Maria 5

 

repita comigo: eu tenho um útero
fica aqui é do tamanho de um punho
Angélica Freitas

 

 

“Elas (as mulheres) são um elemento de perturbação. Eva apareceu com a maçã e atrapalhou tudo. No caso das escritoras, é inegável que elas têm talento e mérito, mas, além dessas qualidades, são possuidoras de outras que perturbam os dotes intelectuais.”

A frase foi dita pelo escritor e ensaísta Ivan Lins (1901-1975), entre um chazinho e uma fatia de rocambole, na virada da década de 1970, contra o movimento que culminaria com a posse da primeira mulher na Academia Brasileira de Letras – Rachel de Queiroz (1910-2003), apenas em 1977. A bíblica reclamação do acadêmico foi lembrada pela jornalista Josélia Aguiar (curadora da Flip 2017 e segunda mulher a ocupar o cargo em 15 edições da festa de Paraty) num recorte de jornal em sua rede social no começo de abril.

“O recorte que postei tem a ver especificamente com uma pesquisa que fiz sobre Jorge Amado (1912-2001) para um livro iniciado em 2011 e que será lançado este ano. O que vou dizer pode parecer espantoso para quem o conhece apenas da adaptação para TV e o cinema, mas o fato é que ele, para sua época, teve ideias avançadas em relação à mulher –ao protagonismo na política e vida intelectual, à frente de instituições, também na vida íntima. Claro, é preciso entender sua obra e atuação dentro de cada momento histórico, senão corremos o risco de fazer leituras anacrônicas e não compreender no que estava avançando. Importante dizer que não sou a única a ter esse argumento, outros pesquisadores e pesquisadoras me precedem nessa linha de compreensão”, aponta a jornalista. Segundo Josélia, Jorge Amado esteve à frente do grupo que desejava a presença de mulheres na ABL. “Há declarações muito engraçadas, inclusive. Isso nos anos 1970, imagine como o país estava atrasado nisso (e ainda está, pensando bem). A ideia de Jorge, por exemplo, era emplacar a entrada da Gilka Machado (1893-1980). O curioso é que quando entrou a primeira mulher, a Rachel de Queiroz, ela deu declarações dizendo que não tinha nada a ver a luta feminista, que não estava nem aí etc.”. Mas aí já é outra história.”

Em seu livro Navegação de cabotagem, Jorge Amado chega a apontar alguns detalhes da histórica relação da ABL com as mulheres: “Essa história de exclusão das mulheres dos quadros acadêmicos foi uma das salafrarices cometidas por Machado de Assis quando fundou a chamada Ilustre Companhia, não foi a única, sujeitinho mais salafrário nosso venerado mestre do romance. Custou-lhe esforço chegar a branco e a expoente das classes dominantes, mas tendo lá chegado não abriu mão de nada a que tinha direito”. E o curioso é que as mulheres não eram as únicas a sofrerem o veto, dividiam o status de cidadania de segunda classe com outro grupo: “Nem boêmios — Emílio de Menezes só pôde ser eleito após a morte de Machado — nem mulheres.”

“Tenho publicado essas coisas da pesquisa no Facebook justamente pela coincidência de todo esse movimento de mulheres das letras que estamos vivendo agora, mais especificamente desde que começou o Read Women no mundo e chegou até aqui”, explica Josélia. “Lembrei esse recorte sobre ‘elementos de perturbação’ justamente acompanhando o Mulherio das Letras, que tem a Maria Valéria Rezende como um dos nomes de frente. A Maria Valéria é incrível em vários sentidos”, continua.

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Mulherio das Letras é o ‘elemento de perturbação’, que tem tomado boa parte do tempo de Maria Valéria Rezende, escritora santista, radicada em João Pessoa, e mais recente ganhadora do Prêmio Casa de Las Américas pelo romance Outros cantos — “Mas não coloque que sou a organizadora do evento, porque não sou. É um trabalho coletivo”, faz questão de destacar sempre que o assunto é trazido à discussão.

O Mulherio não tem um nome central à sua frente, nem cachê de participação, nem curadora ou qualquer outra hierarquia típica de festa literária. Na verdade, não se trata de uma festa literária. E, sim, da culminância de uma série de articulações que têm ocorrido em grupos fechados do Facebook, marcado para acontecer na capital paraibana entre 12 e 15 de outubro. Das conversas, homens não participam. Mas, durante o evento, eles terão acesso. Como plateia.

“Sabe aquela placa de ‘Meninas não entram’ do Clube do Bolinha? Minha vontade era escrever como slogan do Mulherio: ‘Meninos entram. Mas para escutar’”, afirma a escritora. Dos grupos de discussão do Mulherio no Facebook, já participam mais de 2500 mulheres. “Mesmo que ele só seja realizado uma vez, mesmo que concretamente não aconteça aqui em João Pessoa na data que imaginamos, o Mulherio já está acontecendo. O importante é promover a discussão”, continua.

