Davis Lucia Berlin 1200

 

Em 2015, dois livros de contos escritos por mulheres ganharam a atenção da imprensa internacional, que ergueu uma espécie de feud (conflito) entre eles, uma competição medindo seus pontos de colisão, suas grandezas e a força das biografias nada convencionais das suas autoras: Clarice Lispector (1920-1977) com Todos os contos e Lucia Berlin (1936-2004) com Manual da faxineira. A comparação não é surpresa, se pensarmos que existem lugares bem-demarcados (e pouquíssimos) para certas personalidades na mesa de jantar do mercado editorial: apenas uma mulher estranha, apenas um latino pós-Boom, apenas um refugiado com referências pop e por aí vai.

Para além do fato de serem mulheres e da escolha por narrativas curtas, não há grandes paralelos a serem traçados entre Clarice e americana Berlin, que só após a morte teve a potência do seu talento reconhecido. São outras dores, são outras violências relatadas.

Manual da faxineira (Companhia das Letras) é uma longa coleção de contos que abarca toda a sua carreira e que merece lugar de destaque no cânone dos narradores que espinafraram e repensaram a América, tal e qual 28 contos escolhidos de John Cheever. Livros sobre desconfortos, sobre fracassos. Só é possível pensar o sonho americano a partir do pesadelo.

Lucia Berlin é uma autora dinâmica, que nos assusta não apenas pela rapidez da sua escrita, mas também pelos cenários nos quais elas se desenrolam. Em Lavanderia Angel’s, uma mulher acaba conhecendo a decadência do próprio corpo a partir do olhar obsessivo de um velho índio que sempre encontra numa lavanderia do subúrbio: “Por fim ele acabou me fazendo olhar para as minhas mãos. Eu o vi quase sorrir porque tinha me flagrado olhando para as minhas mãos. Pela primeira vez, nossos olhos se encontraram no espelho, logo abaixo de NÃO SOBRECARREGAR AS MÁQUINAS”.

Em Dr. H. A. Moyniham, a neta lembra o avô, exímio dentista, que, em um esforço de criar um novo elo para a delicada relação dos dois, pede que ela arranque todos os seus dentes. A extração em série é descrita com todos os seus pormenores - “Os primeiros três dentes saíram fácil. Ele os entregou para mim e eu joguei dentro do barril perto da parede. Os incisivos foram mais difíceis, um particular. Vovô engasgou e parou, a raiz do dente ainda presa na gengiva”. Sim, há líquidos, odores e hematomas em tudo o que a autora escreve. É importante passar para o leitor um mundo expandido, em todos as suas menores sensações. Nada é desperdiçado. “O biscoito se expandiu na minha boca como flores japonesas”, diz um dos contos - uma bela sacada de influência proustiana.

Muito se fala da questão autobiográfica a marcar os escritos de Berlin. No entanto, as referências não aparecem de forma óbvia ou cronológica. A autora lança os fragmentos da sua vida por suas histórias e muitas vezes essas mesmas histórias reaparecem aqui e ali, com a diferença do ângulo em que o narrador decide contá-la. É que há muitas coisas acontecendo no universo de Lucia Berlin. Tantas, que é preciso “voltar” e contar tudo de novo. É como narra em um dos contos: “Claro que eu tenho uma identidade aqui, e uma nova família, novos gatos, novas piadas. Mas fico tentando me lembrar de quem eu era em inglês”. “Lembrar quem eu era” – é justamente isso o que Berlin parece fazer na maioria das histórias.

O prazer de Manual da faxineira não termina com a leitura de todos os contos presentes nesse volume. Permanece pelo posfácio de Lydia Davis, que faz uma contundente apresentação crítica da autora. Davis foi a responsável por reunir os textos da edição recém-chegada ao Brasil, um trabalho que, segundo ela, “foi motivo de inúmeras alegrias”. “Não consigo imaginar ninguém que não fosse querer ler Lucia Berlin”, afirma Davis. E com razão.

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