Raimundo Carrero dez17

 

A obra de Raimundo Carrero sempre me fez pensar em A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói. Essa novela sobre o corpo, os seus usos, seus fracassos e o seu fim, que nos atraca já no veredito inicial de que “Meus senhores, morreu Ivan Ilitch”. É o corpo do morto no centro da sala, no centro da narrativa, como um imã gigantesco arrastando tudo o que pode. A aproximação com o clássico russo fica mais evidente em Condenados à vida, edição que reúne quatro romances de momentos distintos da sua carreira, mas que formam um só grande livro, um só grande corpo - Maçã agreste (1989), Somos pedras que se consomem (1995), O amor não tem bons sentimentos (2007) e Tangolomango (2013).

Em suas entrevistas, Carrero sempre ressaltou o caráter de unidade que atravessa a vasta produção iniciada por ele no começo da década de 1970 com Bernarda Soledade (1975), ainda escrito sob o signo do armorial. No entanto, essa vasta produção acabou ficando dispersa, com vários títulos fora de catálogo, graças às inúmeras trocas de editoras pelas quais o escritor passou ao longo dos anos. Assim, acabaram caindo no esquecimento obras como Maçã agreste, talvez um dos seus trabalhos mais bem realizados, que até a presente reedição havia se tornado raridade para colecionadores em sebos (nem o próprio Carrero dispunha de mais de um exemplar do romance em sua biblioteca).

A unidade dos livros reunidos em Condenados à vida é destacada por um longo prefácio de José Castello, que realinha e elenca diversos pontos soltos da escrita desse que é um dos nomes mais potentes da literatura brasileira contemporânea. Castello lê Carrero com a propriedade de um leitor antigo, que sabe estar diante de uma produção de trato difícil, cujo fascínio reside justamente em seu jogo constante de atração e repulsa. “A leitura desses quatro grandes romances de Carrero dilacera. Rasga a proteção íntima que costumamos usar para nos defender do mundo. A verdade é: eles nos atordoam”, nos adverte no prefácio.

Munido dessa perspectiva, o jornalista vai ao centro da questão-Carrero, ao eleger o “insuportável” como o tema a costurar seus livros. Em Carrero, pontua Castello, a experiência humana acaba encostando em algo inumano de tão jocoso.

Nos romances, até existe o êxtase (tanto o religioso quanto o sexual), mas ele se perde muito rápido, desaparece no ar, parece não valer a pena quando, enfim, é alcançado. É que estar condenado à vida implica a consciência da finitude do corpo. Mais uma vez penso no terror do personagem de Tolstói. Mais uma vez escuto “Meus senhores, morreu Ivan Ilitch” ao ler Carrero.

“Já nesse romance de 1989, o grande tema é a experiência do insuportável. A literatura, a grande literatura, nos abre vias mágicas, mas também descerra alçapões que nos engolem. É preciso pagar esse preço: nenhuma maravilha é de graça. Poucas páginas à frente, o personagem não suporta encarar as jovens prostitutas que, vendidas a mendigos ou ladrões, rastejam por alguma comida”, escreve Castello sobre Maçã agreste, romance que abre de forma cronológica Condenados à vida (é preciso destacar que Maçã agreste tem por epígrafe uma frase do escritor argentino Ernesto Sábato a nos lembrar de que “fazemos sofrer, gritamos, morremos, morrem uns enquanto outros nascem, para tornar a começar a comédia inútil” – nenhuma outra epígrafe poderia dizer tanto da forma como Carrero vem enxergando o humano e seu corpo findo, ano após ano, livro após livro).

A inútil comédia humana guia o recente Tangolomango, com a sobrevivente Tia Guilhermina, que já assombrava O amor não tem bons sentimentos, apaixonada pelo sobrinho e sujeito de uma tragédia familiar. Tia Guilhermina, com a alma infectada por boleros, pelas letras tristes dos frevos pernambucanos e suas saudades em eterno gerúndio, vaga por um carnaval de corpos suados, corpos à venda, corpos à disposição ou apenas maltratados pelo êxtase, durante um dia que insiste em varar o que sobrou da personagem.

É nesse curto romance que Carrero expõe como nunca sua fixação por domar a linguagem, por colocá-la inteiramente à disposição dos seus personagens. Tangolomango está longe de ser um dos seus livros mais conhecidos. Mas é, com certeza, um dos mais eloquentes para decifrarmos sua literatura.

“Amor de verdade tem cara de humilhação, você sabe, não sabe, Guilhermina dizia, fazendo as unhas ou bebendo um novo gole, fingindo desleixo”, assim descreve o narrador as lembranças que acompanham a personagem pelas ruas atulhadas de gente, durante o que pode ser seu último Carnaval. O “insuportável”, detectado por Castello, esmigalhando qualquer vislumbre de êxtase. É que, para Tia Guilhermina, “hoje é dia de sofrer”, enquanto “instalava-se no bar da calçada na Rua da Aurora, o Brahma Chopp, vizinho ao cinema São Luiz, às margens do Rio Capibaribe com ramagens debruçando-se sobre as águas, copos e garçons bem limpos, ocupava uma mesa na calçada e bebia, bebia cerveja, bebia chope, bebia, comprava fichas para a radiola e fumava (...) ouvia a mesma música até a exaustão. Os olhos marejados de lágrimas, o soluço estrangulado na garganta, recitando eu vivo porque morri? É assim mesmo.”- pontua o narrador, numa das passagens que melhor iluminam o porquê da sentença de condenação à vida dos quatro romances aqui reunidos.

E de um dos títulos de capítulos da odisseia de Tia Guilhermina podemos extrair ainda a melhor descrição para o corpo exposto em Condenados à vida. Trata-se de um corpo “Triste, sujo e belo”.

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