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No exercício crítico de pensar o novo romance de Ricardo Lísias, A vista particular (Companhia das Letras), decidi por um caminho que dialoga com sua ética/estrutura. Colhi 10 fragmentos da própria obra, de matérias de jornais/revistas e outras fontes, que são dispostos a seguir sem que sua autoria seja revelada. E mais importante: sem que a concretude dos fatos relatados seja colocada em questão. Não há aqui preocupação em comprovar o RG do que é “real”. É que a potencialidade do livro vem justamente da sua capacidade de articular e de subjetivar o Brasil em 2016 e de tensionar o que tomamos por ficção, o que tomamos por vida real e o insólito que aceitamos como resultado dessa relação tumultuada e diária.

O romance dilata o vaivém “voyeurístico” entre favela e classe média, entre o que entendemos por centro/por margem e como esse movimento pode ser kamikaze para ambas (e objetificadas) partes. Não irei, no entanto, citar mais detalhes da sua trama. A vista particular é justamente sobre a única história que talvez mereça ser contada: essa desse ano, desse mês, desse agora.

Ao final dos fragmentos, há um breve depoimento do autor.


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1 – “Um trabalho me chamou a atenção, pela disparidade: um filme no qual pescadores do litoral de Alagoas abraçam e acariciam até a morte os peixes agonizantes que eles acabaram de pescar. 'O peixe' foi realizado pelo alagoano Jonathas de Andrade especialmente para a 32ª Bienal. Mais de um crítico exaltava a ternura e a solidariedade que o filme transmitia – sentimentos hoje tão em falta, segundo um deles. Fiquei perplexo. Se eu atasse os pés do crítico a uma pedra debaixo d'água e o abraçasse e acariciasse até ele morrer afogado, ainda poderia falar de ternura e solidariedade? ”

2 - “No geral, a recepção de primeira hora da exposição Comunidade brava: turismo Brasil também foi muito boa. Os textos iniciais ressaltavam o inusitado da situação, o olhar atento do artista, que soube captar a singularidade do espaço, a transformação de uma arquitetura triste em um lugar de convivência cheio de possibilidades e o recorte fértil da realidade em algum tipo de encantamento coletivo. Nada disso, evidentemente, combina com o título da exposição e muito menos com o que o artista planejou, mas esses primeiros olhares o deixaram satisfeito”.

3 - “(Depoimento colhido de perfil do Facebook de professora de literatura de universidade pública do Rio) 'O RJTV acaba de exibir um corpo de um homem negro, provavelmente morto, rolando a pedra do Pavão. Assim, sem nenhum aviso, sem nenhuma tarja'”.

4 - “A exposição Comunidade brava: turismo Brasil  trouxe algo de novo para a cidade do Rio de Janeiro. As artes plásticas não são minha praia, continuou um dos jornalistas mais lidos do Brasil, Merval Pereira. Não vou entrar no mérito das obras expostas. Estive duas vezes no Pavão-Pavãozinho e gostei do que vi. E, mais ainda, do que não vi. Além dos que estavam expostos, nenhum traficante desfilava com as armas à visa, a violência parecia abolida daquele ambiente e as drogas viravam coisa de museu. Mesmo assim, não poderia deixar de perguntar: para onde vai a venda dos ingressos?”.

5 – “O trabalho que foi apresentado na Galeria Anita Schwartz no Rio, é composto por dois globos de aço rodeados por estantes que abrigavam mais de 1500 objetos. No planejamento inicial, dois motoqueiros girariam dentro dos globos, fazendo com que os apetrechos despencassem, espatifando-se no chão. No entanto, a performance não ocorreu como previsto, já que um dos motoqueiros se machucou durante a ação e apenas alguns objetos foram derrubados. Assim como aponta a temática da 32ª Bienal de São Paulo – Incerteza viva – a imprevisibilidade é parte importante da vida e, portanto, do fazer artístico”.

