reinaldo

 

Às vezes, Reinaldo Moraes faz de Maior que o mundo o seu Jogo da amarelinha pessoal, ao caçar alguma coisa ou alguém por uma metrópole que se acredita bem iluminada – mas, ao contrário do clássico de Cortázar (1914-1984), a Maga é substituída pela utópica primeira linha perfeita de um novo livro que nunca começa, e Paris é a São Paulo que jamais acaba/dorme a se estender entre o Baixo Augusta e certas ruas de Pinheiros. Às vezes, Maior que o mundo lembra ainda O romance luminoso, obra-prima do uruguaio Mario Levrero (1940-2004), em que a escrita de um livro se equilibra entre o prazer e o inferno (ambos, por sinal, bem carnais) de nunca chegar ao fim. Ou mesmo de começar.

O criador empacado já estava presente no romance anterior de Moraes, Pornopopéia  (com acento mesmo), que o consolidou como um dos nomes mais potentes da literatura brasileira. Mas em Pornopopéia a caça pela inspiração era a de um publicitário que se acreditava artista e precisava fazer um vídeo institucional de embutido de frango - “É – repita comigo – vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. É o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado”, vocifera o narrador no começo do romance.

Num comentário famoso à época, o crítico Roberto Schwarz chegou a destacar que “um dos pontos mais ambiciosos do livro é fazer alta ficção com embutidos de frango, o que, de maneira oblíqua, manifesta uma forte insatisfação social”. As questões sociais e políticas em Moraes, de fato, sempre aparecem de forma oblíqua: estão ali, são o aparato, a sustentação, mas você não as enxerga direito – há sempre alguma outra coisa acontecendo que nos afasta do que deveria importar. O leitor fica aprisionado pela linguagem impressionante de Moraes e por suas descrições à pulp fiction de muitas carnes e de muitos aditivos químicos e alcoólicos à disposição.

Se em Pornopopéia o torpor sexual se desenrolava em meio aos ataques do PCC de 2006 em São Paulo, que fizeram dezenas de mortos, o novo romance tem logo ali na Paulista as marchas de 2013, que o narrador/personagem (a primeira e a terceira pessoa se embaralham no livro) Cássio Adalberto, o Kabeto, ignora solenemente. Existe um incômodo, vez por outra, mas a cidade/ o corpo/ a escrita/ a noia parecem falar mais alto, pelo menos por enquanto – “Dizem que as redes sociais chupam todo o tempo livre da pessoa. Antes , o que é que chupava? A TV, o rádio. As pessoas com mais grana iam muito ao cinema e teatro, mas isso não sugava o tempo de ninguém. No meu caso, são as minhas fantasias sexuais que chupam todo o meu tempo, quase literalmente, já tem fantasia sexual que adora pagar um boquete pro fantasista”.

Quando se fala da obra de Moraes, a primeira coisa que costuma ser lembrada são as descrições generosas de sexo. E aqui elas continuam abundantes. E, ao falar de sexo, Moraes acaba fazendo um retrato etnográfico bastante divertido (engraçado no sentido, também, de melancólico, por tratar o real de forma tão extrema que acaba perfurando o lado exótico da coisa) da São Paulo dos baixos e da modernidade com rodinhas da classe média – tal e qual um dia fizeram tão bem Marcia Denser no seminal Diana caçadora e Angeli nas suas tirinhas clássicas dos anos 1980. Discípulo da literatura do Marquês de Sade, Moraes nos lembra ainda que exibir o sexo de forma tão crua, tão torpe e tão numérica (tal e qual uma equação matemática) é também exibir o medo dos jogos entre as classes sociais. É por isso que tanto em Pornopopéia quanto em Maior que o mundo existe alguma coisa se desenrolando lá fora, enquanto os corpos se encontram em lugares fechados ou alheios ao mundo - “Alguma coisa sempre acontece em qualquer lugar com gente humana por perto. Não é possível não acontecer nada, porque esse nada em si já é um acontecimento, da mesma forma que o tédio é um sentimento tão real quanto o tesão, embora implique bem menos perda seminal”.

Se os embutidos de frango de antes traziam uma questão social ou de uma praticidade que seja, em Maior que o mundo a coisa se complica ainda mais. Um novo romance não tem sentido prático num mundo sedento por embutidos de frango. A literatura é uma outra coisa, que por si só não tem uma função exata, concreta (leia-se capitalista). Ninguém precisa de um novo romance, mas talvez precise de embutidos de frango. Tanto é que Kabeto não consegue chegar nunca à primeira frase que busca – engenhoso, Moraes leva essa impossibilidade para seu texto, já que o livro não começa com uma primeira frase propriamente dita, mas com as aspas das gravações do narrador pelas ruas da cidade; e acaba resolvendo sua angústia criativa topando com um romance anônimo e pensando… hum, por que não?

Maior que o mundo é o primeiro volume de uma trilogia em que Moraes pretende percorrer a sua interminável São Paulo para falar dessa coisa que, incomodada com o terror lá fora e o desejo aqui dentro, hiberna precariamente: a criação ficcional.

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