“Concordo com Maria Valéria. Mesmo que o Mulherio como evento, concretamente, fique mais difícil de realizar, pelos mais diversos motivos, o diálogo, a movimentação, isso tudo já está valendo muito. Estar sozinha é muito mais difícil”, diz Josélia Aguiar.

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Após um hiato de 5 anos, a revista Bravo! retornou em 2017 com sua premiação de melhores do ano. Dos três finalistas da categoria de literatura, apenas homens. Votados por um corpo de jurados, também todo formado por homens. Junto com os finalistas desta edição, a publicação relembrou os ganhadores entre 2005 e 2012. Nesse período, nenhuma mulher foi vencedora. O resultado causou uma forte polêmica nas redes sociais e um dos finalistas, o poeta Carlito Azevedo, anunciou que não concorreria mais à premiação.

“Não senti surpresa com o resultado do prêmio da Bravo!. Mas um certo desalento de que, em 2017, os organizadores de um prêmio literário com algum alcance midiático, como o Prêmio Bravo!, estejam cegos ao absurdo de, por anos a fio, só premiarem homens. Poderia até mudar o nome para prêmio Homem! que faria mais sentido”, afirmou a escritora Micheliny Verunschk, que faz parte das discussões do Mulherio.

Quando do anúncio do resultado dos finalistas da Bravo!, Micheliny chegou a ironizar em seu perfil no Facebook a criação de um prêmio com o nome de Bravíssima! A ironia, no entanto, se tornou uma das pautas do evento do Mulherio para outubro. “Estamos trabalhando no Bravíssima”, adianta Micheliny. Há a possibilidade ainda de um prêmio que preste homenagem à escritora Carolina de Jesus, voltado a autoras inéditas em livro solo e com baixa escolaridade.

“Acho que estamos vivendo um momento ímpar. Um momento muito violento, de ameaças e perdas de direitos em várias frentes, é certo, mas também um momento cheio de potencialidades. Se não é possível dizer quais são as pautas que unem as mulheres nesse momento, porque a polifonia de vozes e a urgência de determinadas ações e manifestações não permitem uma visada única (e que bom que não permitem!), por outro lado, é possível perceber alguns pontos de convergência. no que diz respeito à literatura feita por mulheres, e toda a paisagem representada nessa circunscrição, a questão da visibilidade é crucial. Reunir numa discussão quase 3 mil mulheres que de maneira direta se relacionam com literatura, é em si, uma coisa grandiosa. o Mulherio está ali discutindo temas, abrindo veredas, estabelecendo pontes, uma coisa histórica, mesmo”, acredita Micheliny.

“O Mulherio pode ser um espaço para discutirmos os problemas e limitações do campo literário de uma outra perspectiva, pensando questões que nos concernem direta e especificamente enquanto autoras produzindo literatura no Brasil atual, e pelo que tenho acompanhado não será apenas um espaço apenas de reação ao status quo, mas um espaço propositivo, o que também é muito importante”, afirma a escritora e artista visual Laura Erber, que, além de fazer parte do Mulherio, é ativa em discussões sobre o feminismo em suas redes sociais. “O mais importante não é o evento, que seria formidável como um espaço de encontro real e conversas presenciais, mas a própria articulação das escritoras, críticas e pesquisadoras de literatura nesse grupo virtual, movidas pela necessidade de inventarmos um espaço alternativo, não regulado pelo olhar e critérios hegemônicos, tradicionalmente misógino, ainda que muitas vezes de forma inconsciente e dissimulada, enfim, esse outro espaço é uma zona de respiração para nós fundamental”, continua.

Laura, nos próximos meses, inicia um projeto de curadoria, ao lado de Ana Bernstein, professora da Unirio. Será um coleção de debate de temas feministas pela editora e-galáxia: “A ideia com a coleção é criar uma biblioteca de textos teórico-críticos que permitam fazer avançar o debate feminista, alternando textos que alteraram a percepção da disciplina ou do campo de pesquisa em que se inserem. Se hoje no Brasil a militância feminista ganha cada vez mais força e espaço, o mesmo não vale para a reflexão e o pensamento feministas, que circulam de forma tímida e esparsa, e ainda sem um espaço acadêmico claramente instituído. Vamos começar a coleção com uma série de textos sobre arte.”

