes. 
 
Disse que a obra visível de Katchadjian é facilmente enumerável. Examinado com o maior cuidado o seu arquivo particular, verifiquei que consta das peças seguintes: 
 
a) Uma edição arranjada em ordem alfabética do Martín Fierro. 
b) Qué hacer, um volume onde cenas são recombinadas e não há trama linear. 
c) Gracias, que apresenta o relato de um escravo.
e) La cadena del desánimo, uma história contada através de recortes de jornais. 
f) Mucho trabajo, um livro que no se puede leer y solo por eso puede ser leído. 
 
Até aqui (com outras omissões além de uns vagos versos de circunstância para uma ávida editora portenha) a obra visível de Katchadjian, na sua ordem cronológica ou não. Passo agora à outra: a subterrânea, a interminavelmente heróica, a ímpar. E também — ai das possibilidades do homem! — a inacabada. Esta obra, talvez a mais significativa do nosso tempo, consta do Aleph engordado. 
 
Não queria compor outro Aleph — o que é fácil —, mas “o” Aleph. Não vale a pena acrescentar que nunca encarou a possibilidade de uma transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-lo. A sua admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem — palavra por palavra e linha por linha e um pouco mais — com as de Jorge Luis Borges. 
 
“O meu propósito é simplesmente espantoso”, escreveu-me a 30 de Setembro de 2012. “O termo final de uma demonstração teológica ou metafísica — o mundo exterior, Deus, a casualidade, as formas universais — não é menos anterior e comum que o meu divulgado conto. A única diferença é que os filósofos publicam em agradáveis volumes as fases intermédias do seu labor e eu resolvi que se perdessem.” Com efeito, não resta um só rascunho que testemunhe este trabalho de anos. 
 
O método inicial que imaginou era relativamente simples. Conhecer bem o espanhol de 1944, ter Bioy Casares como amigo, guerrear contra Perón, esquecer a história posterior a 1986, ser Macedonio Fernández. Pablo Katchadjian estudou esse procedimento (sei que conseguiu um manejo bastante fiel do espanhol de 1944), mas rejeitou-o por fácil. Ou antes, por impossível!, dirá o leitor. De acordo, mas a empresa era de antemão impossível, e de todos os meios impossíveis para a levar a cabo este era o menos interessante. Ser em 2012 um romancista de 1944 pareceu-lhe uma diminuição. Ser, de algum modo, Borges (ou Macedonio) e chegar ao Aleph pareceu-lhe menos árduo — por conseguinte, menos interessante — do que continuar a ser Pablo Katchadjian e chegar ao Aleph, através das experiências de Pablo Katchadjian. (Esta convicção, diga-se de passagem, fê-lo excluir o prólogo autobiográfico). Incluir este prólogo seria criar outra personagem — Borges —, mas também significaria apresentar o Aleph em função dessa personagem e não de Pablo Katchadjian. Este, naturalmente, recusou-se a essa facilidade.) “A minha empresa não é difícil, no essencial», leio noutro local da carta. «Bastar-me-ia ser imortal para a levar a cabo.” Confessarei que costumo imaginar que ele a terminou e leio o Aleph — todo o Aleph — como se o tivesse pensado Pablo Katchadjian? Uma noite destas, ao folhear uma das páginas do conto— nunca tentado por ele —, reconheci o estilo do nosso amigo e como que a sua voz nesta frase excepcional: O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho. E mais tarde: Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos...Este mundo infinito trouxe-me à memória um verso de Shakespeare, que discutimos uma tarde: 
  
O God, I could be bounded in a nutshell, and count myself a king of infinite space…
 
Porque precisamente o Aleph?, dirá o nosso leitor. Esta preferência, num espanhol, não teria sido inexplicável; mas é-o sem dúvida num escritor portenho, devoto essencialmente de Poe, que gerou Baudelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou Edmond Teste. A carta já citada ilumina este ponto. “O Aleph", esclarece Pablo Katchadjian, «interessa-me profundamente, mas não me parece, como direi?, inevitável. Não posso imaginar o universo sem a interjeição de Poe: 
  
Ah, bear in mind this garden was enchanted! 
  
