Guilherme Pupo/Divulgação

 

Luiz Rufato tem razão, o romance Na escuridão, amanhã, de Rogério Pereira, publicado pela Cosac Naify, é um dos melhores livros da literatura brasileira deste e de outros tempos. Escrito com elegância e equilíbrio, num tom coloquial adequado e preciso — sem apelo emocional —, revela um escritor dono do seu ofício em capítulos — seriam mesmo capítulos? — curtos, uma façanha, sobretudo, tratando-se de uma estreia, quando, em geral, autores se mostram inseguros, reticentes, indecisos.

 

É certo, portanto, que o leitor sairá deste livro com uma espécie de lembrança dolorosa, mas saudável. O que deve ser muito comum em toda obra de arte que mereça este nome, porque se revela plenamente realizada. Até porque o trabalho artístico atinge tal nível de sublimação quando encanta e atormenta. Assim, a missão da obra estará completa — e definida — nos planos artístico, literário e estético.

 

Além da linguagem harmônica, plena de sentido e de força, os personagens se mostram equilibrados, integrados ao tom geral da narrativa sombria, sombria e não assombrosa, antes disto: sóbria, a partir do título do romance, o que se observa em autores como Rulfo e Conrad, ambos tratando de assuntos assombrosos — sem que se esteja colocando os três autores no mesmo patamar, o que não seria de todo um exagero. Embora estreante em prosa de ficção, Rogério Pereira coloca o leitor em xeque e cumpre a missão dos verdadeiros escritores. Mais amplamente — dos verdadeiros artistas.

 

Assim, no mesmo plano da criação do texto, surgem os personagens: o narrador e a Mãe — os dois mais convincentemente realizados —, além daquele outros apenas citados ou lembrados, já que se trata de um romance onde a memória exerce papel fundamental e decisivo. Por isso insisto tanto no caráter harmônico da obra, harmônico e assombroso, até mesmo na distribuição dos episódios.

 

Basta lembrar este texto com um fato aparentemente comum mas transformado pela linguagem, pelo tom e pelo ritmo: “Por que você a chamava de louca, pai? Era muita tristeza para a mãe. Colocava fogo dentro dela.Transformava-a em fera, em besta crepuscular. Em você latejavam ironia e maldade. Ela não fazia nada. Apenas existia para nos proteger, para nos amar naquele jeito dela. Não era louca. Era outras coisas, mas você insistia em cutucá-la, em despertar a besta que a habitava.”

 

Outra qualidade notável do livro é a montagem — a montagem de um romance é um dos segredos da narrativa. Montagem que mantém, alivia ou inquieta, o tempo psicológico do leitor, mesmo quando feita de modo espontâneo, mas eficiente na sua realização.

 

Em linhas rápidas, são estas, parecem-me, as principais qualidades do romance de Rogério, qualidades, aliás, que desafiam qualquer criador em qualquer campo de atividade artística — artes plásticas, cinema, literatura ou arquitetura. Sem dúvida.

 

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