Ilustração por Janio Santos

 

Faz tempo,eu ainda fumava, era cantor, trabalhava em duas redações e vivia sozinho em outro mundo, muito parecido com este. Morava na Visconde de Guarapuava, a uma quadra da triste Ponte Preta, bem ali onde a prenda doméstica Ritinha da Luz, dezesseis anos, segundo nos conta Dalton Trevisan, “foi atacada por quatro ou cinco indivíduos, aos quais se juntaram mais dois”. Literatura ou não, quase meio século mais tarde, voltar para casa de madrugada, naquela zona de sombra, continuava a ser uma aventura. Mesmo no Natal.

 

Como sempre, eu caminhava a pé, vindo dos lados da rodoferroviária; só não digo exatamente de onde eu vinha porque aí já seria outra história, e o que importa, aqui, é o que ainda estava para acontecer. Do horário, não lembro, e nem me interessava, mas jamais esqueci a ceia quase alegre de horas antes, a digestão lenta, porém tranquila, e a satisfação do meu corpo cansado exigindo banho, cama e silêncio. O ano havia sido bom. Problema urgente, eu só tinha um, a falta de cigarros. O resto ficava para a manhã seguinte. Só não dava para entrar no prédio sem descolar um maço. Mas onde?

 

No primeiro boteco que eu encontrasse aberto, decidi. E azar, para que tanta prudência? Havia a promessa bimilenar de uma noite feliz, vivíamos a véspera de um dia de festa, comunhão e nada mais, Jesus nasceu, morreu e nos livrou das bestas, e se o vício era a minha bandeira de guerra, a fé seria o meu salvo-conduto. Cristão nenhum morre com um peru de Natal no estômago.

 

Determinado, entrei no único bar aceso, a porta já abaixada até a metade, uma sala suja e minúscula, azulejada em branco e sangue. Meia dúzia de mesas de plástico, um balcão curto e cinco banquetas oxidadas. Lá dentro, quatro homens se espalhavam, três fregueses e o cara do caixa, todos de quarenta para cima. Ouviam música, um bolero sertanejo e antigo que não reconheci, mas aprovei, cantado por uma dupla afinada, de vozes ásperas e muito finas.

 

Falei que ouviam música, mas não era bem assim. Na verdade dançavam, transidos de amor, e por isso nem me viram chegar. Me escorei no balcão, fascinado, sabendo que não devia interrompê-los, ao menos até o fim daquela canção.

 

O cara do caixa dançava sozinho, apertando os olhos, um pano de prato lançado ao ombro nu, uma alça da regata frouxa, caída de lado. Jogava o corpo lateralmente, pra lá e pra cá, curtindo a própria ginga, uma das mãos pousada sobre o toca-fitas à sua frente. A cada quatro compassos, alucinado, aumentava o volume.

 

Dois outros homens, gordos e suados, dançavam juntos, atropelando cadeiras, presos a um abraço firme, e sua força parecia vir de um lugar úmido e obscuro entre o carinho e o desespero. Um deles, muito alto, aninhava a cabeça do outro, bem mais baixo, junto ao peito, as camisas desabotoadas, num obsceno encontro de barrigas. O alto conduzia o baixo sem muita perícia, os pés mal respondendo ao ritmo do bolero; e o baixo nem mexia as pernas, apenas se deixava arrastar, entregue à maré de desejos de seu imenso amigo, um oceano em forma de bailarino.

 

Só o quarto homem não dançava. Sentado a uma das mesas, ao fundo do bar, ele observava a cena, quem sabe enciumado. Além de mim, era o único de pálpebras abertas, as bolsas inchadas, e chorava quieto, sem mover uma ruga. Diante dele, soturna e brilhante, erguia-se uma cidade de cascos vazios, cervejas mortas, um litro de conhaque, douradas transparências.

 

A música acabou e sobreveio outra, um novo bolero, quente como a madrugada de dezembro, mas permaneci invisível. Ninguém me notava, nem olhava ao redor. Entre eles, tudo que houve foi uma mudança rápida de parceiros, um estranho rodízio de sentimentos, o contentamento e a frustração passando de um a outro homem, como se trocassem de corações.

