Traducao Ariana.Harwicz Eduardo Azeredo julho2020

 

 

Um diálogo sobre idiomas e traduções entre a argentina Ariana Harwicz, finalista do Man Booker Prize 2018, e o tradutor francês Mikaël Gómez Guthart

 

Mikaël Gómez Guthart: Quem decide a que países chegam as traduções? Geralmente o mercado, e muito de vez em quando algum tradutor ou editor apaixonado. Sempre foi assim e continuará sendo. Não duvido nem por um segundo que os livros de Ernesto Sábato sejam melhores em francês. Leopoldo Marechal defendia que Verlaine traduzido ao espanhol por Díez Canedo era infinitamente melhor do que em francês porque estava livre de rimas.

Ariana Harwicz: Quem decide que países, que culturas, que mentalidades leem quais traduções, qual tradução demanda atualização e qual não? Na passagem para qual língua Virginia Woolf é mais Virginia Woolf, Tolstói é mais Tolstói? Em meio à guerra entre as teocracias e democracias laicas, tenho uma teoria pessoal de que há três formas de pensar a tradução: como ateu, crente ou agnóstico. Os crentes pensam que é possível ler Shakespeare em russo ou em espanhol, “com certeza é ele, Shakespeare, podemos lê-lo em todas as línguas”. Os agnósticos obviamente irão duvidar, “leio Shakespeare em português, é e não é ele, reconheço-o um pouco”. Por fim, os schopenhauers da tradução, os cioran, os ateus dirão: “nunca conheceremos Tchekhov se não lermos russo”. Lamento, morrerão sem ler Tio Vânia, contentando-se com os dramaturgos na sua língua local, algo assim como um fervor patriótico com bandeirinha flamulando no livro.

MGG: Gosto dessa tua santíssima trindade bizarra: crentes/agnósticos/ateus… Em matéria de tradução, desconfio então que devo ser ateu, ou parcialmente ateu, uma espécie de marrano. Por um lado penso como você, que se não lermos Tchekhov ou Kafka na sua língua original não faremos mais do que nos aproximar de sua obra, mas, ao mesmo tempo, acho absolutamente necessário que as obras circulem de um jeito ou de outro. Em Der weltverbesserer (O reformador do mundo), Thomas Bernhard escreve: “Os tradutores desfiguram os originais. O traduzido chega ao mercado sempre como deformação. O diletantismo e a sordidez do tradutor são o que tornam uma tradução tão repulsiva. O traduzido é sempre nojento”. Bem, na minha opinião é exatamente disso que se trata: de uma deformação. Neste mesmo texto de Thomas Bernhard, o narrador diz claramente que a tradução é outro texto. Pronto. É ingênuo pensar que um texto vertido a outro idioma possa continuar igual… tenho certeza que você também não é a mesma pessoa quando fala ou escreve em outro idioma. Acho que o mesmo acontece com qualquer texto, em qualquer idioma, seja o melhor romance de Manuel Puig, um poema em dialeto triestino de um autor totalmente desconhecido, os sonetos de Shakespeare ou o Cântico dos Cânticos. Isso me faz lembrar que para Héctor Bianciotti cada idioma é um modo singular de conceber a realidade. Vou te contar algo pessoal, não por exibicionismo gratuito, mas porque tem a ver com o que estamos discutindo. Aos 30 anos, fugi de Paris muito frustrado com a vida que eu levava lá. Cheguei em Buenos Aires irritadíssimo com a França. Tomei medidas radicais e decidi não falar nem escrever mais em francês, a não ser por motivos estritamente profissionais. Passei vários anos sem pronunciar uma palavra francesa. Na verdade, minhas primeiras traduções publicadas foram livros traduzidos do francês para o castelhano, e não o contrário, para uma editora argentina (Ediciones Godot). Traduzi livros de Merleau-Ponty, Jean-Jacques Rousseau etc. Como foi sua experiência com a sua mudança linguística?

AH: Você é a versão francesa de Wittgenstein! A experiência do confinamento e isolamento social que sempre venerei, que sempre me pareceu uma decisão ética e artística, agora troca de sinal e vira um dever, um imperativo com multa e pena de prisão. Vejo isso como traição. Penso em George Orwell, membro do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), declarado ilegal durante a Guerra Civil Espanhola quando teve de fugir, traído por suas próprias fileiras, e se deparou com o dilema de escrever ou não a respeito. Felizmente teve coragem, o que quase ninguém tem agora, e não sucumbiu à armadilha ideológica de “não denuncie seu próprio bando para não dar munição ao inimigo”. Ao retornar, os olhos ensanguentados, abriu fogo com Homenagem à Catalunha, escrito em primeira pessoa. Algo semelhante me aconteceu com o idioma, com a língua francesa. Em Buenos Aires, quando ainda não podia imaginar que viveria em outro país, eu assistia aos filmes da Nouvelle Vague e tentava mexer a boca como os personagens, assistia o canal TV5 Monde e tentava imitar o sotaque, a cadência, as entonações agudas, tudo. Falar francês era como estudar canto. Para mim era um ato de liberdade, escolhi o francês entre todas as línguas porque quis. Porém, quando vim morar na França em 2007 e comecei a falar, me corrigiram tanto que fiquei traumatizada. E então, aquela língua que era uma forma particular de prazer tornou-se um ato de disciplina. Para mim, ex-aluna de Filosofia e Artes, professora de Cinema, tentar falar em francês sobre Spinoza ou Bergman e ser corrigida a cada duas palavras na pronúncia ou no tempo verbal era algo humilhante. A correção é eficaz em termos linguísticos, mas infantiliza, te chama à ordem, endireite-se na fila, soldado! E depois, o que aconteceu foi que toda a minha vida sentimental estava em francês: xingar, desejar, mentir, mas mentir bem, enganar bem, com estilo, fazer rir. Tudo isso foi em francês — o parto, o casamento, o divórcio, a tríade mágica, a santíssima trindade do discurso amoroso. Então, depois de tudo isso foi tão estranho voltar ao argentino, ao embate com as gírias, o lunfardo, os neologismos e as expressões argentinas, voltar a pensar, a mentir com a nossa retórica, o nosso humor, sobretudo com a maneira de conjeturar que acionamos ao falar o espanhol argentino, essas pistas e passagens, essas outras vias de acesso à experiência que cada língua proporciona…

MGG: Notei mais de uma vez que minha personalidade em francês não era a mesma que em espanhol. O escritor húngaro Dezső Kosztolányi dizia que quando falava outro idioma se sentia mais audaz, mais direto, por isso preferia declarar seu amor ou escrever poesia na sua língua materna e terminar um relacionamento ou escrever crítica em português! De certa maneira, Bianciotti não diz outra coisa quando escreve que podia estar totalmente desesperado num idioma e só um pouco triste em outro.

AH: O que sempre se aconselha, e com razão, é não brigar numa língua que você não domina bem. Sempre se faz papel de ridículo, como sair atirando ou ser desafiado num duelo sem balas.

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