“Nos últimos 40 anos, intervenções teórico-críticas de feministas e práticas de artistas nos campos da performance, fotografia, body art, dança, pintura e outros, questionaram e desarmaram os discursos hegemônicos tradicionais da história, da teoria e da crítica de arte, revelando a forma como esses mesmos discursos são construídos com base em um pensamento falocêntrico e eurocêntrico, em que a criatividade, associada à masculinidade, é constantemente (re)produzida através de genealogias patrilineares (os grandes gênios da pintura, os ‘pais’ do Modernismo etc.) e de construções de cânones que insistentemente excluem mulheres e culturas minoritárias. Escolhemos também alguns textos seminais sobre artistas cujo trabalho interroga diretamente o campo de forças social, político e cultural em que a arte emerge e circula”, explica Laura.

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As reuniões de organização do Mulherio costumam acontecer na casa de Maria Valéria, no Bairro dos Bancários, na capital paraibana. Para esta matéria, acompanhamos um dos encontros. Cerca de meia dúzia de mulheres compareceu, durante o almoço, para debater questões logísticas do evento: quem pode abrir suas casas para escritoras de outro estado? Quem pode fazer os cartazes de divulgação? Que lugares poderão ser ocupados na capital paraibana? Tudo é pensado coletivamente.

“Não existe, por exemplo, um cartaz oficial do Mulherio. Quem quiser faz o seu e a gente vê como imprime. Tudo é colaboração”. Tudo é, como gosta de dizer Maria Valéria, trabalho de “maioria” — uma discussão de terminologia que tomou boa parte da nossa conversa. A expressão “luta de minoria” a incomoda:

“Creio que uma das coisas que devemos reavaliar e pensar, em relação às organizações e movimentos populares — mediações indispensáveis para se construir e manter uma luta e uma política democrática, é a questão dos conceitos de ‘maioria’ ou ‘povo’ e o/ou o conceito de ‘minoria’ como conceitos organizadores da participação política... Desde 1972, quando passei uns meses na Califórnia (USA), em contato  com vários movimentos e organizações populares americanas, essa questão me preocupou. Na interação com as lideranças daqueles movimentos,  sempre que eu pedia que me explicassem melhor seu princípio de organização, suas causas e métodos de formação e ação, a explicação quase na totalidade dos casos começava com a frase ‘Nós, como minoria oprimida (ou discriminada, ou etc.)’...  então passei a perguntar em cada caso, ao final da conversa: ‘E se vocês unissem e organizassem todas as minorias como uma força articulada, não se tornariam maioria?’  A resposta quase sempre eram olhos arregalados... Voltei preocupada com isso, e lembro-me de ter comentado com várias pessoas o risco de fragmentarmos nossos movimentos se importássemos, como de costume, os modos e modas que vêm do Norte.  Até o início dos anos 2000, o conceito de ‘povo trabalhador’ conseguiu ser mais forte, representar a maioria, contendo dentro de si as várias formas de movimentos populares, sociais, sindicais etc., ainda que muitos deles representassem também minorias com causas específicas.  Mas, de lá para cá,  o conceito de maioria foi perdendo força como expressão das lutas populares, e talvez conceito de ‘povo trabalhador’ talvez já não sirva mais para aglutinar a maioria que está fora do poder e tem de se haver com (e muitas vezes contra) ele. Foi havendo uma fragmentação de  movimentos que parece não ter fim, e que pode ser um dos fatores da situação em que nos encontramos, que parece de impotência diante da (essa, sim) ínfima minoria dos que detém o poder de fato (e supostamente ‘de direito’).  Não sei a resposta para sair desse enguiço, mas espero que possamos encontrá-la e nos redescobrir e reorganizar como maioria politizada, que incorpore as causas justas das minorias como causas assumidas pela maioria,  sem a qual não se mantém uma democracia.”

Maria 3 A

 

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Os trechos a seguir são do próximo romance de Maria Valéria Rezende, um dos seus projetos mais ambiciosos, chamado Carta a uma rainha louca, em que refaz a trajetória de uma mulher do século XVIII. “Os trechos rasurados são assim mesmo… É a autocensura a que sempre foram e ainda são obrigadas as mulheres”, avisa.

“Perdoai, Vossa Majestade Fidelíssima, a esta mulher − enlouquecida pelas penas do amor ingrato e de grandes vilanias cometidas por aqueles que se creem mais poderosos que Vós mesma — por vir—Vos interromper, com seus sofrimentos de mínimo relevo, em Vossas orações e em Vossos atos régios tão urgentes para Vosso Reino e para aquele de Deus. Pois mesquinhos são os infortúnios que Vos hei de relatar se comparados àqueles trabalhos que, desde Vossa régia infância, certamente tendes passado, que Rainha sois, mas nem por isso sois menos mulher e sofrer e chorar é o quinhão de todas as filhas de Eva, não obstante sua condição neste mundo, porque em todas as condições, aqui nestas colônias, em África, nas Índias, na China ou no Reino, no paço real ou na mais pobre aldeia do Vosso Império, estão submetidas às leis dos homens que muito mais duras são para as fêmeas e só para elas se cumprem...".

