Capa Interna 1 Karina Freitas

 

Em 1940, Gilberto Freyre (1900-1987) deu uma palestra intitulada “Uma cultura ameaçada”, que se referia ao ataque de agentes nazifascistas à cultura brasileira “socialmente democrática”, e insistia que diante dessa séria ameaça não havia lugar para “atitudes de indiferença”. É muito provável que, se vivo, Freyre reagiria do mesmo modo nesse novo momento sinistro da nossa história, em que a heterogeneidade e a pluralidade étnica e cultural dos muitos Brasis, bem como o “intercurso entre as culturas” – valores que ele tanto defendia – estão sendo vilmente atacados por um governo que estimula abertamente o ódio, a divisão e uma guerra cultural contra a chamada “arte de esquerda” e “doente”.

Pode parecer inapropriado recorrer a Freyre como um autor que deveria ser lido nesse momento. Afinal, ele é frequentemente lembrado por seu apoio imediato ao golpe de 1964 e por seu silêncio sobre os abusos do regime militar, agora louvados pelo governo de Bolsonaro. O fato de em 1981 ter reconhecido publicamente que “1964 foi uma grande revolução fracassada” porque faltou a seus líderes “sensibilidade social e sobrou economismo”; e que o regime militar, ao perder de vista os interesses gerais do país, assemelhava-se ao “totalitarismo soviético”, não impediu que Freyre fosse vilipendiado e sua obra ignorada ou lida à luz de suas atitudes reacionárias. E progressivamente lida também à luz de uma visão equivocada de suas ideias sobre as relações raciais no país que, desconsiderando os elementos sadomasoquistas que Freyre aponta, as critica como idílicas e corrosivas.

No entanto, a verdade é que as atitudes políticas de Freyre nunca foram simples ou ortodoxas. Parafraseando o que foi dito sobre Tolstói, pode-se dizer que havia em Freyre “uma mão direita e uma mão esquerda”, e que sua história não foi uma simples e usual trajetória da esquerda para a direita, já que a ortodoxia nunca foi a sua marca, quer quando pendia para a esquerda, quer quando, a partir dos anos 1950, pendeu gradativa e definitivamente para a direita. [nota 1]

Desde quando publicou suas obras mais importantes, Casa-grande & senzala (1933) e Sobrados e mucambos (1936), Freyre frequentemente expressou atitudes antifascistas, mas também revelava uma tácita simpatia por figuras fascistas. Era capaz de louvar, ao mesmo tempo, o “marxismo no estilo inglês” na figura de Stafford Cripps, o chanceler trabalhista, e Charles Maurras, o monarquista e líder do partido protofascista Action française; de referir-se a Luís Carlos Prestes como um “homem lúcido e honrado”, que lutava bravamente contra o fascismo emergente, ao mesmo tempo que, seduzido pela inteligência e simplicidade do ditador português António Salazar, calava-se sobre a perversidade de seu regime.

Muito cedo em sua trajetória Freyre foi visto como um homem de esquerda, denunciado como “bolchevista” e “agitador dos operários” e dos trabalhadores rurais, investigado e mesmo preso por isso. Quando candidatou-se a deputado em 1945, uma manchete de jornal alertava que votar nele era “entregar o Estado aos agentes de Moscou”. É compreensível, pois, que o jovem Antonio Candido admirasse sua oposição à ditadura do Estado Novo e o visse como um “mestre da radicalidade”. No entanto, muito marcado por John Ruskin e William Morris, vitorianos rebeldes que se opunham ao capitalismo e pendiam para o socialismo, mas também nostálgicos de aspectos da Idade Média, a posição política de Freyre combinou (desde sempre, e em graus variados) elementos de esquerda e de direita – o que justifica o rótulo de “revolucionário conservador” com o qual descrevia a si mesmo e a outros, como Rui Barbosa. É por isso que, enquanto alguns o tachavam de comunista, outros o viam como um conservador disfarçado que tinha “nostalgia pelo feudalismo”. Marxistas, como Rodolfo Ghioldi, membro da Internacional Comunista (Comintern), e o jovem e talentoso Gláucio Veiga, que se tornou um renomado jurista, o desmascaravam como “sociólogo reacionário” e apoiador de “estruturas retrógradas” de um Velho Regime.

