Resenha.out18 Felipe Charbel Hana Luzia

 

 

 

No conto A máquina de pensar em Gladys, de Mario Levrero, o narrador se prepara para dormir e faz um inventário de tarefas antes do sono: deixar uma janela aberta e fechar outra, esvaziar um cinzeiro, dar corda no relógio. Uma das tarefas é verificar a máquina de pensar em Gladys que “estava ligada e produzia o suave ronronar habitual”. Nada se explica sobre essa máquina. Mais à frente o narrador: “De madrugada acordei inquieto, um barulho incomum me causou um sobressalto; me enrolei na cama e me cobri com travesseiros, coloquei minhas mãos na parte de trás do meu pescoço e esperei o fim de tudo com meus nervos em tensão: a casa estava desmoronando”. Essa pequena narrativa do escritor uruguaio me parece um trecho possível de Janelas irreais, um diário de releituras, escrito por Felipe Charbel e lançado agora pela Relicário Edições. O livro de Charbel abre com uma citação de Henry James: “A casa da ficção não tem uma, mas um milhão de janelas”.

Trata-se de um livro que combina memória, ensaio e ficção para contar a história do narrador a partir de suas releituras. Ou melhor, o narrador tenta, através de suas releituras, reencontrar sua felicidade como leitor e talvez entender o que acontece à sua volta: uma viagem malfadada, o fim de um casamento, seus problemas para perder peso, seu emprego como professor universitário. Entre as obras relidas pelo narrador estão principalmente livros de Philip Roth, Roberto Bolaño, Don DeLillo, J.M. Coetzee e Lydia Davis. Mas não é só isso: o livro também se serve de trechos de romances abandonados e abundante troca de e-mails do narrador com algumas mulheres. Em um trecho avançado do livro, o narrador escreve em uma entrada no seu diário: “Nossa fuga é sempre para dentro. Só nos abrimos para o mundo através de janelas irreais, projeções fantasiosas nas paredes da caverna”. Logo depois: “Só existem dois desfechos possíveis para um diário: a desistência ou a morte”. Entrada de janeiro de 2015: “O meu prédio vai desabar. Olho para cima e tento avistar o apartamento onde moro, mas o reflexo do sol nas janelas esfumaçadas me deixa cego”. 9 de março: “Antes de O teatro de Sabbath, meu Roth preferido era A marca humana. Até hoje detalhes da trama me vêm à mente com extrema facilidade, como seu eu tivesse presenciado os eventos, em vez de lê-los numa narrativa inventada”. É interessante notar o jogo de espelhos que se cria quando o narrador cita uma releitura do Homem invisível, de Ralph Ellison, feita por Philip Roth: “pois aqui também o herói é deixado com o fato simples e gritante de si mesmo. Ele está tão sozinho quanto um homem pode estar. Não que ele não tenha saído para o mundo, ele saiu, e saiu e saiu – mas no fim escolhe ir para o subsolo, e lá viver e esperar. E isso tampouco lhe parece um motivo de celebração”. O narrador pergunta quanto do protagonista de Homem invisível ressurgiu no protagonista de O teatro de Sabbath. Poderíamos fazer o mesmo e perguntar a todo momento o quanto de Mickey Sabbath e outros personagens ressurgiram depois no narrador de Janelas irreais.

O trecho sobre a paternidade e suas complexas reaparições em releituras é um dos mais marcantes do livro. Lemos na entrada de 15 de agosto uma citação de Paul Auster: “A exemplo de tudo o mais na vida meu pai, ele só me enxergava através da névoa da sua solidão, como que a vários graus de afastamento de si mesmo.” e “…eu havia nascido, me tornei seu filho, e cresci, como se fosse apenas mais uma sombra, aparecendo e desaparecendo no reino da penumbra da sua consciência”. Aí entra o narrador: “O ressentimento é um tema frequente na literatura sobre paternidade, o ângulo por excelência a partir do qual filhos e filhas escrevem sobre seus genitores. Em A invenção da solidão, Auster se coloca numa posição de falta, de quem reivindica alguma coisa”. Uma releitura de Patrimônio, outro livro de Philip Roth, serve para colocar a máquina do narrador em movimento e analisar sua própria vida. É quando ele percebe que agiu como o próprio Roth e escolheu um novo apartamento para morar em um bairro qualquer sem nenhuma razão consciente, mas então descobre que o novo endereço é bem perto do cemitério onde o pai está sepultado. Uma das entradas do diário pode ser um sonho ou um trecho de um livro imaginado: “Sonhei que estava com a minha avó, a dona Bertha, no quarto de adolescente da minha irmã. A mãe da minha mãe conta histórias antigas sobre a infância da sua mãe, em Trás-os-Montes. Finjo não ter interesse, mas sinto prazer com o falatório. Dona Bertha tem a voz de uma gralha, me nina como se eu fosse um bebê, e do seu colo avisto uma mulher jovem, deitada de bruços. Não dá para distinguir seu rosto, mas é a Hanna, sei que é a Hanna. Ela tem algumas bolhas, pequenas feridas na pele. Está com catapora. Digo que precisamos ir ao médico. Muda a cena e estou num consultório de dentista. Minha avó (dona Bertha, mãe da minha mãe) me acompanha na consulta. De pé, atrás da cadeira ergonômica, sem dizer uma palavra, ela me espreita como um fantasma, enquanto a dentista me faz perguntas”.

Estamos obviamente no mundo daqueles que leem e releem para interpretar o mundo. Os sentidos vão se multiplicando a cada página e ganhando novas camadas de interpretação. Aqui o leitor vai encontrar alegrias e tristezas, mas acima de tudo descobertas. Existe um desfecho possível para esta resenha. É um trecho citado pelo narrador e que ganha mais um sentido ao ser lido por você, leitor: “George Steiner dizia que a verdadeira crítica é sempre um ato de amor”. Reler é um ato de amor. Em Janelas irreais, assim como no conto de Mario Levrero, estamos diante de algo que não pode ser explicado, mas que está sempre em funcionamento, ronronando como um gato enquanto o mundo se despedaça. Podemos chamar isso de memória ou ficção.

 

> Bernardo Brayner é escritor e ensaísta, autor de Nunca vi as margens do rio Ybbs

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