albertocunhamelo credito.assis.lima jun2018

 

Abro ao acaso o calhamaço de mil páginas Poesia completa, do poeta Alberto da Cunha Melo (1942-2007; foto) e deparo-me com meu cotidiano. Ou, ainda, com o sentimento que desfrutei após pagar o imposto de renda: Um cidadão/ paga muitas taxas/ para ser perdoado do erro/ de ser um cidadão./ A água, a luz,/o teto, o tédio e a tétrica/ vontade de morrer./ Deve criar cães / contra o caos/ e colocar a mão na cabeça/ dando a entender que apenas/ quer ajeitar o cabelo./ O cidadão completo/ é um mártir do nada. Talvez sejam esses poemas que partem da concretude das pessoas e das coisas vividas o principal mérito da sua poesia a quem tem a chance de conhecê-lo agora. Não dá conta, entretanto, de sua complexidade. O desfile de forças do poeta não é pequeno e exige fôlego do leitor.

Lançado no fim de 2017, Poesia completa reúne livros publicados em vida, inéditos e dispersos com organização de Cláudia da Cunha Melo, viúva do poeta. O trabalho de Alberto é conhecido da crítica universitária e notório desconhecido do grosso dos leitores de poesia.

As preocupações formais e sociais o aproximam de João Cabral, influência confessada em entrevistas, mas relocada em outras propostas: Alberto é mais bem-humorado e não repete termos – talvez influência da formação jornalística –, criando imagens diversas dentro de um mesmo universo. O centro de seu poema é sempre o humano em relação ao mundo, seja nas questões cotidianas ou nas metafísicas. Entretanto, é no desafio formal que ele cresce: sua obra é marcada pelo verso de oito sílabas, para o qual inventou uma modalidade específica, a retranca (um quarteto, um dístico, um terceto e outro dístico, com rimas alternadas e emparelhadas). Isso não o impediu, no entanto, de fazer incursões no verso livre, tercetos, renkas e outras modalidades.

Neste breve espaço, exemplifico rapidamente essas escolhas a partir do ótimo Yacala (1999), o 12º de Poesia completa. Há o resgate de uma palavra africana para “homem” (yacala), que batiza o protagonista, um físico negro que gasta a vida a estudar uma estrela que absorve o que vê pela frente. Todo erigido em retrancas que, individualmente, lembram sequências fílmicas. Trata-se de um poema com ares épicos e tons dramáticos. Entre passagens do cotidiano há reflexões de cunho existencial:

Quando se acaba a bateria / do walkman, Adriana mata / a náusea a sondar os enigmas / das notações de Yacala; // lê o perfil do pesadelo / sem atinar ser o modelo: // “Alegre, porque distraída / dos inimigos emboscados / nos extremos de cada vida”;// chama o cão e tenta lá fora / respirar seu eterno agora.

A epígrafe é de Cruz e Sousa (Vê como a dor te transcendentaliza), é o guia da leitura e dá margem a certos paralelismos com o protagonista. As figuras negras de Alberto se chocam com a presença da brancura (em seus mais diversos sentidos) em Cruz e Sousa. O poema incorpora a violência contra a pessoa preta, nuance bem menos clara na obra poética do simbolista. Ambos, entretanto, até poderiam ser acusados de tratar de coisas que não são desse mundo. O que não é verdade, pois a estrela que cresce desordenadamente pode implicar tanto um problema de ordem prática (um perigo virtual para o planeta) e metafísica (a existência do indivíduo no universo em choque com o real bruto vivido por Yacala); e vários versos de Cruz e Sousa, em geral lidos como “fugas de um real”, podem ser entendidos como um eu indelevelmente atormentado num mundo racista que o tornou uma pessoa deslocada. No jogo entre esses elementos surge uma crítica social potente. E também uma existencial: por mais beleza que haja nos pequenos momentos em que se descobre muito, a vida nem sempre é uma travessia bonita, ainda que possa ser vista de forma poética.

Com a retranca, Cunha Melo impõe seu ritmo a temas amplamente explorados por seus pares e, de forma ainda discreta, agencia uma postura formal incomum na produção contemporânea. Em diversas entrevistas mostrava sua busca independente e constante de um aporte teórico das nuances de linguagem e poesia, tomando como referência a preocupação cabralina com a forma. Uma forma longe de ser fôrma, construída ao longo de leituras e tentativas, contribuição singular para a poesia brasileira e desfalque importante de antologias heterogêneas como 26 poetas hoje, que lançaram vários autores desconhecidos de diferentes perfis que hoje são figuras conhecidas do público.

RESSALVAS

Poesia completa é estruturado em quatro partes. Começa com o que foi publicado cronologicamente em vida pelo autor, o que soa como decisão lógica, mas que perde apelo: conquistar o leitor com os versos do cotidiano funcionaria como excelente ponto de partida para a engenharia vista noutros livros (Yacala, entre eles), já que o poeta não é conhecido nacionalmente.

As fotos que acompanham os poemas do livro Salmos de Olinda lembram um trabalho escolar ou um guia turístico pouco inspirado. São óbvias e repetitivas. A escolha parece ter se baseado na experiência de Fícus-Benjamin do Parque 13 de maio, feita por Alberto um ano antes de sua morte, na qual partiu de fotos feitas por Assis Lima (em roteiro combinado) para criar os versos. As imagens de Salmos foram um desejo seu realizado postumamente.

Além desses e de outros pontos, é preciso citar o principal: a capa pouco atraente que não chama a atenção do leitor.

É preciso pensar a lógica de publicar um catatau de um excelente autor cuja visibilidade junto ao público e mercado é notoriamente ínfima. As justificativas apresentadas na abertura soam insuficientes. Como atrair um leitor para uma obra com um volume de tamanho intimidador e pouco prático, de difícil manuseio – a começar pelo sumário disposto de forma entulhada? Talvez um exemplo possível para a reedição das obras seja o que a Companhia das Letras fez com Drummond, lançando livros separadamente, com curtos posfácios que explicam sua história, importância e potências. Ora, se até Drummond, poeta amplamente difundido, mereceu livros com textos explicativos, que dirá um menos visível? Outra possibilidade seria começar com uma antologia, convite mais interessante a quem lê Alberto pela primeira vez.

Apesar das ressalvas citadas, é preciso dizer aos que desejam entrar em contato com produções menos visíveis e que demandam bom tempo de imersão: o calhamaço vale a aposta.

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