Daniel.Arelli Mauro.Figa.Divulgacao mar19

 

Em entrevista tão esclarecedora quanto provocativa, o escritor argentino César Aira argumenta que não sofre da célebre “angústia da influência” simplesmente porque aceita todas as influências que aparecem, sem restrições. Quer dizer, sofre a influência, mas não a angústia. Em certo período – diz o escritor – ele é influenciado por um conto de Borges, em outro por um romance de Stephen King, no período seguinte por um filme de robôs etc.

Em outra proporção, a estreia na poesia de Daniel Arelli (foto), com Lição da matéria, livro vencedor do mais recente Prêmio Paraná de Literatura, aponta em direção similar. Embora não chegue a compor poemas sobre robôs, Arelli entende, como em Teoria do rascunho, que “a poesia é basicamente uma moenda”, de modo que tritura (e transforma) qualquer material que venha a encontrar pela frente: “o que passar/ se passar/ torna-se poema”.

Daí o poeta transitar por influências, formas e materiais tão desiguais, que vão desde a poesia de João Cabral e (da antipoesia) de Nicanor Parra até a escultura kitsch de David Černý, ou de Manoel de Barros a Adília Lopes, passando por notícias científicas, tratados ontológicos, manuais de história natural e breves anotações de viagem, de Ouro Preto a Berlim. E isso com a mesma naturalidade – isto é, sem qualquer hierarquia – e eventualmente algum senso de humor, mas nem sempre com a mesma desenvoltura.

Aliás, basta passar de relance pelos títulos e paratextos para perceber que um dos procedimentos de Arelli consiste em trazer todos estes materiais à superfície do seu poema e mesmo evidenciá-los, o que acaba tornando sua escrita, sobretudo, um método de leitura.

Títulos como Diante dos retratos de Alain Laboile, Uma fotografia de Adília e A Amazônia de Villa-Lobos, entre tantos outros, além de pequenas marcações no próprio corpo do poema, como “a partir de João Cabral”, “via Maria Martins” e “para Age de Carvalho”, de saída já fazem o trabalho de empilhar e saturar o livro com um amontoado de citações, que pode ou não soar bem ao leitor de poesia.

Procedimento que também procura esvaziar o poema de qualquer segredo, dando a ele “o mínimo de sentido/ sem interioridade/ ou abismo”, conforme A vida de Galileu, afinal os sentidos quase todos estão na superfície. O desejo de compor um livro “sem artifício” está expresso em outros títulos do volume, a exemplo de A arte da edição: “Vamos fazer um livro claro/ como um deserto noturno/ um livro limpo/ como um instinto animal/ imagine um livro/ sem artifício/ um livro simples/ que desapareça sob os poemas/ expelidos como pétalas/ de uma flor estranha e bissexta/ como se tivessem sido sempre/ parte do mundo”.

Por outro lado, não se deve atribuir a tal empilhamento um mero desfilar de erudição já que Arelli parece compreender também, em diálogo com Brecht, e de modo talvez paradoxal, que a Cultura (é o título de outro poema) não passa disto: “(...) Um arquivo/ de documentos rasurados/ Uma coleção/ de relíquias saqueadas/ Uma tradição/ de traduções equivocadas”. Poesia culta, talvez, mas também pós-cultural.

A questão é que a poesia de Arelli não apenas deixa-se influenciar com certa condescendência; a presença e a importância da noção de influência em seu livro deve ser ainda mais marcante à medida que os poemas extraem ou “arrancam” desse influxo o sopro necessário de sua vitalidade, moldando-se então às mais variadas formas à sua volta, que são justamente as formas do mundo, por sua vez visto como um livro.

Em Ler o livro do mundo, o poeta propõe uma teoria importante para a compreensão de Lição da matéria. Nela, “cada coisa” consiste em uma “cadeia de relações” que forja então “um mundo possível” em um “emaranhado”, e que todo o livro, a exemplo do mundo, consiste em um livro-mundo “aberto”. Ora, é preciso “estar aberto”, embora não apenas isso, para ser capaz de sofrer influências. Eis aí uma definição, assim como certa lição, desses poemas de Arelli: as coisas devem ser vistas em sua relação com as outras, e o mundo como um emaranhado.

Não por acaso, na “oficina abstrata” do poeta, o leitor encontrará poemas tão diversos, mesmo em livro tão enxuto, o que, nesse caso, então significa não só algum virtuosismo, como também a tentativa de reunir, em nível estilístico, os contínuos estranhamentos das mais variadas formas da matéria: “(...) Difícil determinar/ de que estranha matéria é feito este poema”, conforme se lê em Fenomenologia da composição.

