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No inverno do ano 1988, Ricardo Piglia oferecia na Universidade de Buenos Aires uma série de palestras sobre a obra de Jorge Luis Borges. Estruturadas em forma de curso, as palestras partiam de uma interrogação aparentemente simples, que era, contudo, (como todas as perguntas de aparência simples) mais fácil de formular do que de responder. A pergunta era: “Como ler Borges?”, e podia ser entendida como uma mera dúvida, como uma invocação pedagógica e também como um apelo programático. A pergunta podia demandar a formulação de algum modelo de leitura, a descoberta de chaves que pudessem desentranhar segredos, a postulação de métodos que aprofundassem conhecimentos. Mas também sugeria recuperar o fascínio que os textos de Borges provocam e revisar as múltiplas articulações da sua obra com as diversas tradições literárias.

Ao longo das quatro semanas do curso, Piglia se dedicou a rastrear essas sendas que se bifurcavam. Fervoroso leitor de romances policiais, seguia com detetivesca dedicação cada uma dessas pistas, que depois se transformavam em hipóteses plausíveis e em argumentos sólidos e evidentes. Quiçá não se interessasse tanto por promulgar os pontos de chegada dessa tarefa analítica; longe de afirmar a partir de um lugar autorizado, as conclusões definitivas que podiam ser extraídas desse processo, preferia descrever, para o heterogêneo publico desse curso, os modos que balizavam sua leitura e os passos, visíveis e ocultos, de uma investigação construída a partir de dados, indícios e intuições. A leitura era definida assim como uma arte de lidar com vestígios, como uma arte de transformar esses vestígios em literatura.

Da leitura à escrita, através da ficção e da crítica, Piglia organiza as evoluções da sua leitura seguindo as pautas e os desvios da narrativa. Um escritor que escreve as suas leituras mediante as mais diversas intervenções no campo cultural, que abrangem praticamente todos os substantivos possíveis vinculados ao labor intelectual. Editor da Série negra, a coleção de romances policiais publicados nos anos 1960. Colaborador assíduo de revistas tão emblemáticas como Crisis ou Punto de vista. Roteirista de vários filmes nacionais e estrangeiros. Professor em cursos e palestras que se multiplicam, junto com as repercussões da sua figura pública de autor, ao longo dos últimos 30 anos, desde a consagradora publicação de Respiración artificial (1980). Romancista que escreve ficções sobre máquinas de ler, leitores e leituras, nas quais obriga a discutir permanentemente as interseções e fusões entre discursos e práticas. Crítico que transforma a leitura em ato estratégico para estabelecer tensões, genealogias e diferenças que atravessam o cânone, e como instrumento para renovar as formas de percepção da literatura argentina e da sua inserção nas letras ocidentais.

Em todas essas atividades, o leitor Piglia opera dentro de um laboratório que permite analisar o funcionamento da literatura, suas funções políticas e suas configurações do real. Lê assim em Borges a fabula das duas linhagens, que reelaboram retrospectivamente vínculos com um passado pessoal e ao mesmo tempo explicitam uma forma de se inserir na história nacional e na evolução literária. Essa ficção de origem funda para Piglia a escrita borgeana a partir de uma dupla genealogia, a materna e a paterna, que por sua vez remete a outros antagonismos entre o nacional e o estrangeiro, entre a “vida” e os “livros”, entre a ação e o pensamento. Nesse pacto imaginário entre o sangue e a biblioteca se estabelece um sistema de diferenças e de oposições que funciona como ponto de inflexão para articular a produção ensaística e ficcional de Borges com a história, a política e a tradição literária. Como neste caso, outros textos de Piglia têm a virtude de se transformar em referência quase inevitável.

Como advertia Borges ao refletir sobre Kafka e seus precursores, lemos os autores abordados por Piglia de forma muito diferente daquela em que eram lidos antes dos ensaios ou dos romances dele. Nossa percepção do Museo de la novela de la eterna, de Macedonio Fernández, por exemplo, é outra depois de La ciudad ausente. “Escrever mal” significa outra coisa depois das reflexões sobre Roberto Arlt, a função da literatura popular e o valor das traduções precárias que pontuam Nombre falso e Respiración artificial. Não pensamos as relações entre psicanálise e folhetim da mesma forma depois de conhecer as páginas dedicadas a Manuel Puig. Entendemos o deslocamento e a elipse como recurso político extremo depois de ler Rodolfo Walsh y el lugar de la verdad. Em todos esses casos, as leituras de Piglia definitivamente afinam e desviam (como diria Borges de Kafka) a nossa compreensão dos temas e das obras debatidas.

O valor de todas essas contribuições não é meramente didático. Não se trata somente de iluminar os textos e mostrar aquilo que não tinha sido visto ou imaginado. As operações da escrita de Piglia, nos múltiplos entrecruzamentos entre ficções e ensaios, vão além da observação feliz ou da decifração do enigma. Trata-se, antes de tudo, de postular uma espécie de ética da leitura ou, também, uma espécie de épica da leitura. Isso, que se evidencia em toda sua obra, torna-se ainda mais patente nessa “autobiografia invisível” (segundo a definição do autor) intitulada El último lector (2005). Nesses ensaios e ficções sobre atos de leitura, desfilam leitores que confirmam a necessidade dos livros, ou da evocação dos livros, como instrumento para postular réplicas imaginárias do mundo, e como modelo para recriar alguma experiência perdida que retorna, vívida e plena, no instante presente. É o Quixote, certamente, e Madame Bovary, e Robinson Crusoe, e Bouvard e Pécuchet, leitores todos anacrônicos e persistentes em busca quase desesperada de um sentido. É o Che Guevara, que acossado pelos militares na selva boliviana, descarta tudo que pudesse atrapalhar sua inútil fuga, salvo seu diário de anotações e alguns livros que o acompanham até o fim. É Ossip Mandelstam, que antes de morrer no gulag fala para seus colegas de confinamento sobre suas recordações de Virgilio. É Gramsci, que elabora todas suas teorias em pleno isolamento, a partir das suas insaciáveis leituras no cárcere fascista. Exemplos de últimos leitores, que, mesmo solitários e extraviados diante de um perigo iminente, são capazes de justificar a existência de toda a literatura. Leitores que continuam lendo até o fim, contra um mundo sempre hostil, não porque pretendam escapar da realidade, mas porque aspiram (mesmo contra todo prognóstico desfavorável) a recuperar uma experiência comum. E porque, no fundo, sabem que essa é a melhor coisa que, nessas e em todas as circunstâncias, lhes resta por fazer.

 

Alfredo Cordiviola é professor-titular do Departamento de Letras da UFPE

 

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