Janio Santos sobre foto de divulgação

 

Cachorros de ruamataram, na semana passada, a gata da minha sogra. Melhor dizendo, a gata que pertencia à minha sogra. Que a parentalha não diga que abuso da ironia, por favor. Já estava velha, coitada. A gata, claro.

 

Dona Bayja e Seu João voltavam de uma caminhada, pela manhã, e a encontraram morta no alpendre. Teve forças para fugir da cainçalha e morrer em casa, o que hoje em dia não é pouco. A maioria, homens ou animais, bate as botas e as patas longe do lar, distante dos amigos, dos parentes, das crias. Faz tempo que os tempos são outros aqui na beira do mato. O de dentro desse Brasil caindo pelas beiradas, é o que é.

 

Tio Nerval, por exemplo, detestava hospitais. Dois anos antes de morrer perdeu uma perna. Diabetes. Enfrentou como pôde o asséptico ambiente, mas fugiu assim que teve sustância para sair feito um saci da Santa Casa. Pela primeira vez na vida fez uso de um ombro amigo, disse depois, quase chorando. O orgulho caipira é folclórico. Se um sujeito vai irremediavelmente esticar as canelas — no caso do meu tio, coitado, uma só delas —, tanto melhor que seja no próprio quarto.

 

Ele também tinha pavor a cemitérios. Mas fez questão de que a perna fosse enterrada em campo-santo. Dizem que visitou escondido o próprio corpo, ou o pedaço do corpo, para não exagerar o fato. Teria rezado, até, segundo as línguas desocupadas. Ninguém comprova a história, nem partes dela, inclusive. O fato é que um homem não pode ficar muito tempo desacompanhado de si. Morreu no hospital, provavelmente pensando na varanda de casa.

 

A gata da minha sogra se chamava Gisele. Branquinha, olhos verdes. Um dos meus cunhados escolheu o nome por causa da top model. Beleza, elegância e hormônios, com certeza. Se os tempos mudam, o mesmo não se pode dizer da fabriqueta de secreções do corpo.

 

Minha sogra detestou o nome. Não ia com a cara da modelo, principalmente em razão das entortadas da moça no final da passarela. A moda seria uma impostura? Penso que a raiva nascia de sua própria coluna, que começava a vergar os anos em dores chatas nas cadeiras. Natural que não aceitasse aquele batismo.

 

Dizem que os desgostos nascem de nós mesmos. Brotam, às vezes, não do fundo da alma, como pensam os psicanalistas e os homens de religião, mas da pele, da superfície de uma nevralgia, da unha encravada lembrando os arrependimentos cotidianos, os passos tortos. Dona Bayja chamava a gata de Chaninha, apenas. Nada original, mas pelo menos não via no bichano a escoliose dessa vida. Toda estimação tem seus limites.

 

A população de Arceburgo, cantinho das Minas Gerais, onde moro, reclama muito dos vira-latas. Parece que alguma cidade da redondeza adotou o estratagema de recolhê-los e, depois, presentear os vizinhos com a cachorrada. A ideia não é nova. Outros municípios fazem o mesmo com mendigos, propiciando-lhes passeio sem volta em cidades de clima mais aprazível, talvez. A consciência social é sentida na pele, de preferência em aragens mais distantes. Questão de faro, de tino administrativo. Política.

 

Gisele morreu, os cachorros andam soltos, muita vez acompanhando os mendigos, diga-se de passagem, perdidos em ambiente estranho. No entanto, a estranheza absoluta é uma forma irônica de familiaridade. Sem casa, alpendre ou terraço, os caramanchões dos jardins são iguais, as ruas têm sempre o mesmo nome de um desconhecido qualquer, como sonhava Mário de Andrade.

 

Um mendigo que morre no banco de um jardim de palmeiras imperiais morre em casa. Não sou hipócrita, porém, para dizer que morre melhor que meu tio. A fronteira da linguagem fica à flor da pele. Ao menos para os que passam frio na praça. Por aqui — penso no Brasil inteiro —, o cinismo ganhou requintes de um paisagismo tropical.

 

Diógenes de Sinope, aliás, foi a grande figura do Cinismo. A Escola, se é que assim pode ser designada, recebeu o nome, segundo alguns historiadores da filosofia, por causa da palavra cão. Os cínicos faziam gosto dela. Depreciavam as convenções sociais e viviam perambulando como cães. Ou mendigos.

 

O anedotário em relação à vida de Diógenes é vasto. Certa feita pediu para Alexandre, o Grande, sair da frente do seu sol. Na hora, os acólitos e asseclas que costumam acompanhar os politicões, aproveitando-se das muxibas do poder, pensaram que o descendente de Aquiles daria um pontapé naquele cachorro sem-vergonha. Espantaram-se. O Imperador teria adorado o desprendimento anticonvencional do filósofo mendigo. E mais. Perguntado quem gostaria de ser, caso não fosse Alexandre, teria respondido sem pestanejar: Diógenes.

 

Hoje os grandes, nem tão grandes assim, arrancam aos safanões os pequenos da frente de um sol bem particular, amealhado, dia e noite, à luz encoberta de negociatas cabeludas. Tapam o patrimônio com a peneira? Colocados em Kombis velhas, cachorros ou mendigos, tanto faz, são despejados nas madrugadas vazias de cidades vizinhas. Os tempos são mesmo outros. Azar o nosso. Azar de Gisele, a pobre gata da minha sogra. Sem nenhuma ironia, por favor.

 

 

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