Ben Lerner resenha

 

 

O protagonista de 10:04 (Rocco) é um poeta e se chama Ben, assim como o autor da obra, Ben Lerner. Um sujeito que descobre uma doença rara em si e tem ao redor uma Nova York à beira do colapso natural. Para completar, um impulso de vida: a melhor amiga, desempregada, deseja ter um filho com ele via inseminação. Mas vários espermatozóides são ineficientes. Outro impulso de vida: ele recebe um adiantamento financeiro para escrever um romance. Porém, nele, há a certeza de que não fará sucesso. Em meio a vários elementos e referências, Lerner constrói com competência uma rede de ideias a respeito da arte, da poesia, do mercado editorial e do tempo presente.

Lerner brinca com o lugar do escritor e com seus próprios escritos: retoma tanto o procedimento narrativo já visto em seu primeiro romance, Estação Atocha (Rádio Londres), quanto elementos da própria história deste livro, como se o protagonista o tivesse escrito. Galerias de imagens e referências em um procedimento que lembra mais uma exposição de arte contemporânea que une tanto as fotos (e legendas) dispersas pela obra, quanto as próprias referências citadas textualmente.

O título do livro ora lançado pela Rocco remete à videoarte de Christian Marclay, The clock, que tem 24h de duração e justapõe imagens de filmes e séries nas quais apareçam ou se falem dos horários em que, de fato, a obra está sendo transmitida. Por exemplo: se são, neste nosso real, 10h04 da matina, na tela aparecerá uma passagem na qual surge o relógio com essa mesma hora ou algum personagem falando do horário. No minuto seguinte, a mesma coisa, só que com outras imagens. Mas são 10h04 da matina ou da noite? A impossibilidade de acessar o trabalho de Marclay para estabelecer relações leva o leitor de volta à epígrafe da obra, que diz Tudo será como agora, só que um pouco diferente. À noite e sob o risco de um colapso cardíaco (mesmo que a doença esteja sob controle), a cidade e o homem podem ter sumido. Alguma coisa, entretanto, sempre permanece.

A epígrafe também parece flertar com a frase de Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, mas isso às vezes no mesmo dia. A lembrança de Marx se insinua por meio das críticas sociais que o autor costura na trama.

É um romance que funciona como uma crítica de arte feita no âmbito da arte, em que os limites entre o poeta Ben Lerner e o poeta Ben (personagem) são difusos. Porém, essa “confusão” não importa. Salta aos olhos o fato de o livro ser, como dito logo no início pelo protagonista, uma progressão da “ironia à sinceridade em uma cidade submersa”. A ironia é um tipo de sinceridade, mas numa forma que mitiga redundância. Apesar de centrada num “eu”, Lerner busca (e consegue, de certa forma) criar nas entrelinhas um “nós” que tenta dar voz aos colapsos do nosso mundo. A forma de não fracassar nesse intento é deixá-lo bem claro – e isso vem na última parte do livro, quando Ben se dirige ao leitor. O protagonista deseja ser um bardo à maneira de Whitman, mas sabe que não conseguirá. Ao menos na poesia. Resta tentar isso no romance.

Para progredir da ironia à sinceridade, Lerner usa a forma do romance associada a elementos da sua própria vida para pensar o olhar de um poeta sobre um mundo inseguro que pode ser visto de forma mais confiável no difícil e paradoxal espaço que liga e separa a arte do real.

 

* Igor Gomes é editor-assistente do Suplemento Pernambuco.

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