“Prosseguirei nas folhas rasuradas não por desrespeitosa para com Vossa Majestade, mas por pobre e humilhada que vivo, mulher, destituída de bens, dada por douda e sem contar com nenhum varão que me assegure alguma proteção. (…) Assim vivo destituída de tudo senão de meus pensamentos e palavras ditas a mim mesma e a Deus, de minha honra, minha fé e duas cuias de papa de milho a cada dia, ordenadas ao Recolhimento pelo oficial do Reino que aqui me encerrou. Porque nestas colônias que se dizem Vossas, mas são mais do Demônio do que Vossas, é assim que se vive quando não se têm rendas, tratados os cristãos pobres como se fossem menos do que os animais de trabalho.

“Já as mulheres brancas que nada possuem, que não servem para o trabalho nos canaviais e nas minas, nem para parir crias cativas para seus senhores, tal qual sou eu, não estando destinadas a dar-se em matrimônio como penhor de alguma aliança, não se podendo tampouco vendê-las ou não se querendo comprá-las, nada valem. Ninguém gastará com elas seus bens nem se importará com a sua decência e não terão com que cobrir-se, a menos que tenham a desvergonha e os dotes de corpo para oferecerem-se como rameiras no fundo das bodegas e estabelecer-se em bordéis.”

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Carta a uma rainha louca é um projeto que persegue Maria Valéria Rezende desde a década de 1980. Trata-se da recriação da história real de uma mulher que, na segunda metade do século XVIII, foi processada por supostamente ter criado um convento clandestino na região das Minas Gerais. Um lugar que abrigaria justamente o grupo de mulheres que “sobrava” perante a rígida sociedade colonial de então. “Havia as mulheres dos senhores de engenho, havia as índias e as escravas”, aponta Maria Valéria. Mas o que fazer com as mulheres brancas e pobres, as mulheres que “sobravam”, que não se encaixavam?

O que fazer com a mulher? — Uma pergunta que o projeto do Mulherio três séculos depois ainda tenta responder. Mas desta vez são as próprias mulheres que fazem as perguntas e dão as respostas.

Da realidade para a ficção do seu próximo romance, muita coisa mudou. A personagem histórica, que se chamava Isabel Maria, agora se chama Isabel das Virgens. “Sobre ela, concretamente, eu tinha dois documentos do processo e uma carta dela, escrita a próprio punho. E olhe só que coisa rara: uma mulher no século XVII escrevendo uma carta com o próprio punho. Ela era irônica. Na sua carta, dizia coisas do tipo ‘como me mandaram escrever, escrevo, mesmo sendo mulher’. Parece que encontraram mais coisas sobre esse processo, sobre o que aconteceu com ela,,. Mas não quis ficar sabendo, preferi imaginar. Eu conheci essa história há quase 40 anos e, às vezes, vinha aquela coisa na minha cabeça, de que precisava acertar as contas com essa mulher, ajustar a história dela”, afirma.

Na verdade, toda a literatura de Maria Valéria Rezende parece marcada pelo propósito de ajustar a história de quem não conseguiu, por conta própria, colocar algum tipo de ordem na sua narrativa pessoal. São os casos dos premiados Quarenta dias, espécie de cartografia de quem se perdeu nas brechas das grandes cidades brasileiras, ao recente Outros cantos, que relembra as vozes silenciadas pela ditadura militar. A obsessão pela temática parece ser a conta que a criadora “paga” por uma vida inteira dedicada à educação popular. E o Mulherio parece ser mais uma de suas “obras”. Ainda que, desta vez, com “autoria coletiva”.

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Enquanto decide o que fazer com sua Isabel das Virgens, Maria Valéria Rezende entra numa etapa de conseguir patrocínio (“É pouco dinheiro, não é muita coisa”) para o Mulherio. Ainda não há um patrocinador oficial. “Por enquanto está tudo ainda ‘de boca’ e sem oficialização... mas estamos correndo pra fechar tudo e “oficializar” até o mês de maio”, diz.

“Já é praticamente certo que as atividades de conjunto do Mulherio se darão no próprio Espaço Cultural José Lins do Rego, que é enorme, e tem espaço de sobra para isso, além de vários equipamentos. Além disso, estamos nos movimentando para obter patrocínio de vários tipos de serviços daqui da Paraíba (hotéis, restaurantes, gráficas, transportes etc., para facilitar a vinda e participação de todas as que quiserem e puderem vir.). Estamos também completando o levantamento de hospedagem solidária que pode ser oferecida pelo Mulherio daqui de João Pessoa às participantes que precisarem desse apoio para vir, já que cada uma custeia sua participação. Mas que vai haver Mulherio, isso é certo!”.

Não só vai haver o Mulherio. Já está havendo!

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