Afinal, seguindo ainda a pista do título, outra das lições da matéria (e trata-se nesse sentido de um livro “materialista”) seria justamente a possibilidade de uma poética mutante – poética que se coloca, em relação ao mundo, no estado de constante ruminação, modificando-se conforme as influências. O que no limite levaria a questionar certas noções de autoria, por meio da ideia – amplamente difundida pela crítica literária nas últimas décadas – de uma “poética não original”. Por um lado, poesia conceitual, sem dúvida; por outro, certo elogio da forma.

Em suma, trata-se de uma poética permissiva, declaradamente relacional, superficial no sentido de compreender o mundo como exterioridade pura; mas sobretudo especulativa, tendo como fundamento mais marcante a meditação e a sondagem, a exemplo do que sugerem os versos iniciais de Ontologia sumaríssima revisitada: “Não apenas a contingência do ainda-não,/ do talvez e do quase. (Embora talvez/ seja preciso dizer sempre talvez.) (...)”.

Na orelha do volume, Ricardo Silvestrin notou com bastante precisão esse método do livro ao propor que Arelli – que é também um jovem professor de filosofia – apresenta-se como um pesquisador. “Colhe uma mostra, examina-a e faz um parecer, criativo, sobre ela. Surge então essa estranha voz que se faz do choque da postura da observação analítica com a explosão criativa”, pontua Silvestrin, que enfatiza ainda certa estranheza do livro em relação “ao universo mais comum (...) do que se produz em poesia”. Talvez Lição da matéria seja mesmo uma lufada de ar novo na poesia contemporânea feita no Brasil.

E Arelli apresenta-se também, vale acrescentar, como crítico (ou seja, poeta-crítico-leitor-filósofo) à medida que toma o cuidado, quase sempre, de se distanciar dos materiais recolhidos, se entendermos o trabalho crítico justamente como arte do distanciamento.

Não por acaso, os poemas do autor ora se parecem com tratados ou esboços de ontologias, pois vivem de formular e testar hipóteses sobre o mundo e sobre a arte, de recontar a história a partir de novos discursos, de questionar saberes estabelecidos e finalmente de inventar outros nomes para velhas questões, como no belíssimo Outros nomes da natureza. Talvez, aliás, os poemas nem se pareçam tanto com poemas. Talvez seja preciso dizer sempre talvez.


Cinco poemas de Daniel Arelli

Outros nomes da natureza

O que é
fechado à mente
o fundo comum
a tudo
o todo
a causa de si
princípio da própria
reprodução
o inteiramente outro
anteparo amorfo
do trabalho
e da forma
metabolismo
evolução
o que de mais íntimo
se rememora
em ti
contra ti
irrompe
pura exterioridade
o que ama
esconder-se


Ocidente 


Arqueólogos descobriram na Grécia
uma placa de argila com a inscrição
do que parecem ser treze versos
do Canto XIV da Odisseia.
É o registro mais antigo da epopeia.
Ainda não decifraram inteiramente a inscrição
mas estão todos aflitos
sabem que uma pequena variação
no sentido dos versos
como um dativo no lugar de um genitivo
um verbo em aoristo
terá consequências incalculáveis
para a civilização:
de repente o Ocidente será outro
de repente o Ocidente terá sido sempre outro.


A arte da edição

vamos fazer um livro claro
como um deserto noturno
um livro limpo
como um instinto animal
imagine um livro
sem artifício
um livro simples
que desapareça sob os poemas
expelidos como pétalas
de uma flor estranha e bissexta
como se tivessem sido sempre
parte do mundo


Arrancar a manhã

O esplendor da manhã não se abre com faca
Manoel de Barros

Will there really be a morning?
Ih there such a thing as day?
Emily Dickinson

Se
ja-
mais
houver
manhã

Uma
única
singular-
íssima
manhã

Ela será ar-
rancada
à unha
a dente
à faca

Aurora
tecida
a grito
e à rinha
de galo

Crisálida
cuja seda
só se
abre
a rasgo

Ave
tão frágil
para rachar
sozinha
o ovo

A escultura de David Černý em Praga

ready-mades

dois homens mijam no mapa da nova república
pintaram de rosa-choque o novo tanque soviético
bebês gigantes engatinham pela antena de rádio
o velho trabant ainda funciona sobre quatro patas
são venceslau monta a pança de um pangaré
a cabeça de kafka se move junto ao moldava

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