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Nossos ancestrais viveram como espécie minoritária em um mundo habitado por animais selvagens. As pinturas do paleolítico dão notícia do profundo respeito dos homens pré-históricos pela potência e beleza animal. O espetáculo assombroso e fascinante daquele mundo deu a eles a medida de sua fraqueza e desencadeou o desejo de figurar o mistério das espécies com as quais conviviam. A história da humanidade é também a história da inversão dessa relação. Em um planeta cada vez mais dominado pelos Homo sapiens, os animais tornaram-se objeto de dominação, de curiosidade e, depois de domesticados, de afeição. Nossa crise civilizatória teria aí suas raízes mais remotas, se considerarmos que a relação de dominação e assujeitamento do homem pelo homem passou pela perda da percepção da humanidade dos animais e pela instituição de uma dinâmica opressora entre sujeitos e objetos.

O livro de estreia de Gustavo Pacheco (Alguns humanos, Editora Tinta da China) defronta-se com essa crise, reelaborando-a em 11 contos de ficção real. Tratar do humano numa época estranha como a nossa, significa encarar a possibilidade do nosso próprio fim, mas também a necessidade de superação conceitual do homem e da civilização construída em seu nome. Cada um desses contos trabalha uma dimensão da relação entre a cultura do homem branco e seus outros.

Os relatos são secos, cadenciados, sinistros, mas nunca cedem ao mau hábito estético de extorquir comoção, culpa ou sentimentos fáceis. O tom impassível e recuado ajuda a desviar do sofrimento e descrever melhor a crueldade como fenômeno coletivo complexo. Deixando intacto o enigma da violência, o livro produz um efeito bem mais inquietante do que uma denúncia, racional ou emocionada dos eventos e crimes narrados.

Essas histórias flagram a violência em seu ponto cego e nos lembram que o outro é sempre muitos e faz alianças surpreendentes – o primeiro conto fala diretamente sobre isso ao narrar a interação entre Dohong e Ota numa jaula. Para esses outros do homem branco colonizador – krenaks, pigmeus, botocudos, muriquis, uma mulher simiesca ou africanos escravizados –, continuar vivo muitas vezes significou fugir ou se esconder, mas também saber fazer alianças com os outros outros, em cadeias instáveis e estranhas de cumplicidade e fraternidade.

Não é recente o interesse da literatura pela vida animal. Além dos bestiários medievais que exibiam coleções de animais fantásticos provenientes da cultura pré-cristã, além também das fábulas clássicas em que os animais encarnam o caráter vicioso do humano, os animais marcam presença na poesia moderna e contemporânea. O cisne sujo e deslocado de Baudelaire, o corvo de Poe e a girafa de Marianne Moore falam do olhar que o homem lança sobre outros seres vivos. A natureza do olhar humano sobre os animais foi questionada por John Berger no belo ensaio Por que olhar os animais?, escrito nos anos 1970. Berger alertava para o modo violento como exibimos os animais, pois, mais cedo ou mais tarde, acabamos por realizar o mesmo tipo de violência conosco.

O zoológico e o museu são temas importantes nesses contos. Bem mais que cenários, são tratados como espaços de regulação do olhar que definem o modo de se relacionar com a alteridade e oferecem um testemunho da objetificação da cultura. Quantas seções de zoologia de museus de história natural não são fruto de safáris tão sombrios quanto a caçada antidarwinista descrita em um dos contos? Quanto aos museus etnográficos, surgidos em plena época colonial, suas coleções se tornaram suspeitas e incômodas para o espectador contemporâneo. Museus e zoológicos encarnam perfeitamente o paradoxo da cultura ocidental que precisa salvar aquilo que se está destruindo. Os métodos inescrupulosos de aquisição de artefatos foram brilhantemente descritos por Michel Leiris em A África fantasma. Nas últimas décadas, diversos museus têm tentado criar programas paralelos ou intervenções artísticas que ajudem a trazer novas perspectivas para suas coleções. Pacheco toca portanto em questões absolutamente atuais e controversas quando narra os impasses do Museu de História Natural de Nova York em torno de uma coleção de dioramas que representavam cenas da vida de indígenas ou as perturbações geradas pelo crânio do botocudo alcoólatra Kuek nos pensamentos de um especialista no assunto.

Alguns humanos responde à demanda implícita que se coloca hoje para a literatura e para as artes, mas também para a própria antropologia: figurar aquilo que a noção de humanidade negou ou excluiu. Figurá-lo nos momentos em que a humanidade perpetua essa exclusão enquanto acredita estar fazendo algo absolutamente razoável ou natural.

Sabemos que o autor é também antropólogo; então, por que não fazer um ensaio, uma tese? Arrisco responder: porque, apesar de tudo, a literatura ainda oferece uma saída para as questões sem saída. O livro pode ser lido como uma resposta literária à virada animalista da antropologia contemporânea. Não há pretensão teórica na linguagem, mas Alguns humanos não deixa de lidar com questões caras à explosão das fronteiras entre humanidade e animalidade, traumas históricos, impasses museológicos. Diante do desafio de fazer o animal falar, retirando-o da condição de mero objeto, a literatura pode ser um espaço privilegiado para operar esse processo sem o amparo da teoria ou da ciência. Não foi também isso que Guimarães Rosa nos mostrou em Meu tio o Iauaretê?

A literatura tem seus próprios métodos e seus caprichos. Gustavo sabe disso e gosta de encenar o processo de construção antecipando ironicamente possíveis leituras ou críticas a seus contos. Natural que as coisas se passem desse modo em um livro que não pretende criar uma imagem outra da realidade, mas intervir nos processos perceptivos, criando outros modos de perceber o que somos, como vivemos, como as narrativas que construímos sobre nós vivem em equilibro frágil. Alguns humanos tem ainda a vantagem de não se propor a solucionar ou nos redimir de nenhum equívoco. A sua escrita é mais descritiva que propositiva, não porque se conforme com o mundo tal como ele é (ao contrário), mas porque apresenta uma outra maneira de as coisas serem o que são.

Não saberia dizer se Gustavo expandirá suas narrativas em romances ou se permanecerá fiel às formas breves. Em todo caso, o que importa é que o conto foi o gênero escolhido para, neste livro de estreia, tornar visíveis formas de vida assombradas pela barbárie. Na fauna literária, o conto é um animal esquivo como um gato, mas precisa saber saltar como os linces. É fácil deixar romper-se o fio tenso que a narrativa curta exige. Tanto foi dito sobre o poder e desafio dos contos, mas sua força é ainda um mistério. Ali Smith tem um conto sobre o conto que termina com uma pergunta que talvez diga algo sobre este livro:

Então, quando é que um conto é como uma ninfa?
Quando o seu eco lhe responde.

Assim me propus a percorrer Alguns humanos, pelo eco que faz que as linhas dos enredos continuem vibrando depois do fim. Esse é também o segredo da literatura. Não um segredo que precise ser revelado e interpretado, mas um não dito que continua a reverberar. Alguns começos são excelentes (e pândegos), empurram-nos rapidamente para dentro de uma cena muito nítida, mas todos os fins neste livro são importantes. Isso talvez porque esses contos são também histórias sobre o tempo, sobre a rapidez brutal, banal e desconcertante de algumas mortes e as formas lentas, opacas e silenciosamente truculentas do processo que nos tornou humanos.

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