Quase 40 anos após aquele encontro, tenho a certeza de que Clarice Lispector é como os adolescentes: possui a imensidão do mundo.

Rio de Janeiro. Julho de 1969. Clarice residia no Leme, no apartamento que comprara dois anos antes, em que vivia com a enfermeira Siléa Marchi, que a acompanharia até a morte. Telefonei ressabiado, pedi para vê-la por alguns momentos e, generosa, convidou-me para um café no final da tarde do dia seguinte.

Nervoso, toquei a campainha e ela se assustou com as duas dúzias de rosas amarelas que me antecederam. “Como você sabe que gosto das amarelas?”. Estão na Paixão, respondi de imediato. “Na Paixão...?”, retrucou incrédula. “Na Paixão segundo G.H”., expliquei como se fosse a coisa mais natural do mundo. “Ah...”, concordou.

A sala ampla parecia abrigar todos os livros do mundo. No centro, a cadeira com mesinha ao lado, um copo de água, cinzeiro e a máquina de escrever. Cigarros, fósforos e um pequeno caderno de anotações com lápis ao lado. Enfim, ela estava na minha frente e eu não sabia o que falar nem o que fazer com as mãos. O adolescente que ainda não tinha se acostumado com a puberdade estava cara a cara com ela.

Entreguei o volume todo riscado de Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, da Editora Sabiá, que comprara em São Paulo dias antes de viajar ao Rio e que lia com devoção. Em cada página, ainda o tenho, círculos, quadrados e linhas sublinhadas e pequenas indicações que só diziam respeito a mim: Isso sou eu, lindo, minha vida... Clarice folheou o volume, deu um tímido sorriso e depositou o livro na mesinha, na qual ficaria até o final do dia.

Quebrei o silêncio: A senhora é a minha escritora preferida. “É mesmo?”. Tenho um amigo, o Rodolfo, que também gosta muito da senhora. “Foi ele quem me indicou?”. Foi, sim, mas agora já não preciso mais dele, disse, orgulhoso. “Ainda bem”, disse ela, compreensiva. Um dia defenderei uma tese sobre a senhora, juro. Ela soltou generosa gargalhada. A Paixão é meu livro de cabeceira, garanti.

A partir desse ponto foram muitas as perguntas, os questionamentos, as interjeições e as promessas. Parecíamos íntimos demais para um primeiro encontro, mas a memória não registrou o que Clarice disse. Confesso, falei mais do que ela, lembro-me muito bem. Tinha a necessidade de contar-lhe o quanto ela era importante na minha vida. Tudo o que a senhora escreve parece ser escrito para mim, confessei em certo momento. “E isso é bom?”. “É ótimo porque me encontro”, revelei. Novamente aquele sorriso no canto da boca. E, com voz mais grave do que a normal, a sentença: “Os livros fazem sofrer”. Olhei assustado e admirado. Ela não mais cruzava as mãos como se tentasse esconder as marcas das queimaduras e acendia um cigarro atrás do outro, em pequenos intervalos. Clarice contou que estava só naquele apartamento iluminado. Depois, fiquei sabendo que o filho Pedro estava no quarto, dormindo, tinha sido internado um mês com problemas psiquiátricos. E o outro filho, Paulo, estava com o pai, Paulo Gurgel Valente, nos Estados Unidos. Clarice estava divorciada. Falei sobre a minha família, amigos, estudos e trabalho. Trocávamos intimidades, pensei com certa volúpia.

Quis saber como escrevia, pedi para que colocasse a velha máquina de escrever no colo, para eu ver como datilografava, e até que me mostrasse suas anotações. A letra não era mais a mesma desde as queimaduras na mão direita, explicou. Os efeitos do incêndio eram visíveis na mão e perna direitas. Mas, para mim, tudo era muito legível, parecia que sempre fora seu amigo, não havia mistérios entre nós.

A vida estava perfeita.

A tarde passou rápida, o que era para ser apenas meia hora terminou duas horas e quinze minutos depois. A despedida foi demorada.

Com meu jeito italianado de ser, beijei seu rosto, dei um forte abraço e beijei várias vezes suas mãos. Ela agradeceu as flores e se queixou de que não tinha comido a torta, só tomado o café. Antes de o elevador fechar a porta de madeira escura, ainda ouvi: “Volte sempre, quando quiser”. “Prometo”, respondi, quase gritando. Nunca voltei.

Caminhei em estado de graça até Copacabana. Nas mãos, o livro com o presente que fui buscar: a dedicatória que, uma semana depois, mostraria com orgulho para Rodolfo: “A Paulo Sérgio, meu mais novo amigo, de repente... Clarice Lispector”. Não conseguia parar de pensar naquele encontro, nem mesmo um festival de obras-primas no Cine Metro conseguiu interromper aquela felicidade clandestina.

Em 1977, como bolsista na Espanha, não tive ninguém com quem compartilhar a dor pela morte de Clarice Lispector. Hoje, eu tenho.

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