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Menino de engenho radicado na cidade e entrado nos 40 anos, José Américo de Almeida dividia-se entre a carreira jurídica e o debate político nos jornais quando teve primeiro a ideia de publicar um ensaio, A Paraíba e seus problemas, em 1923. Cinco anos depois, deu às suas preocupações sociais e políticas a forma de um romance, A bagaceira. Este não seria mais um título de parcos leitores num país ainda semialfabetizado. No ano em que saiu, a história trágica de um triângulo amoroso na sociedade patriarcal em decadência mereceu quatro edições. Duas pela Imprensa Oficial da Paraíba, outras duas, acrescidas de um glossário, pela Livraria Castilho, do Rio de Janeiro.

A tal lista final de vocábulos e seus significados ajudou quem morava na então capital federal a compreender o próprio título. Como se vê no glossário ainda incluído na atual edição, a 45ª: Bagaceira – 1) Pátio das fazendas onde são depositados os detritos da cana moída. 2) O próprio ambiente moral dos engenhos. Para que não houvesse dúvida de suas intenções renovadoras, Zé Américo, como era chamado por seus pares, tinha feito uma introdução que funcionava como manifesto, Antes que me falem. Anotou: “A alma semibárbara só é alma pela violência dos instintos. Interpretá-la com uma sobriedade artificial seria tirar-lhe a alma”. “Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã.” Somavam-se, em sua concepção, atavismo e drama.

Decerto o glossário ajuda aos leitores de todas as regiões que, distanciados agora no tempo, não conseguem compreender todas as palavras.

Nas histórias literárias que seriam escritas décadas à frente, Zé Américo entraria como autor de um livro fundador, aquele que abriu nova fase da literatura brasileira. No seu encalço, apareceria no ano seguinte outro romance de mesma linha, aquela que vê criticamente o ambiente rural brasileiro antes tratado de modo idílico. Em 1929, chegava às livrarias O quinze, uma história de retirantes que fugiam da grande seca, escrito pela cearense Rachel de Queiroz, que causava ainda maior impacto porque mal alcançava os 19 anos de idade num cenário de poucas mulheres escritoras. Zé Américo e Rachel foram, naqueles dias, leituras de outro jovem autor, o baiano Jorge Amado, para quem os seus Cacau e Suor não teriam existido se antes não tivesse conhecido esses títulos inaugurais do que seria chamado, depois, de romance nordestino do ciclo de 1930, que coincidia com o golpe de Getúlio Vargas contra as antigas oligarquias.

Na trajetória de Zé Américo, nota-se outra marca daquela geração. A vocação política era, em seu caso, tão forte quanto a romanesca – ou até mais forte, visto que sua atuação como homem público praticamente o tomou por completo depois de A bagaceira. De promotor, passou a deputado, chefe de segurança pública, senador, ministro da Viação e Obras Públicas. Chegou a se candidatar à presidência da república em 1937, e era favorito, quando outro golpe, o do Estado Novo, interrompeu o processo eleitoral. Ligada ao comunismo nos primeiríssimos anos, Rachel influenciaria Jorge com sua opção política, os dois estabelecidos no Rio. Em Alagoas, Graciliano Ramos, depois de comerciante e intendente, chefiava a instrução pública e corria por fora. Duas décadas mais velho que os dois, estrearia depois, também com obra que seria vinculada à mesma geração, e, logo, comunista também.

Zé Américo, Rachel, Jorge, Graciliano: esses acontecimentos literários, que chegam agora aos 90 anos, estão bem-fixados nos currículos de Ensino Médio, pois que são cobrados nas provas de vestibular de universidades de todo o país. Bem- fixados de tal modo, que se estabeleceram padrões de percepção muito rígidas sobre o tipo de narrativa romanesca que se passou a esperar da região, num país de ainda bem poucos leitores, que quase sempre perdem contato com a ficção assim que deixam os bancos escolares.  O relato de seca entre o Ceará e Pernambuco, com fome e escalada de migração; a capa com mandacarus e ossadas de bois. O Norte – como o Nordeste era então chamado naquele começo de século – continuou muito mais vasto, constituindo um mosaico de geografias, culturas e leituras, e de produção romanesca multifacetada. Esse conjunto de clichês começou a perder força, à medida que têm surgido mais títulos contemporâneos publicados por editoras de menor porte ou regionais e novos críticos e prêmios literários que abrem portas para ficcionistas nordestinos ou que vivem no Nordeste.