Como resultado de seus paradoxos e ambiguidades, Freyre foi muitas vezes simplificado, suas hesitações e qualificações foram suprimidas, e ele tornou-se útil para sustentar causas regionais, nacionais ou ideológicas de modo reducionista. Os casos mais notórios foram o do regime Salazar, que utilizou Freyre para seus fins, com ou sem sua conivência consciente, e a invenção de um Freyre totalmente reacionário, e até racista, por críticos que ignoraram suas referências aos antagonismos sociais e insistiram em ver na sua trilogia sobre o Brasil uma descrição simplista de uma sociedade marcada pela harmonia, pelo consenso, e por uma invejável “democracia racial”– no que Freyre, na verdade, nunca acreditou. A atitude de Freyre em relação a Marx era também complexa. Admitia que o desenvolvimento científico da sociologia devia muito a ele e a Engels, mas também insistia que uma sociologia autônoma precisava ser “antimarxista” e mais social e cultural.

Enfrentar a delicada questão proposta – “por que ler Freyre, um autor de direita, nesse momento de ascensão do fascismo?” – impõe que, em primeiro lugar, reconheçamos que Freyre é autor de obras clássicas, e, nesse sentido, contemporâneas, que ainda estão a provocar debate e a causar reações, muitas delas apaixonadas, mais de oito décadas após terem sido difundidas pela primeira vez. Ao abordarem questões ainda hoje polêmicas, como ecologia, racismo, multiculturalismo, identidade nacional, patrimônio cultural e homossexualidade, suas obras não perderam relevância para se pensar sobre tais temas. Mas, para isso, elas devem ser lidas com o espírito aberto e não desqualificadas de antemão porque lidas à luz das atitudes reacionárias do autor.

Em segundo lugar, para avaliar a atualidade de Freyre hoje, é útil refletir brevemente sobre o que ele pensava sobre o nacionalismo e o militarismo. Afinal, essas duas fortes características do fascismo do passado estão presentes na moderna versão brasileira que está emergindo sob a liderança de “um novo monstro” – que extrapola em aberração Trump, Le Pen, Salvini, etc – tal como Perry Anderson referiu--se recentemente a Bolsonaro. [nota 2]

A participação de Freyre na conferência de 1948 da Unesco nos remete a um momento dramático da história em que “nacionalismos estreitos e agressivos” eram apontados como responsáveis pelas “tensões que afetam a compreensão internacional” e se buscava condições para uma paz duradoura. Entre os tópicos que Freyre apresentou para discussão em Paris estava a necessidade de revisar manuais escolares de História, Geografia e as biografias dos heróis nacionais, já que ali podia estar a “fonte ou combustível que alimenta o ódio entre as nações, o preconceito entre as raças, a antipatia entre os povos”. Heróis nacionais, que são frequentemente “deformados por mitos nacionalistas e ao interesse de uma nação ou grupo particular”, deveriam ser apresentados com suas contradições e “de vários pontos de vista”. Para evitar tensões e conflitos, a biografia “intercientífica” deveria revelar os defeitos e fraquezas das figuras nacionais, ao lado de suas eventuais grandezas. Os latino-americanos, disse Freyre, eram facilmente movidos por medo de ameaças estrangeiras e, portanto, exploráveis por líderes nacionalistas que, em nome da defesa do país contra “possíveis perigos”, como o “bolchevismo vermelho”, tinham “os pretextos ideais para longos anos de domínio paternalista de seus povos”.

Quando, anos mais tarde, no chamado “momento macarthista” do Brasil, Freyre deu apoio ao governo militar e chegou a denunciar marxistas e comunistas, era como se, obcecado com “vermelhos embaixo da cama”, ele tivesse se transformado no ultranacionalista que criticara em 1948. O comunismo não era mais visto como um movimento em que brasileiros “de inteligência e caráter” se juntavam para combater o nazifascismo, tal como Freyre o vira antes, mas como algo essencialmente antibrasileiro, a ameaçar nossa independência econômica, política e cultural. Enfim, o perigo do “bolchevismo vermelho” agora lhe parecia real e justificava a ação dos militares.

