george saunders dez17

 

 

Olhe este homem. Está dividido. Vem abrir o túmulo e abraçar o filho que já morreu. Ele vem várias vezes. Olhe este homem. Está dividido. O seu país está em guerra civil. Olhe este homem. Os jornais o censuram porque ele realizava uma grande festa quando o filho adoeceu. Algumas pessoas o descrevem como tendo os olhos castanhos, outros citam os olhos verdes, alguns dizem que é um homem bonito, outros observam que não há ninguém mais feio e desajeitado. Havia lua naquela noite? Os homens estão divididos quanto ao homem que está dividido. Esse homem é o presidente dos Estados Unidos. O homem que escreve esse livro é George Saunders, e ele dá voz a outros homens, mulheres e crianças.

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Saunders usa citações de jornais e livros da época para compor o seu livro. Ele dá nova vida a esses recortes tirando-os do seu lugar de origem. Mas também usa diálogos que lembram citações, criando uma espécie de contraponto fantástico com um coro de fantasmas que está preso (Bardo é uma espécie de limbo no Livro tibetano dos mortos) no cemitério onde o corpo de Willie Lincoln está.

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Como disse Eugene O’Neill há muito, muito tempo: É como se eu me tivesse afogado. Como se eu fosse um fantasma surgido da bruma, e o nevoeiro o fantasma do mar. Era uma tal sensação de paz: não ser mais do que um fantasma dentro de outro fantasma. Esse é o leitor de Saunders, esse é o leitor de Lincoln in the bardo.

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Olhem o homem, parece um fantasma. Perdeu a alma. Almas perdidas comentam a sua perda. Os mortos contam as suas histórias: “Ali estava eu, na minha caixa de doente, sentindo-me um idiota, na sala de estar, a mesma sala por onde há pouco tinha passado (exultante, com ar culpado, a mão dela na minha) a caminho do quarto dela. Depois o médico voltou, e os assistentes dele transportaram a minha caixa de doente para a sua carreta de doentes, e percebi que... percebi que o nosso plano tinha de ser indefinidamente adiado.” Cada um fala do seu jeito, narra sua história única, sua linguagem é a sua alma.

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É um livro estranho esse, pensa o homem que escreve esse texto. Ele leu Enclausurado, de Ian McEwan, e de alguma forma esses livros estão juntos na mesma prateleira da estranheza, da coragem também, mas da estranheza. É uma vida estranha, pensa o homem que escreveu esse livro. Vinte anos assombrado pela imagem de Abraham Lincoln indo visitar o corpo do filho. Uma obsessão. Dar voz aos mortos, aos vivos, aos escravos, aos ricos, dar voz a quem ama e a quem odeia. Dar voz aos que estão em silêncio, aos que querem permanecer em silêncio.

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Saunders cria fantasmas presos ao cemitério. Ainda não aceitaram a morte, nem mesmo entendem que estão mortos. Através dos seus monólogos, temos pistas de como foram as suas vidas e as suas mortes. Saunders recria os fantasmas da América: guerra civil, escravidão, violência contra os mais pobres.

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Saunders, como Sebald, mas de uma maneira bem diferente, escreve como um fantasma.

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Os fantasmas do cemitério usam o seu espírito para animar o homem dividido. É preciso deixar o filho partir, eles dizem.

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Uma espécie de caixa de doente foi considerada... foi considerada como sendo...
hans vollman

Eficaz.
roger bevins iii

Eficaz, sim. Obrigado, meu amigo.
hans vollman

Essas são as vozes de alguns dos fantasmas. O fantasma do menino morto também tem voz. Os outros fantasmas convencem o menino a aceitar o seu destino e deixar o Bardo. Os fantasmas vivem completando a frase dos outros fantasmas, como se fizessem parte de algo maior ou já se conhecessem há muito tempo. O trio de atores principais é composto por um jovem homossexual que se matou ao ser rejeitado por seu amante, um reverendo e um homem morto em um acidente antes que pudesse consumar seu casamento. Homens que não aceitam a própria morte e usam eufemismos para a sua situação. Ao se referirem aos caixões, por exemplo, usam sempre a palavra caixa de doente. Mas são esses fantasmas de homens doentes que vão influenciar o presidente a abolir a escravidão. É como se eles estivessem sempre nos dizendo: chega de sofrimento.

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Saunders faz dos escritórios e das famílias de classe média dos seus contos um lugar frequentado por espíritos. Somos todos fantasmas que se recusam a chamar as coisas pelo nome. Somos vozes fantasmas. Olhem para esses homens divididos que somos nós.

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