A RIXA NORTE-SUL

Os clichês se fixaram na mesma época em que as obras de Zé Américo, Rachel, Jorge e Graciliano ocupavam prateleiras da livraria e editora José Olympio, no Rio, a mais prestigiosa da época. Instalado no número 110 da Rua do Ouvidor, o livreiro-editor fez uma investida arrojada em sua estreia, apostando em outro autor nordestino, o também paraibano José Lins do Rego. Menino de engenho, de sua autoria, era um relato de fundo memorialístico sobre a infância num engenho de açúcar, em edição paga do próprio bolso em 1932, porque nenhuma editora tinha se interessado. A segunda edição saíra por uma editora nova e pequena no Rio, a Adersen Editores. Esgotou-se a tiragem de 2 mil exemplares. Doidinho, o segundo romance, acabava de chegar às livrarias pela Ariel.

Em 1934, Olympio telegrafou ao autor, que vivia em Maceió: queria fazer uma segunda edição, de 3 mil exemplares, de seu Menino de engenho. E ainda pretendia 5 mil exemplares do inédito Banguê. Na agência de telégrafo, acabou por dobrar a cifra, para cinco e 10 mil, nove contos de réis no ato. A presença de Zé Lins para autografar os dois livros foi um evento inédito na cena editorial brasileira. O ritmo de lançamentos se manteve: um intrépido José Olympio colocou nas livrarias mais duas obras do paraibano, em julho de 1935, Moleque Ricardo, com 3 mil exemplares, e Doidinho, em segunda edição, com 4 mil.   

Com o estardalhaço feito entre críticos e leitores, a nova fornada de autores nordestinos do ciclo de 1930 começou a ser alvo de comentários, uns mais galhofeiros, outros raivosos. Fazendo graça, Oswald de Andrade comentaria que “os búfalos do Nordeste, em furiosa arremetida, tomaram todo o campo”. Em disputa direta, Octávio de Faria, do Rio, e Lúcio Cardoso, de Minas e já em vivendo na capital federal, fariam ofensivas mais duras nos suplementos literários e nas portas de livrarias. Vinculados a uma literatura de fundo católico, rebaixavam a opção nordestina. Há mesmo a versão, desmentida muitas vezes, de que Zé Lins e Lúcio teriam trocado sopapos na porta da Livraria Editora José Olympio, Diante de tão farto material, Manuel Bandeira, um pernambucano radicado na capital federal, não desperdiçaria inspiração. Em  1936, cometeria seu Voluntários do Norte, sobre a cizânia Norte-Sul. De um lado, coloca Zé Lins. De outro, Octávio, Lúcio, além de Marques Rebelo e Vinicius de Moraes, também do Rio.

Quando o menino de engenho
Chegou exclamando:
– “Eu tenho, Ó Sul, talento também!,
Faria, gesticulando,
Saiu à rua gritando:
– ‘ São os do Norte que vêm! ‘
Era um tumulto horroroso!
– ‘ Que foi? ‘ indagou Cardoso
Desembarcando de um trem.
E inteirou-se. Senão quando,
Os dois saíram gritando:
– ‘ E vêm os do Norte! Ê vêm!…

O que Octávio e Lúcio argumentavam é que o romance “do norte”, em sua tentativa de denúncia social, tinha ambição menor que o romance dito psicológico que pretendiam fazer. Obviamente, essa distinção geográfico-estética embute outra, a ideológica. Naqueles dias, os autores radicalmente se apartaram em dois grupos, os de esquerda e os católicos. Note-se que o termo regionalista não era empregado por todos. Esse era o termo vinculado a um manifesto-movimento do ensaísta Gilberto Freyre, ainda no Recife de fins da década de 1920, como reação ao Modernismo, com intuito de valorizar as tradições em face ao cosmopolitismo. Seu amigo Zé Lins era conhecedor de primeira hora de suas ideias. Rachel dizia que, no lugar de “romance social”, preferiam usar as expressões “romance documento” ou “documentário”.  