No entanto, mesmo nesse clima de Guerra Fria, Freyre não louvava a ditadura – e, intoxicado de otimismo, nem sequer admitia que ela existisse. A visão favorável que sempre tivera do Exército e dos militares fortalecia sua crença de que a democracia não corria perigo com a ação dos militares, já que, desde que haviam substituído o Imperador em 1889, eles se impunham como conciliadores “dos brasileiros divididos por ódios de partido” e como defensores da reforma social e das instituições democráticas. Durante grande parte da história do Brasil, o Exército trabalhara como “coordenador pacífico […] dos contrários da vida nacional”, tendo raramente usado de violência ou se aliado a um partido político ou a grupos e interesses particulares. Canudos fora uma das poucas ocasiões em que o Exército –normalmente atuando sob a ótica do “civismo” e avesso ao “militarismo num vulgar sentido prussiano” – apelara para a ideia de que qualquer problema “poderia ser resolvido pelas armas”.

Foi com essa visão rósea do Exército que Freyre recebeu o golpe de 1964 como uma busca de “soluções brasileiras para os problemas brasileiros”; soluções que seriam fiéis às “constantes da formação brasileira”, que incluíam a apreciação da diversidade étnica e cultural, da tolerância das diferenças, da harmonia ao invés do conflito, das tradições sem prejuízo da universalidade, e assim por diante. Quando, em 1972, fez sugestões à Arena (Aliança Renovadora Nacional), o partido do regime militar, Freyre pediu apoio para essas “constantes culturais” e, surpreendentemente, instou o governo a atenuar “o atual desnível socioeconômico entre populações regionais do país”, realizando reformas agrárias que buscassem “harmonizar desequilíbrios de caráter socioeconômico e impedir a crescente marginalização de populações rurais”.

Ecologia e homofobia são só dois dos muitos temas atuais em que a obra de Freyre poderia contribuir para um debate enriquecedor e urgente. Revelando ter uma sensibilidade ímpar para tratar de assuntos como esses, Freyre, especialmente a partir do livro Nordeste (1937), enfrentava o “drama da monocultura” e transformava o meio ambiente, aviltado pela “intrusão do homem no mecanismo da natureza”, num personagem central do drama brasileiro. Apontando os efeitos deletérios da monocultura latifundiária na natureza, na sociedade e na cultura – efeitos trágicos agravados pelas novas usinas de açúcar – Freyre provocou reações violentas das autoridades e foi encarcerado.

Quanto à homossexualidade, ele desde cedo desafiou o discurso hegemônico sobre a sexualidade, abordando as relações homoeróticas em termos culturais e não morais. Chegou a falar abertamente sobre os bissexuais e “homens efeminados ou invertidos” entre os ameríndios e argumentou que a antropologia mostra que tais fenômenos não só são universais e trans-históricos, como há sociedades primitivas que respeitam e dão posições de comando a esses indivíduos considerados excepcionalmente criativos, ao invés de abominá-los e desprezá-los.

A ameaça do governo atual à Amazônia e às minorias é parte inegável do drama brasileiro de hoje. A crer nas inúmeras manifestações infames de representantes do governo sobre essas questões – como, por exemplo, “eu tenho imunidade para falar que sou homofóbico sim, com muito orgulho”; aquecimento global é invenção de “marxismo cultural” – parece não haver espaço agora para uma discussão honesta de assuntos tão prementes.

Nesse caso, uma nota de otimismo que Freyre nos deixou pode servir de algum consolo nesse momento de amargura:

Há tantos Brasis que é difícil generalizar sobre o Brasil. Por isto, ó leitor, quando um desses Brasis entristecer teu coração de brasileiro ou de amigo do Brasil, pensa num dos outros, que te voltará a alegria ou a fé. A fé no conjunto.

É o que faço. Não há desfalque, negociata, patifaria num dos Brasis mais ostensivos que me mate a confiança no conjunto. […] Não exagero quando digo: há Brasis angélicos entre os sórdidos. E não apenas brasileiros heroicamente honestos entre patifes. Homens verdadeiramente de estudo entre mistificadores. Gente que cumpre deveres entre irresponsáveis que o tempo todo marombam.

 

NOTAS
1. cf. N. K. Mikhailovsky, “The Right Hand and the Left Hand of Leo Tolstoy”, cit. Isaiah Berlin, “Tolstoy and Enlightenment”, Russian Thinkers, p. 238.
2. Perry Anderson, “Bolsonaro’s Brazil”, London Review of Books, 7 February 2019, p. 11-22.

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