CFA agosto.18 divulgacao

 

Somos seres que sangramos tinta
na folha de papel em branco
Silviano Santiago

 

A despeito de certo aspecto biográfico, a visceralidade com que Caio Fernando Abreu elaborava suas narrativas curtas — periódicas ou organizadas em livros de contos — denota um consciente uso da fragilidade como procedimento de força e de intensidade literária. A presença constante de personagens expondo suas feridas e seus desajustes internos é contraposta à urgência de um mundo por vezes demasiado hostil — o que amplifica a sensação de não-pertencimento e, por consequência, a busca por estratégias compensatórias.

Organizados de forma completa pela Companhia das Letras, os contos de Caio F. agora revelam uma unidade que possibilita à obra não apenas uma inteireza física, mas temática e procedimental. A compilação feita sequencialmente na cronologia das publicações permite observar os mecanismos de evolução da escrita de Caio, bem como os modos de utilizar as questões de seu tempo e o impacto das influências absorvidas de acordo com a época — o que é importante para analisarmos sua literatura. A nova reunião apresenta, inclusive, três contos inéditos que reforçam a leveza angustiada presente em sua obra.

Essas narrativas de prazeres e tremores trazem personagens que não recusam o sorrir, mas se permitem também à solitária imersão melancólica. No posfácio destes Contos completos, Ítalo Moriconi (UERJ) diz que o diálogo em Caio é quase sempre a busca ou a nostalgia de uma intimidade comum entre duas solidões. A intimidade como troca de solidões.

É o que vemos em Ovelhas negras (1995): a pulsão da proximidade que convida ao íntimo — dos desejos, das fantasias, dos medos e das neuras. Angústias reveladas por meio de textos até então inéditos, de relatos de sonho, de fragmentos de diários e cartas que, publicados em meio à ficção, sugerem a diluição das fronteiras entre o inventado e o biográfico.

Se o título insinua se tratarem de textos preteridos ou renegados, é da incompletude ou do que não presta que a voltagem dessas narrativas é tensionada pelo autor. Antes de cada conto, encontramos comentários de Caio F. acerca do material a ser lido em espécie de autoanálise acerca de seus próprios mecanismos de escrita. Não à toa a epígrafe do livro cita Clarice Lispector dizer: Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto do modo carinhoso do inacabado, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.

>> As quatro irmãs (uma antropologia fake): um conto inédito de Caio Fernando Abreu

A escrita de Caio costuma trazer essas solidões desajeitadas em tentativas constantes e frustradas de dar certo, de se encaixar. Narradas pelo olhar de quem se joga ou de quem recusa a entrega, seus convites à sensibilidade sempre se dão em meio a estranhas carícias tortas.

São narrativas que expõem a reclusão da vida moderna e urbana em retratos solitários de seres que transitam à margem — hippies, drogados, prostitutas, andarilhos, homossexuais —, clausura intensificada pelo contexto político repressivo pós-golpe de 1964. Daí o gosto de mofo na boca. Daí os strawberry fields que tentam o doce, mas terminam escorrendo o vermelho nas latas de lixo. A tentativa do doce como sugestão real do amargo, como futura edificação da tristeza. São imagens do vulnerável que flertam com ideias de morte, mas cujas hastes — feito um girassol — sustentam o constante movimento de busca pela luminosidade.

Essa fusão de referências à cultura de massa em meio à dita alta literatura — passando por astrologia, macrobiótica e sustentabilidade — pode ser vista como herança de 1968. É o que explica o professor Nonato Gurgel (UFRRJ) ao dizer que trata-se de um imaginário que elege o desejo como algo produtivo e que contém elementos técnicos e maquínicos; suas formas construídas pelo cinema, pela TV e pela música popular, por exemplo, dialogam diretamente com a tradição literária.

É como poeta do corpo que Caio Fernando faz vigorar as suas cartografias do sentir. Tinge no que é físico as marcas do mundo hostil, no corpo solitário as manchas e os hematomas das relações amorosas. Caio é poeta de um corpo só. Pelo corpo suas qualidades do sentir tomam forma, fazendo da ferida, do gozo, do sangue mecanismos de interpretação e de absorção das secreções do mundo.

Caio é corpo, mesmo quando doente, perdido ou caótico, mesmo sem perspectivas à frente da mancha na ponta do nariz. Girassol caidinho que ainda gira o tronco buscando a luz. Sua fragilidade é arredia, reforça o corpo mesmo quando só está em suas mãos o desfecho narrativo. Caos é forma se Deus pifar.

Caio naturaliza o erótico sem banalizar os amores. As palavras não se tocam tácitas; ao contrário, os toques nesta literatura roçam às claras, em pacto lícito entre pele e página. A intenção parece ser produzir uma mistura de intensidades por fora e por dentro, jogo entre sensações e sentimentos nesta violência açucarada dos afetos.
A leveza dos encontros casuais aparece, por exemplo, em O dia que Júpiter encontrou Saturno, de Morangos mofados (1982). O conto narra simetricamente o breve encontrar-se (durante uma festa) de um homem e uma mulher (discretamente infelizes) que se esbarram e conversam — em meio à confusão de pessoas no apartamento, a copos de plásticos, aos altos decibéis de rock n’roll — acerca dos astros, dos planos para o futuro, dos gostos em comum. Ali Caio narra o momento do apaixonar-se — feito de trocas profundas em tempo escasso (não há perspectiva de permanência). Ambos se questionam: isso foi um encontro ou uma despedida?