Em resposta, Graciliano dizia em crônica da época: “Essa distinção que alguns cavalheiros procuraram estabelecer entre o romance do Norte e o romance do Sul dá ao leitor a impressão de que os escritores brasileiros formam dois grupos, como as pastorinhas do Natal, que dançam e cantam filiadas ao cordão azul ou ao cordão vermelho”.  Em defesa do tipo de livro que fazia, explicava, sem esconder a crítica ao dito romance psicológico: “O que há é que algumas pessoas gostam de escrever sobre coisas que existem na realidade, outras preferem tratar de fatos existentes na imaginação”, fazem “um espiritismo literário excelente como tapeação”. Continuava: “Os inimigos da vida torcem o nariz e fecham os olhos diante da narrativa crua, da expressão áspera. Querem que se fabrique nos romances um mundo diferente deste, uma confusa humanidade só de almas, cheias de sofrimentos atrapalhados que o leitor comum não entende. Põem essas almas longe da terra, soltas no espaço”.

E pensar que “alma” era justamente o que reivindicava Zé Américo.

 

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O FATOR ARIANO

Nove décadas depois, num cruzamento de efemérides – A bagaceira, de 1928, O quinze, de 1929 –, escritores do Nordeste dos 20 aos 70 anos de idade compareceram
para contar como aqueles livros de 1930 repercutiram em sua formação e obra, durante um encontro organizado pelo Centro de Pesquisa e Formação do Sesc de São Paulo (CPF Sesc-SP), no último dezembro. Conheceram o Brasil que se redemocratizava depois do fim da ditadura militar, vivem num cenário mais internacionalizado porém de ainda poucos leitores, como no passado. As tiragens são as mesmas de antes. Assentados em paisagens nordestinas muito bem-construídas, não necessariamente são realistas à maneira de Zé Américo ou Rachel. Tampouco fazem denúncia social, ainda que se possa depreender suas opções políticas. Aproximam-se muitas vezes do absurdo ou do surreal, com um sentido imaginativo do mágico como aquela primeira geração certamente recusaria. Os áudios fazem parte do acervo permanente que pode ser consultado por quem tiver interesse. Apesar de estarem alguns em lados opostos, não houve trocas de sopapos a Zé Lins e Lúcio, tampouco brotaram, que se saiba, versos como o que fez Bandeira.

Categorias como regional e universal, estético e político reapareceram nas falas de dois autores radicados no Recife, ambos premiados nacionalmente: o cearense Ronaldo Correia de Brito, de obras como Galileia e Dora sem véu, o mais recente; e Raimundo Carrero, da tetralogia Condenados à vida, pernambucano de Salgueiro que se considera “bastante cearense” por causa do pai e mãe nascidos no Ceará. Inevitável, entrou em cena o fator Ariano, visto de prismas opostos.

Ariano Suassuna nascera nas dependências do palácio da Redenção, sede do executivo quando o pai ocupava o posto de presidente – nome do cargo – do estado da Paraíba. Era 1927, um ano antes de A bagaceira, dois antes de O quinze. Logo a família vivia numa fazenda, de nome Acauã. O assassinato do pai por motivos políticos, quando aconteceu o golpe de 1930, levou os Suassuna para a cidade de Taperoá. Note-se que ainda se trata de política a influenciar rumos literários, embora o pai de Suassuna estivesse no lado de quem perdia. Restava ao garoto impressionar-se com desafios de viola e mamulengos. Como muitos escritores da época, formou-se em Direito. Começou a escrever poemas e peças, fez já em 1955 uma de suas obras-primas, Auto da Compadecida (1955), quando, na virada para década de 1970, deflagrou seu Movimento Armorial, para reivindicar uma arte erudita baseada em elementos da cultura popular, sobretudo a nordestina. Sem se limitar à literatura, expandia-se por teatro e música. Lançava nessa época O romance da pedra do reino (1971).

