Olivia Laing nov17

 

 

 

De acordo com Walter Benjamin, a cidade moderna detém dois guardiões: a prostituta e o flâneur. Nesse contexto, a figura feminina aparece – mais uma vez – ligada ao desejo, sexo, corpo em delito. Para o homem, resta toda a urbanidade, os passeios públicos e os espaços coletivos onde os seus afetos tornam-se ilimitados. Para o homem, existe a chance de caminhar sem receios, de modificar a paisagem da maneira que lhe convém. O denominador comum entre essas duas representações benjaminianas é a cláusula da solidão. Estar na cidade moderna implica em algum tipo de isolamento, denota ambiguidades no sujeito, ímpetos de sumiço e ganas em querer ser visto.

Em A cidade solitária, lançamento da Editora Rocco (selo Anfiteatro), a jornalista e pesquisadora britânica Olivia Laing aborda essa espécie de movimento dos barcos que conduz o processo da solidão nas metrópoles, em especial, na cidade de Nova York. Laing questiona, ao longo de suas análises, a representação masculina e feminina diante do espaço urbano e do sentir-se solitário. O livro, composto por uma estrutura narrativa que engloba diário, ensaio e crítica tem, a princípio, os seguintes “personagens” centrais: Edward Hopper, Andy Warhol, Henry Darger e David Wojnarowicz. Porém, o que a escritora monta, por meio dos grandes nomes das artes visuais, é um mosaico de mulheres caminhantes e silenciadas durante décadas – pelos seus companheiros, pela sociedade ou, simplesmente, pela solidão.

Enquanto descreve alguns episódios biográficos dos artistas, Laing introduz as figuras femininas e, ato contínuo, introduz-se. Greta Garbo, Valerie Solanas (autora do manifesto SCUM Manifesto) e Josephine Nivison aparecem como pontos de curva nos capítulos dedicados às produções masculinas. Dessa forma, a imagem do homem solitário que vaga pelas ruas brilhantes na noite de Manhattan transforma-se em registro obtuso. Outras perspectivas devem ser possíveis na paisagem urbana, sempre exaltada por historiadores e teóricos como dinâmica, cheia de variações e aberta à diversidade de vozes.

No início do texto, a britânica investiga a obra de Edward Hopper, um dos símbolos visuais de como a solidão foi representada no território norte-americano. Para além das observações da autora acerca de pinturas famosas como Nighthaws, o leitor pode surpreender-se ao descobrir que Hopper batia em sua mulher, Josephine Nivison, também pintora. Laing não adota uma postura de deboche em relação ao machismo de Hopper, mas, sim, o expõe ao lado de seus sucessos e das teorizações sobre isolamento, falta de comunicação. “A solidão parece uma experiência tão vergonhosa, tão contrária à vida que se espera que levemos, que se torna cada vez mais inadmissível, um estado-tabu cuja confissão parece destinada a levar os outros a se virar e fugir”, escreve.

Fã declarada da obra de David Wojnarowicz, Laing dedica um bonito capítulo ao fotógrafo, escritor e ativista gay. Uma das obras mais comentadas em A cidade solitária é a série de imagens na qual Wojnarowicz posa, em diversos espaços nova-iorquinos, usando máscara do poeta francês Arthur Rimbaud. As fotografias foram tiradas no final dos anos 1970 e fazem parte do imaginário coletivo da resistência, ao passo que também são documentos pessoais do artista. Durante a sua infância, Wojnarowicz sofreu diversos tipos de violência, em casa e na rua. Quando justapõe o tempo – a partir do rosto que simboliza um recorte histórico-cultural clássico – ao corpo rejeitado pelos mecanismos de poder da época, o fotógrafo apropria-se da cidade como espaço construtor de identidade.

De certa maneira, A cidade solitária trata do aspecto de formação da personalidade e da teimosia diante do normativo. Laing utiliza a tríade: espaço, arte, solidão para repensar como o artista (ou, o sujeito moderno) pode incorporar a sua existência aos arredores, tanto abstratos quanto concretos. O entorno, muitas vezes, está carregado de hostilidade e, claro, de solidão. É nesse momento que surge o ato de caminhar e a indispensabilidade da comunicação. “Se a solidão deve ser definida como um desejo de intimidade, então incluída nisso está a necessidade de se expressar e ser ouvido, de compartilhar pensamentos, experiências e sentimentos”, afirma a escritora.

Em Theorie de la démarche, publicado no século XIX, Honoré de Balzac atesta o caminhar como muito importante para os sistemas de filosofia, psicologia e política, porém, até aquele momento, fora do radar de atenção dos homens. Pensar o livro de Olivia Laing por esse viés traz à tona as mudanças, ao longo dos séculos, do que é e do que significa, em termos teóricos, o flâneur. Diferente dos anos de Balzac, hoje o caminhar faz parte de um vasto campo de estudo que envolve limiares sociais, políticos e criativos. A figura do artista à deriva é corriqueira em qualquer produção – literária, visual, cinematográfica – pretensamente moderna. O que ascende no texto de A cidade solitária é a possibilidade não só de humanizar as representações do caminhante, como de entregá-las, enfim, às mulheres. Está permitido cruzar a metrópole apesar de tantas dores, da misoginia e além: apesar de todo o poder destrutivo conservador que circunda estes tempos, nossos territórios.

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