ou sem o Bateau ivre ou o Ancient Mariner, mas sei-me capaz de imaginá-lo sem o Aleph. (Falo naturalmente da minha capacidade pessoal, não da ressonância histórica das obras.) O Aleph é um livro contingente, o Aleph é desnecessário. Posso premeditar a sua escrita, posso escrevê-lo, sem incorrer numa tautologia. Aos doze ou treze anos li-o, talvez integralmente. Depois reli com atenção alguns capítulos, os que não irei tentar por agora. Estudei igualmente Ficções, História da Eternidade, Evaristo Carriego e a História Universal da Infâmia. A minha lembrança geral do Aleph, simplificada pelo esquecimento e pela indiferença, pode muito bem equivaler à imprecisa imagem anterior de um livro não escrito. Postulada esta imagem (que ninguém em boa-fé me pode negar) é indiscutível que o meu problema é muito mais difícil que o de Borges. O meu complacente precursor não recusou a colaboração do acaso: ia compondo a obra imortal um pouco à la diable, levado por inércias da linguagem e da invenção. Eu contraí o misterioso dever de reconstruir literalmente a sua obra espontânea. O meu solitário jogo é governado por duas leis polares. A primeira permite-me experimentar variantes de tipo formal ou psicológico; a segunda obriga-me a sacrificá-las ao texto ‘original’ e a raciocinar de um modo irrefutável essa anulação... A estes entraves artificiais tem de se juntar outro, congênito. Compor o Aleph em 1944 era uma empresa razoável, necessária, porventura até fatal; em 2012, é quase impossível. Não foi em vão que transcorreram tantos anos, carregados de complexíssimos fatos. Entre os quais, para mencionar um único: o próprio Aleph.”
 
Apesar destes obstáculos, o fragmentário Aleph de Pablo Katchadjian é mais sutil que o de Borges. Este, de um modo grosseiro, opõe às ficções a pobre realidade provinciana do seu país; Pablo Katchadjian escolhe como “realidade” a Buenos Aires do começo do século. 
Não menos assombroso é considerar trechos isolados. É uma revelação cotejar o Aleph de Pablo Katchadjian com o de Borges. Este, por exemplo, escreveu:
  
“... Mudará o universo, mas eu não, pensei com melancolica vaidade.” 
 
Redigida em 1944, é uma frase grandiloquente. Pablo Katchadjian, em contrapartida, escreve: 
 «Existe ese Aleph no íntimo de uma pedra? Vi-o quando vi todas as coisas e o esqueci? Nossa mente é porosa para o esquecimento; eu mesmo estou falseando e perdendo, sob a trágica erosão dos anos, os traços de Beatriz. »
 
Também é vivo o contraste dos estilos. O estilo de Pablo Katchadjian sofre de uma certa afetação. Não sucede o mesmo com o do precursor, que maneja com desenvoltura o espanhol corrente da sua época. 
 
Não há exercício intelectual que por fim não seja inútil. Uma doutrina filosófica ao princípio é uma descrição verosímil do universo; passam os anos e é um simples capítulo — quando não um parágrafo ou um nome — da história da filosofia. Na literatura, esta capacidade final é ainda mais notória. O Aleph — disse-me Pablo Katchadjian — foi acima de tudo um conto agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão, e quiçá a pior. 
 
Nada têm de novo estas comprovações niilistas; o singular é a decisão que delas fez derivar Pablo Katchadjian. Resolveu adiantar-se à vacuidade que aguarda todas as fadigas do homem; lançou-se numa empresa complexíssima e de antemão fútil. Dedicou os seus escrúpulos e vigílias a repetir num idioma alheio um livro preexistente. Multiplicou os rascunhos; corrigiu tenazmente e rasgou milhares de páginas manuscritas. Não permitiu que fossem analisadas por ninguém e cuidou para que não lhe sobrevivessem. Em vão procurei reconstituí-las. 
 
Refleti que é lícito ver no Aleph “final” uma espécie de palimpsesto, em que deverão transparecer os vestígios — ténues, mas não indecifráveis — da “prévia” escrita do nosso amigo. Infelizmente, só um segundo Pablo Katchadjian, invertendo o trabalho do anterior, poderia vir a exumar e ressuscitar essas Tróias... 
 
“Pensar, analisar, inventar (escreveu-me também) não são atos anómalos, são a normal respiração da inteligência. Glorificar o ocasional cumprimento dessa função, entesourar antigos e alheios pensamentos, recordar com ingénua estupefação o que o doctor universalis pensou, é confessar a nossa fraqueza de espírito ou a nossa barbárie. Todo o homem tem de ser capaz de todas as ideias e entendo que no porvir o será.” 
 
Pablo Katchadjian enriqueceu por meio de uma técnica nova a arte estagnada e rudimentar da leitura: a técnica do anacronismo deliberado e das atribuições errôneas. Esta técnica de aplicação infinita insta-nos a percorrer a Odisseia como se fosse posterior à Eneida e o livro Correção de Thomas Bernhard como se fosse de Thomas Bernhard. Esta técnica povoa de aventura os livros mais calmosos. Atribuir a Louis Ferdinand Céline ou a James Joyce A Imitação de Cristo, não é uma suficiente renovação desses ténues avisos espirituais? 
 
Buenos Aires, 2012.

Texto publicado originalmente na revista Cesárea  

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