Resenha Arnon Divulgacao

 

Como não morrer? Esta é a pergunta, essencialmente disparatada, e para a qual não há resposta satisfatória, que parece fundamentar o mais recente romance do escritor holandês Arnon Grunberg (1971) no Brasil, Marcas de nascença (Rádio Londres), publicado na Holanda em 2016, e o quinto publicado por aqui. A tradução é de Mariângela Guimarães.

É a pergunta que o protagonista Otto Kadoke volta e meia se faz, sobretudo por dever de ofício, afinal ele é um psiquiatra especializado na prevenção de suicídios, ou seja, “um propagandista da vida” e “administrador de sintomas”, como ele mesmo se define, alguém que “se mete entre os pacientes e a morte”. 

Aos 42 anos, divorciado, sem filhos, praticamente sem amigos, enquanto fuma um cigarro atrás do outro, o personagem vive entre os atendimentos emergenciais para potenciais suicidas em Amsterdã (por meio de plantões diários que dão uma dinâmica de aventura ao romance) e o cuidado com a mãe idosa, que necessita de atenção médica especial – e que frequentemente sugere ao filho, em contrapartida, que ele se matricule num curso de artes marciais para aprender finalmente a se defender. A certa altura, o leitor é levado a se perguntar quem afinal cuida de quem.

A relação entre mãe e filho, mais do que complexa ou conflituosa, é doentia, ora terna, ora hilária, repleta de incógnitas e “portadora de segredos de amor”, como diz Kadoke. As marcas de nascença, nesse sentido, são como os sintomas de uma doença, que se refletem em um conjunto de pintas (“benignas”) que Kadoke carrega nas costas, mas principalmente na linguagem, que ele mesmo reconhece ser a “criadora de doenças por excelência”.

Entre o atendimento a suicidas e o cuidado com a mãe, uma terceira doença vai ganhando forma no próprio discurso narrativo e também ameaça tudo. Em uma fórmula simplificada e direta, tal como a reprimenda de sua ex-mulher, Kadoke parece aos poucos “perder o contato com a realidade”.

A estas alturas, pela sequência disparatada das situações cada vez mais temerárias nas quais o psiquiatra Kadoke se enfia, assim como pelas decisões incongruentes e abusivas que toma, a despeito de seu tom eventualmente sabido, pedante, hiper-racional mas sempre contraditório, lançando mão inclusive de justificativas médicas e científicas para fazer valer os maiores despautérios, o leitor já teve tempo de perceber que há uma distância grande que separa o que Kadoke efetivamente pensa e o que afinal se passa ao seu redor.

Se ele, que “não é homem de fazer observações atrevidas”, acaba por transar com uma das cuidadoras da sua mãe, uma jovem nepalesa ilegal na Holanda, depois de declarar insistentemente seu amor por SMS, e se acaba por levar uma surra do namorado nepalês também ilegal, por sua vez classificado como “rude, impróprio e pouco diplomático”, dias mais tarde o protagonista não hesita em empregar uma de suas pacientes mais perturbadas como a nova cuidadora de sua mãe, por meio de um método que chama simplesmente de “terapia alternativa”.

Daí também o emprego frequente dos eufemismos, que em nível micro disfarça as ideias mais obscenas, violentas e desagradáveis – como os abusos (especialmente contra mulheres), o trauma ou a própria morte – por meio de expressões suaves e delicadas.

Tal dissociação consiste na própria matéria do romance, da qual deriva toda a sua força crítica e inclusive suas muitas situações humorísticas, pois quanto maior for a distância que separa Kadoke da dita realidade, mais objeto de riso o personagem será – pois ele mesmo, evidentemente, não possui qualquer humor.

Quem chegou a ler Tirza, considerada a obra-prima de Grunberg, cujo narrador arrasta toda a história para dentro de seu surto sem que o leitor possa saber ao certo o que se passa, conhece bem a manobra narrativa que é refeita agora em Marcas de nascença, mas de outra maneira e com diferentes consequências.

Se a história de Tirza vem narrada em primeira pessoa, dificultando qualquer acesso do leitor ao que efetivamente se passa, o novo livro de Grunberg varia entre o discurso direto e o indireto livre – quer dizer, formalmente a história de Kadoke é contada em terceira pessoa, mas por meio do ponto de vista pessoal do protagonista. Por um lado, a narrativa em terceira pessoa cria um efeito de objetividade ou de segurança que, por outro, o romance subverte à medida que tal objetividade só esconde um delírio de fundo cada vez mais imponente.

O que Grunberg parece nos propor aqui com o uso brilhante que faz da terceira pessoa é bem o oposto de qualquer noção de neutralidade: são a loucura e a alucinação que podem se apresentar sob as mais diferentes formas, inclusive as mais convincentes e até as “oniscientes” – nesse caso como uma peça médica, já que Kadoke “é um homem que vive de maneira eficiente, com plena compreensão para as falhas humanas, possui a calma que um médico deve ter”.

De resto, as características que alçaram Grunberg a um lugar de destaque na ficção contemporânea logo são notadas também neste novo livro, outro ponto alto de sua obra: a prevalência dos discursos médicos na constituição dos sujeitos; a falta de piedade do autor em relação aos seus protagonistas, que são postos a nu; a narrativa repleta de conflitos de versões, apesar de sua aparência realista; a investigação dos mais diversos tipos de neuroses, nascidos de uma relação desordenada com os pais; e o desacordo permanente entre situações corriqueiras e absurdas, que encontra na violência uma espécie de reconciliação com o real.

Pois o real acaba por se impor e até se vingar, seja por meio da imposição de um humor que o protagonista a todo tempo reprime, seja por meio da própria da morte ou mesmo dos detalhes, que são, como se sabe, as diferentes moradas dos demônios.

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