MFMOLDER fev18 resenha 

 

Na apresentação de Cerimónias, a filósofa portuguesa Maria Filomena Molder enumera palavras que serão “seguidas”, pela sua escrita, ao longo dos ensaios por vir; algumas delas: vida, morte, símbolo, amigo, dor, promessa, escrita, sangue, trama, sacrifício. A compilação de textos, lançada pela Chão da Feira, apresenta ótima oportunidade para os leitores brasileiros conhecerem, com mais atenção, a obra de Molder cuja temática abrange arte, cinema, literatura. O livro é misto de teoria e criação literária. Deixa-se a leitura com a sensação de que o conhecimento flui como o rio ideal, sem altos e baixos, sem descompassos. A filosofia e clássicos autores como Friedrich Nietzsche e Emmanuel Kant aparecem como uma espécie de suspiro, sopro de ar em meio a ensaios que mais parecem uma outra coisa, um outro texto ainda por entrar em definição.

Cerimónias abre sob o título a diferença entre assistir à morte e exercitar-se na morte, texto dedicado ao tema da perda a partir do ponto de vista de Montaigne. Após a despedida de seu amigo Étienne de la Boétie, o filósofo passa a vivenciar o cotidiano de uma nova e angustiada maneira, modo que influencia a escrita de seus famosos Ensaios. Molder analisa o comportamento e a escrita de Montaigne por meio da chave do cair em si, o instante em que nos damos conta da solidão e da constante iminência de nosso fim.

De acordo com a ensaísta, Montaigne não fala da morte com o intuito de ensinar, mas, sim, de contar, de encontrar uma forma comunicativa para o confronto que a própria vida impõe.

Escreve a filósofa: “Há um momento em nossa vida – que só formalmente podemos antecipar –, em que caímos em nós, em que nos descobrimos como nós próprios, surpreendemos e somos surpreendidos pelo ser si próprio, surpreendemos a solidão e antecipamos a morte solitária. Cair em si pode ocorrer no momento em que se vê a morte aproximar-se de alguém, a morte de outrém e não a nossa: vemos a morte sobre o rosto de alguém que amamos e a visão da nossa própria morte irrompe inextinguivelmente”. O instante do óbito não é, por exatidão, acompanhado de medo ou angústia. O que Molder coloca é a possibilidade de encontrar-se com a existência, de forma crua, através do rompimento da vida de outro.

De certo modo, o cair em si é a percepção de que o outro também sou eu e de que a vivência deve seguir o rumo. Como Wittgenstein afirma, não se deve temer a morte, a miséria diante do fim dos nossos é um atrapalho no fluxo da vida. Na mesma chave temática, Cerimónias termina com o breve ensaio intitulado vivo, moribundo, morto, no qual o mote é o livro A morte sem mestre, do poeta português Herberto Helder. Escrito em 2014, um ano antes da partida de Helder, o texto é um encontro do fluxo de consciência do poeta e da filósofa. Vários versos aparecem entre aspas, dialogando com as palavras de Molder. Nesse ensaio, a vida está em relação direta com a poesia e a figura do poeta. O que permanece diante da morte é a linguagem e os “que sobreviveram à língua morta”.

Em ambos os textos, a ensaísta toma o ato de narrar e as criações literárias como motor de continuação dos que ficam. Permanecer em vida é contar alguma coisa, construir um tipo de legado da palavra. Mas, também, do sangue – tema do ensaio que dá título ao livro. Os versos da artista plástica portuguesa Ana Hatherly são a epígrafe de Cerimónias: O sangue é um acordo vivo/ que nos ata. A filósofa repensa a ideia do sacrifício, no contemporâneo, e defende que existe um tipo de empobrecimento dessa compreensão e do que se entende como culpa e vergonha. O sistema de superprodução capitalista, rodeado pelo que Molder chama de “impulso religioso” e “impulso metafísico”, trouxe outros significados para a relação entre o corpo e a arte.

A lembrança de Cassandra – personagem da mitologia grega, filha do rei Príamo e da rainha Hécuba de Troia –, considerada como louca após a maldição de Apolo, aparece também como possibilidade de abordar a morte e a solidão. A descrença em Cassandra, por parte de sua família e do povo grego, a leva à posição de “morta que ninguém há de chorar”, como escreve a filósofa. Ao trazer à tona uma personagem tida como secundária, na história da tragédia, para ilustrar a ideia de sacrifício, guerra e sangue, Molder não só remodela uma ideia de pensamento – menos misógino, por exemplo. Também existe certa preocupação voltada para um guia filosófico pouco atado às tradições no que diz respeito aos grandes tópicos da humanidade (morte, amor, opressão).

Todos os textos de Cerimónias, por certo ângulo, seguem essa inquietude com as leituras dispostas nos estudos da filosofia ocidental. O que faz sentido, afinal, o livro também demonstra forte processo criativo, algo de ficção atravessa os tão importantes nomes masculinos da cultura do conhecimento. Em várias de suas entrevistas recentes a veículos portugueses, Maria Filomena Molder fala sobre o prazer e a vocação para a dança como marco de sua juventude. De certo modo, a relação da teórica portuguesa com a filosofia passa também por essa conexão lúdica com o corpo, por uma coreografia tão sua e, exatamente por isso, de uma beleza catalisadora.

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