 

Os gordos se separaram, o sujeito que chorava se levantou e, aparentando algum apaziguamento, se acomodou entre os peitos vagos do condutor. O baixinho, preterido, não pareceu se incomodar, já esperava aquela rejeição, estava acostumado, e foi descansar atrás das garrafas, cantando com admiráveis graça e competência. O cara do caixa, por sua vez, assumiu o encargo de chorar, e ergueu ainda mais o volume.

 

Me sentei ao balcão, o jeito era esperar. Seria melhor ir embora, eu sei, mas não conseguia, e por três motivos. Primeiro, o espetáculo daquele quarteto improvável me encantava; segundo, eu queria aparentar certa naturalidade frente a tantas emoções deflagradas sem pudor, Deus me livrasse de ofender a beleza daquele palco; e, terceiro, eu precisava dos cigarros.

 

Esperei, portanto. Até que o homem sozinho à mesa finalmente me descobriu. Veio a mim sorrindo, as mãos pequeninas me convidando a um enlace dançante, vem rodar comigo, vem? Bom, eu não queria falar nada, o som muito alto, seria preciso gritar para ser ouvido e, assim, improvisei uma mímica simples, também simpático, não, não, só vim comprar cigarros, e pus dois dedos amarelados diante dos lábios, soprando uma fumaça imaginária em direção ao ventilador de teto, imóvel, mas decorado com luzes natalinas.

 

Ao me perceber no bar, o cara da toalha no ombro enfim acordou de si mesmo, e correu me atender, trôpego, desabando, apoiando-se na fórmica descascada do balcão. Mas, para a minha surpresa, também quis saber se eu não queria dançar.

 

— Quero comprar cigarro.

— Tudo bem, mas não quer dançar, não gosta de dançar?

 

Eu ri, todos riram, e ele, rindo, foi buscar os cigarros no caixa. Só tinha Plaza, avisou, e eu disse que estava certo, eu levava. Paguei, recebi o troco, o cara me passou umas moedas, pegou na minha mão, piscou para mim, dança vai, só uma?

 

Não, não, eu disse, nada de danças, e todo mundo riu mais uma vez, eu só queria fumar mesmo, e falei que já ia indo, é quase manhã e tchau. Despi o maço de Plaza, puxei a lingueta de plástico e ela, rebelde, caiu no chão. Fui me abaixar para apanhá-la, mas não deu, um terceiro bolero inundou o bar e os quatro homens me cercaram, e me envolveram calorosamente, eram fortes e loucos pra valer, e acabei afogado por uma onda salgada de afeto, euforia, fedor e álcool. Dançamos, sim, os cinco numa mesma roda, as testas unidas, as barbas de mil e uma noitadas, e eu no meio do redemoinho, sem chance de vencê-los, sentindo que já me suspendiam no ar, os pés pendurados, e o peru dentro de mim azedando, adeus, fé, adeus, coragem, adeus...

 

Mas não. De repente, devagar, todos foram se desacoplando do núcleo que eu representava, numa coreografia bela e sobrenatural, milagrosa até, e saíram rodopiando pelo espaço suarento do bar, temporariamente esquecidos de si, e uns dos outros, e de mim. Em questão de um minuto, tudo terminou, e me vi abandonado no vácuo, sentindo um frio inesperado, e inesperadamente sozinho.

 

Saí para a alvorada e acendi um cigarro. Quando alcancei meu prédio, ameaçava chover. Saí do elevador e senti cheiro de maconha. Alguém tocava violão, uma turma cantava um pagode bêbado. Ouvi xingamentos lá no fim do corredor, um choro de mulher. Era meu vizinho com sua namorada, ela tinha vindo do interior passar o Natal com ele, trouxe uma guirlanda bonita para a porta do apartamento.

 

Entrei, fui à sacada e acendi outro cigarro. E depois outro, e mais outro. O sol nascia longe, na Serra do Mar, mas o céu logo escureceu e a chuva pesou em cima de Curitiba. Uma nova noite de Natal cairia sobre nós. Eu precisava parar de fumar, pensei, e fui dormir em paz, enquanto anoitecia, anoitecia, e os meus sinos gemiam, gemiam.

 

 

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