Naqueles dias, Carrero, que mal chegava aos 20 anos, viu em Ariano o vislumbre de um caminho bastante diferente daquele dos romancistas nordestinos do ciclo de 1930. Considerou o Movimento Armorial como um passo à frente do que chama de regionalismo, e tomava mesmo distância “das capas com ossadas de boi” na busca de “uma concepção universal”. Na sua formação, diz que Ibsen viera cronologicamente primeiro que Jorge Amado, este naquela década de 1970 também já numa fase bem distante da de sua estreia. No projeto de Ariano, a principal questão era estética, e as manifestações culturais populares, utilizadas como metáfora, símbolo ou imagem, e não como documento. Curiosamente, Carrero recusava a ideia de se apropriar do cordel, matéria-prima fundante para aquele que se tornava seu mestre e amigo. O cordel lhe parecia muito próximo do romance nordestino do ciclo de 1930, particularmente de Jorge. Exceção, segundo Carrero, é Graciliano, que considera “um experimentalista”. Mais tarde, João Cabral seria, em seu entender, um “poeta cordelista”, pois levou o versejar da literatura regionalista para a construção erudita. Mas a grande revolução, “onde o modernismo se realizara”, tinha sido o Grande sertão: veredas, em que Guimarães Rosa realiza “o grande cordel da literatura brasileira.”

Numa das primeiras conversas com Ariano, teria escutado a pergunta: “Tem intimidade com o cordel?” Respondeu-lhe que não, embora a casa de infância ficasse a um passo da feira, onde reinavam absolutos o cordelista e o violeiro. Começou a querer agradar a Ariano, e foi assim que escreveu o conto O bordado, a pantera negra, que o mentor transformou, de pronto, num folheto. Essas páginas ficariam desaparecidas até 2014, quando a editora Iluminuras publicou a obra conjunta, com xilogravuras de Marcelo Soares. Quando lançou seu primeiro romance, A história de Bernarda Soledade – a tigre do sertão, Carrero teve prefácio de Ariano. O segundo livro estamparia um título armorial, ou de folheto de cordel, como confessa hoje: “O misterioso encontro do destino com a sorte”. Desistiu, já tentando se desvencilhar dos moldes armoriais. Ficou Sombra severa. Percebe-se que a aproximação de Carrero com o cordel é quase reprimida; e está o tempo todo latente.

De visão oposta, Ronaldo Correia de Brito não vê muito sentido nas expressões “universal” ou “regional”; se tiver de escolher entre uma delas, não tem dúvida de que ficará com a segunda. Em sua infância, num mundo pastoril próximo ao hebreu, ao árabe e ao da Ibéria moura, a cultura de tradição oral era “única e riquíssima”. As grandes histórias chegavam todas reescritas nos folhetos de cordel. Não considera a geração de 1930 determinante em sua formação, a não ser por Vidas secas, quando passa a ter grande afinidade com seu autor. Não apenas Graciliano, mas um dos preferidos de Graciliano, o russo Tchekhov, aparece nas lembranças literárias de Correia de Brito. E mais uma profusão de autores: de Asturias a Carpentier, de Cortázar a Rulfo. Toda a tragédia grega.

A rixa entre regionalistas e universalistas o faz lembrar outra, aquela que dividiu os escritores russos do século XIX. Eram, de um lado, eslavófilos, como Dostoiévski, e os europeizantes, como Turgueniêv. Correia de Brito lembra que o Manifesto regionalista, o de Freyre em 1926, pretendia uma literatura moderna sem romper com a tradição, pois “ninguém corta o tempo”. Correia de Brito diz que recusa termos como retirantes ou flagelados, usa migrantes, condição da contemporaneidade. Como diz, o “modelo da casa-grande e senzala” é o mesmo, “o escravagismo não deixou de existir no Brasil”. Na mesma proporção, recusa a opção de Ariano. Como afirma, não há como separar sua literatura de um “sentido de ação; tampouco concebe uma literatura “trancada na pura estética”. O regionalismo, em seu entender, significa uma recusa ao esteticismo e ao subjetivismo exagerado. Faz pouco tempo, quando passou temporada em Berkeley como professor-visitante, escutou de um chefe de departamento: “Você foi apresentado como regionalista. Mas não consigo diferenciar ao lê-lo.  Só estou encontrando literatura brasileira. O único selo que parece existir é se é boa ou ruim”.


