Resenha Francisco Dantas Divulgacao mar20

 

É comentário frequente entre os felizes leitores que se dispuseram à travessia de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa: no início, a atenção se perde por conta do vocabulário e da sintaxe peculiares, e pode ser penoso reconhecer o sentido de muitos trechos do texto. A partir de certo ponto, porém, passadas dezenas ou centenas de páginas, sem que saibamos precisar a razão, talvez graças à desistência ou resignação, a cadência encantatória passa a preponderar e outra espécie de compreensão entra em ação, uma que ultrapassa a camada mais imediata dos significados. A sensação é de uma libertação do jugo dos conceitos, algo que a poesia costuma nos propiciar com muito mais frequência do que a prosa.

Embora em Uma jornada como outras tantas, do sergipano Francisco J. C. Dantas, o grau de invenção e a envergadura dos desafios oferecidos ao leitor sejam incomparavelmente menores, neste romance também predomina a sensação de que há, no encadeamento das palavras e das frases, algo que conduz a um tipo similar de fluência, regida por um prazer, digamos, quase musical. Muito disso tem a ver com a criação bem-sucedida de uma voz autêntica, de gente humilde do interior do país.

A trama do romance de Dantas é simples: grávida do quarto filho, Madrinha é acometida por forte hemorragia. Sinha Amália, a parteira, acode a enferma, mas não há sinal de que ela possa sobreviver se não for levada com urgência de Borda da Mata, vilarejo no interior das Alagoas, a Rio-das-Paridas, cidade onde há posto de saúde e ambulância, e então a Aracaju. O único transporte disponível é o carro de boi, vagaroso e desconfortável, do pouco amistoso Zé Carreiro. Valdomiro, filho adotivo de Madrinha e Teodoro, é incumbido pelo pai de ir em seu lugar. É o jovem de quinze anos quem, décadas depois dessa jornada, ocorrida nos anos 1950, narra a história. Da mistura de ingenuidade, insegurança por não se crer à altura da missão, devoção pela madrasta — às vezes tingida de leve erotismo — e encantamento pelas paisagens resulta um texto de forte tom lírico. Além da doente, da parteira, do condutor e de Valdomiro, acompanha o grupo o pai de Madrinha, Seu Saturnino. Desesperado pela situação, ele impreca do lombo de seu burro contra a lerdeza do carro e o aparente descaso de seu condutor com a gravidade da situação.

A ideia de uma travessia cujo sucesso e duração dependem da resistência dos animais, das condições do terreno, da fibra e do grau de solidariedade dos homens e do nível de ausência de Estado (criminalidade, corrupção, infraestrutura precária etc) é importante na obra monumental de Rosa e decisiva na de Dantas, cujo andamento segue o compasso determinado pelo casco dos cavalos, pelos rangidos do carro de boi, pelos xingamentos de Seu Saturnino e pelos gemidos da enferma: “Esses elementos visíveis que são pedaços da paisagem, mais as notas falhas do carro, misturados aos gemidos da Madrinha, formam uma barafunda ininteligível que nos faz sentir inúteis, sem condições de abreviar uma solução efetiva e apaziguadora”.

Da produtiva correspondência entre a lentidão dos ciclos do mundo natural — plantações, colheitas, fertilidade — ou, melhor ainda, entre a sabedoria de que tudo leva o tempo que precisa levar, e o ritmo do romance derivam algumas das belezas do texto: “Já avistamos os pendões de milho. Como oscilam com a pancada de vento! Pode ser que avancemos menos devagar do que me parece. Mas, se olhados de longe, tenho certeza: é como se não nos movêssemos do lugar. Nos deslocamos como se fôssemos um pedaço de terra solto na imensidão de um rio. Nos calombos de chão mais altos e enxutos, os bois caminham numa marcha tão silenciosa que chego a ouvir o range-range dos arreios: o tamboeiro de couro cru vai se atritando com a canga e a chaveta. Ou é este cavalo apressadinho que me propicia uma falsa impressão?”

As deslumbrantes descrições da paisagem, dos modos de vida e dos sentimentos humanos são o ponto forte do romance. Chega a ser prodigiosa a habilidade com que Dantas sustenta por dezenas de páginas consecutivas o interesse do leitor com, por exemplo, variações das agruras físicas da gestante agonizante ou do martírio psíquico do pai que nada pode fazer a respeito, nem mesmo estar ao seu lado. Tudo se descortina diante do leitor com enorme riqueza e vivacidade.

Menos potente é o retrato do sistema político que condiciona a região ao atraso. A oligarquia dos Canuto surge aqui e ali e ganha destaque no desfecho, mas a investigação da sociedade não constitui uma das linhas de força do romance. Uma característica que deveria render para justificar sua escolha, a saber, a da narração a posteriori, não tem repercussões relevantes, o que não chega a frustrar. Em diversas passagens, o narrador reflete sobre a impossibilidade de confiar em sua memória: “Devido à distância de tantos anos recolho essas lembranças sem muita convicção. Há pontos cegos, repito. Sequer sei discernir com propriedade por qual crivo associo as imagens transfiguradas em palavras. Talvez tudo não passe de uma rememoração mais imaginária, cheia de remendos, do que calcada no real”. Essa constatação, no entanto, não se confirma pela existência de possíveis rachaduras em seu relato e não traz implicações. Cativados pelo drama íntimo das personagens, visível numa prosa de estilo exuberante e virtuoso e que remete a uma grande tradição — a de Rosa, de Graciliano, de José Lins do Rêgo —, não chegamos nunca a duvidar da exatidão com que o narrador nos apresenta as paixões que os movem.

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