Lemos: — Você tem um cigarro? / — Estou tentando parar de fumar. / — Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora. / — Você tem uma coisa nas mãos agora. / — Eu? / — Eu.

Se o excesso de intensidade nos primeiros contatos aponta para uma perspectiva inocente ou juvenil na maneira de encarar o amor, o icônico Pela noite (Triângulo das águas, de 1983) desenvolve de modo mais maduro a consciência do self ante o erótico dos protagonistas Pérsio e Santiago.

Um texto que fala de cu em meio a citações de Beethoven e Barthes, Gal e Gullar. Um texto que abertamente expõe o amor entre dois homens e seus impasses mais íntimos. Lemos: E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo. No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido? (...) Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido?

É preciso perder o pudor. É preciso aceitar a própria fragilidade e escrever nos limites da epiderme que nos dá forma, da má calcificação estrutural que nos sustenta. É preciso ser o sangue, demais o sangue!, mesmo vertente dos nossos lugares mais constrangedores.

Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora — diz Caio F.
Sentir é a palavra de ordem. É agora, nesta contramão (Ana C).

À véspera do lançamento de Os dragões não conhecem o paraíso (25 de março de 1988), Caio diz em crônica que os dragões são como escritores, músicos, pintores, filósofos, ou todas essas pessoas que — loucas — querem sentir num mundo em que é ridículo sentir. Os dragões, ao contrário dos que veem na glória e no poder o paraíso, querem voar. Na nota de autor que abre o livro, Caio avisa se tratar de histórias independentes, girando sempre em torno de um mesmo tema: amor. Amor e sexo, amor e morte, amor e abandono, amor e alegria, amor e memória, amor e medo, amor e loucura.

Se o amor era um exílio (Samuel Beckett), queimar era um prazer (Ray Bradbury).

Caio tinha sol em Virgem, mas entendia bem dos seres de fogo. Não à toa, nestes Contos completos, são quase cem ocorrências dos vocábulos “fogo” e queima/queimar” — signos que indicam, por exemplo, o caráter explosivo destes seres mitológicos. Apesar da inevitável distância imposta pelos dragões, há neles essa impulsividade afoita que aproxima, gruda, funde e carrega gosto catártico dos momentos raros daquele clima de eternidade fluida, possíveis apenas pela intensidade vulcânica de beijos e abraços abrasivos.

Por isso são amados: porque nos momentos de entrega se dão por inteiro. E ter corpo e alma percorridos com tal vigor gera essa necessidade quase violenta de contínua repetição do prato. O acordo entre as voracidades geralmente pressupõe o estancar da fome: a violência de um se oferecendo à violência do outro numa sucessão de noites deliciosamente mal dormidas.

Porém, dragões são apenas a anunciação de si próprios. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. Sempre permanece a sensação de que não foi suficiente, não permitem que o outro se sinta plenamente satisfeito com o gasto de sua voracidade afetiva.

Em ensaio sobre afinidades eletivas, a professora Ana Chiara (UERJ) diz que os textos de Caio estão contaminados de bacilos, de vírus, de secreções, estão molhados das lágrimas e dos terrores dos doentes, solitários, fechados em seus quartos à noite, encarando, metafórica ou literalmente, o rosto (benfazejo?) horrendo da morte, em cuja cara podem — medusados — cuspir também e podem rir também, comandando a teatralização da dor.

É o que vemos no último conto publicado em vida por Caio, Depois de agosto (escrito em 1995 e presente em Ovelhas negras), cujo protagonista encara a possibilidade terminal de sua condição soropositiva. A expressão “tarde demais” que insistentemente se repete após a saída de hospital (apoiado náufrago nos ombros de dois amigos) sugere a fatalidade do diagnóstico. Eis que, então, a possibilidade de uma relação amorosa se apresenta e desnorteia este homem em sua situação de maior fragilidade e, em seu pensamento, impossibilidade. Por que me descobriste no abandono? — questiona.

Entre o quase-amor e o medo-puro, a constatação do vírus, que no início do conto dissolve a luminosidade do personagem, é ressignificada em seu final pela descoberta da doença do outro. Isso reacende a possibilidade antes reprimida para que ambas vulnerabilidades possam se frequentar. Lemos: O outro convidou: — Senta aqui do meu lado./ Ele sentou. O outro perguntou: — Nosso amigo te contou. / — O quê?/ — Que eu também./ Ele não entendia./ — Que eu também - o outro repetiu. (...)/ — Você também – disse, branco./ — Sim – o outro disse sim.

A capa desta edição dos Contos completos apresenta Caio em tons de roxo. Isso nos remete aos dragões que, quando felizes, deixam no ar uma leve coloração púrpura. Púrpura: mesma cor das manchas espalhadas pelo corpo deste homem que retorna à casa da mãe (em Linda, uma história terrível).

Ao final de Depois de agosto, lemos que, perto ou longe, ambos sabem quando é lua cheia e sabem que, quando míngua e some é porque se renova e cresce para se tornar cheia outra vez, nesse misto de melancolia e alegria que marca e continuará marcando o olhar para Caio Fernando Abreu. Parodiando as últimas palavras do conto: porque é assim que é e sempre foi e será, se Deus quiser e os anjos, mais que disserem amém, cantarem:

We only wanted to see you laughing in the purple rain.
Purple rain! Purple rain!

 

* Ramon Ramos é mestre em Literatura (PUC-Rio) e autor de A vulnerabilidade como procedimento

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