NOVA GERAÇÃO

Ainda menos ligados aos romancistas do ciclo de 1930, quatro autores nordestinos, cujas estreias aconteceram na última década, estiveram no mesmo evento do CPF Sesc-SP.

Uma escritora-mulher que nasceu e produz no Ceará, Socorro Acioli, diz que a comparação com Rachel costuma ser inevitável. Chegou a fazer séries de entrevistas com a autora de O quinze entre 1998 e 2002, para um ensaio biográfico.  Considera-a, no entanto, muito distante do que escreve; sente maior afinidade com o Jorge Amado de O compadre de Ogum Dona Flor, que também se assemelha mais aos latino-americanos, como García Márquez, leituras mais recorrentes. Em Cuba, numa oficina de escrita criativa com o colombiano, desenvolveu o primeiro esboço do que se tornou seu festejado Cabeça de santo. A religiosidade lhe serviu como matéria-prima de investigação literária, assim como aconteceu com Franklin Carvalho, baiano de Araci.

Carvalho lembra um encontro remoto com os romancistas do ciclo de 1930: a primeira vez que leu Vidas secas teve ao seu lado um candeeiro aceso, a luz elétrica ainda era instável naquele sertão baiano. Acredita que autores de sua geração aproveitam o Nordeste como microcosmo para questões universais – a estrutura econômica perversa, a rigidez moral, a religiosidade acentuada e o misticismo, o que impõe uma densidade muito grave, uma noção de que as coisas não mudariam nem mudarão. “O sertão” é, desse modo, “uma categoria de tempo”. Céus e terra, que venceu o Prêmio Sesc e o São Paulo de Literatura, surgiu de uma pesquisa sobre mitologia da morte e a economia das relações, e o resultado é o que considera “um romance alegórico”, com “várias joias que se juntam para construir o absurdo”. Dado o teor sobrenatural do enredo, ri quando lhe perguntam se é espírita. Vê o misticismo como base do entendimento da sociedade brasileira; e o fantástico está presente no cordel.

Potiguar que chegou ainda pequeno a São Paulo, Estevão Azevedo brinca com sua “condição de impostor”. Recorda-se de uma resenha sobre seu Tempo de espalhar pedras, também premiado com o São Paulo de Literatura, que concluiu: “Só alguém que enfrentou na pele o que ele enfrentou poderia escrever trama com tal força”. Tinha escutado a história numa trilha na Chapada Diamantina, de um vilarejo destruído por garimpeiros. Não quis fazer um romance histórico. Saiu uma espécie de faroeste nacional, onde o problema não é a escassez de água, e, sim, a escassez de afetos. O seu método foi pesquisar em outros autores, como Herberto Sales, autor de Cascalho. Quis trabalhar a linguagem árida – mais próxima de Graciliano – e não deixou de ter prosa barroca. Crê que, “de alguma forma muito enviesada”, alcançou “um romance baiano”.

De avô e pai cordelistas do Cariri, Jarid Arraes, hoje radicada em São Paulo, é aquela que mais subverte a tradição, seguindo-a como poucos. Ao mesmo tempo em que tem uma relação “afetuosa e conflituosa” com sua região natal, Juazeiro do Norte, insere-se numa nova geração de autoras feministas. Como explica, não queria “fazer o de sempre”. Leitora de cordel desde a primeira infância, quis seguir o ofício familiar, deixando de lado personagens de sempre, como Lampião e Padre Cicero, para colocar em primeiro plano figuras subalternas em seu Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, em que conta a trajetória de mulheres negras de todos os campos. Recusa a ideia do cordelista de chapéu de couro ou vestido de chita, “fantasias”, pois que “ninguém se veste desse jeito” nos centros urbanos do interior do Ceará. Projeto literário que se soma a uma nova atitude: seu desejo é que o cordel “seja lido de igual para igual”.

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