6 – Títulos de algumas das obras da exposição Comunidade brava: turismo Brasil que já foi exposta em Inhotim e na Bienal de Veneza:

Família com um filho no tráfico e outro na escola – seres humanos – coleção pública, 2016; Viveiro de Aedes aegypti – larvas de mosquito – coleção pública, 2016; Impossível entender como não cai – alvenaria – coleção pública, 2016; Mãe se matou depois que a polícia assassinou seu filho (moravam aqui) – alvenaria – coleção pública, 2016

7 - “Mesmo a Bienal de São Paulo, a mais tradicional do mundo depois da de Veneza, desagradou Bia Doria. 'Não gostei de nada lá. A gente está fazendo campanha para não ter pneu em casa por causa dos pernilongos, e os caras vão lá e põem pneu', diz sobre a obra da portuguesa Carla Filipe, que criou uma horta com rodas de trator”.

8 - “Para não fazer nada ilegal, o traficante colocou o aviso de que havia três câmeras instaladas na laje e que todos estavam sendo filmados. Ele próprio resolveu se instalar na sala de edição. Isso de ter uma visão mais geral do morro é importante”.

9 - “O comandante da UPP (Unidade Polícia Pacificadora) Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, capitão Vinícius Apolinário, foi baleado durante um confronto. De acordo com a PM, ele foi ferido por estilhaços e levado para o Hospital Central da Polícia Militar, onde foi medicado e liberado em seguida. Moradores de Copacabana gravavam vídeos durante o tiroteio. Eles diziam que era possível registrar traficantes armados fugindo”.

10 - “Uma labareda começou a queimar a obra Igreja evangélica com dízimo, mas os seguranças do museu conseguiram controlar o fogo. A mãe da criança assassinada desmaiou, já perdida no meio da multidão. O corpo do Menino Negro está sendo erguido e levado daqui para ali em procissão. Uma jornalista de TV japonesa com o rosto cheio de lágrimas não esconde mais na tela o que pensa: esse Brasil é triste pra caralho”.


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“Não tenho muita certeza de que a palavra 'real' continue sendo útil. Se for, talvez seja para medir justamente a distância que estamos do que ela significa. Eu noto com muita clareza que os leitores (falo de maneira geral, não apenas dos que leram meus livros) têm um grande gosto por essa palavra e por tudo que ela pode significar. Parece uma espécie de fetiche contemporâneo: o que haveria de real nesse livro, naquele filme ou em qualquer outra coisa?

No entanto, aqui vai o meu espanto, e talvez a resposta para a sua pergunta: será que tal insistência não denuncie justamente o quanto já estamos afastados desse possível 'real'? Vou tentar esclarecer com alguns exemplos concretos, que vão do absurdo ao nosso triste cotidiano. Algumas personagens de uma criação minha, após denúncias anônimas, foram investigadas pelo poder judiciário brasileiro, que não notou que estava lidando com uma obra de ficção e me acusou de falsificar documentos... Qual a distância disso para esse 'real'? Acho que quilométrica.

Há ainda muitos outros exemplos. Sabemos qual é mais ou menos a identidade do público consumidor de literatura brasileira contemporânea – aliás que deve ser, com algum ajuste, o mesmo dos outros gêneros artísticos. Durante as últimas eleições para prefeito de São Paulo, esse público em massa fez grande campanha pela reeleição do prefeito Fernando Haddad e mesmo diante da catástrofe na frente, acreditou que havia alguma chance de que ele ao menos fosse para o segundo turno! Eu ficava espantado: não estão vendo que ele não tem nenhuma chance! Há bastante tempo o resultado das eleições estava claro, mas as pessoas perderam de fato o contato com a realidade.

Esse é um dos pontos fundamentais, me parece: já perdemos o contato com esse 'real'. É uma patologia, por certo…

Para além disso, as artes sempre tiveram bastante relação com o que se chama de 'real'. Esse sempre foi um debate bastante profícuo no ambiente das artes plásticas. Então me pareceu adequado para a situação narrativa que eu queria criar. Sem falar que nas artes plásticas a questão financeira é decisiva. Os artistas que acabam sendo canonizados também geram muito dinheiro, e o livro me parece falar muito dessas novas formas contemporâneas de especulação. São espelhos, espectros e especulações...”

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