A história do poeta que adiou por meio século o seu livro

Um poeta habita o Palácio do Campo das Prince-sas. Sob o mesmo teto onde são tomadas as deci-sões a respeito do rumo do estado de Pernambuco, um senhor de 71 anos, cabelos brancos e óculos de hippie se enfurna em seu silêncio cada vez mais apreensivo com a proximidade do dia 29 de outubro. Três semanas antes, numa sala que fica no térreo da sede do Governo estadual, o secretário chefe da assessoria especial do governador Eduardo Campos, Garibaldi Otávio, já começava a sentir os efeitos de, finalmente, lançar um livro e ganhar espaço na prateleira dos poetas pernambucanos.

Apesar da experiência de mais de 40 anos como jornalista, ele confessa não se sentir à vontade do outro lado, como entrevistado. “Sou muito tímido. Dar esta entrevista já me deixa um pouco agoniado, aí daqui a pouco vou ter que falar para a televisão, ficar sentado lá assinando o livro. É algo que não estou acostumado, embora minha experiência de jornalista me deixe tranquilo”, admite. Talvez para evitar esses rituais literários, o lançamento de O girassol tenha sido adiado por mais de meio século.

Mesmo com o endosso e o incentivo em forma de elogios de nomes como Gilberto Freyre, Renato Carneiro Campos e Mauro Mota, boa parte dos poemas reunidos no livro, publicado pela Cepe, ficou esquecido em gavetas e pastas espalhadas entre os amigos. Na distante década de 1950, Mota já atestava a qualidade do garoto que começava a frequentar os círculos boêmios e intelectuais do bar Savoy. “O menino recua como um carneiro manso só de aparência. Parece que vai embora com medo, mas quando volta, é com vontade de botar abaixo o que achar pela frente”, escrevia Mota, no artigo Engenho e arte.

Questões de idade

O elogio não foi ignorado pelo jovem. “Para um menino de 16 anos, isso foi um deslumbre. Ima-gina ser elogiado por um cara como Mauro Mota. Nessa idade, a gente ficava entusiasmado, sentia que devia prosseguir”, recorda. O rapaz passou a pensar no projeto do livro, definiu a capa com uma tela da pintora Tereza Costa Rêgo e chegou a ter o poema Réquiem para infância publicado no Jornal do Commercio, quando ainda assinava como Garibaldi França.Mas a trajetória do poeta seria atropelada por duas figuras históricas para o estado de Pernambuco – Miguel Arraes e o poeta João Cabral de Melo Neto. Conheceu o ex-governador na campanha ao Go-verno de Cid Sampaio e depois, com a eleição de Arraes, foi trabalhar com o cearense na Prefeitura do Recife. “Fui me entusiasmando com a política, fiz a besteira de tentar ser prefeito de Barreiros, me engajei no Partido Comunista. Em 1964, veio o golpe e tive que me exilar”, lembra Garibaldi.

Aos poucos, o interesse pela poesia foi sendo substituído pelo gosto por ensaios políticos. A mu-dança no foco da leitura se refletiu na produção literária, minguando de vez ao se deparar com a obra de João Cabral de Melo Neto. Ao contrário dos escritos Itinerário de Pasárgada (de Manuel Bandeira), Invenção de Orfeu (de Carlos Drummond de Andrade) e Cartas a um jovem poeta (de Rainer Maria Rilke) – que serviram como alimento para a alma poética de Ga-ribaldi –, os versos objetivos do poeta-engenheiro lhe trouxeram um impasse na criação.

“Fiquei abismado com aquilo, encantado, mas não conseguia pegar influência dele. Não era inveja, era incapacidade mesmo. Eu ia fazer e ficava repe-tindo. João Cabral me teve esse impacto”, recorda. Sem poder exercer a atividade política por conta do golpe militar de 1964 e de escrever poesia após conhecer a obra de João Cabral de Melo Neto, Gari-baldi acabou indo morar no Rio de Janeiro. “Como não sabia fazer mais nada, fui ser jornalista”, brinca. Com ajuda do partidão, encontrou uma vaga de repórter num jornal carioca, assumindo a vaga deixada por Elio Gaspari.

O fardo de encaixar palavras em versos, no en-tanto, revelou-se um facilitador para o jornalista iniciante na hora de escrever notícias. “A poesia te dá a capacidade de manobrar com a frase, com a palavra, com o pensamento. Foi importante na época em que eu entrei no jornalismo, porque me dava a certeza de que sabia colocar a palavra no lugar certo”, observa. No entanto, a reconciliação com a palavra não foi completa, a poesia não re-tomou o lugar de destaque na vida de Garibaldi.

O retorno

Casado e pai do primeiro dos cinco filhos que iria  ter, ele seguiu o rumo de milhares de nordestinos rumo a São Paulo em busca de melhores salários. Na capital paulista, tentou a vida como advogado, depois voltou ao jornalismo trabalhando numa revista de medicina, na Folha de S. Paulo, e em seguida como editor de texto em duas empresas de consul-toria, por onde chegou a morar em Porto Alegre. Só em 1974 o banzo bateu em Garibaldi e ele voltou para o Recife, reencontrando Mauro Mota e Renato Carneiro Campos na Fundação Joaquim Nabuco.

O retorno, contudo, foi passageiro. Após pe-regrinar por quatro empregos, Garibaldi voltou a São Paulo para trabalhar na Gazeta Mercantil. “Fui parando de fazer poesia, depois voltei a fazer mais por brincadeira. Você canta a menina e faz uns versos, não era uma coisa pensada como antes. Também fiz algumas letras de música, mas não era uma coisa profissional”, aponta. Mas se foi a política que o fez abandonar o projeto do livro ainda no início da idade adulta, também foi ela a responsável por resgatá-lo.

Com a eleição de Eduardo Campos para gover-nador, Garibaldi regressou ao Recife em 2007 para trabalhar no Palácio do Campo das Princesas. Ao fim do expediente nas terças-feiras, ele segue para o bar Seu Cafofa, onde reencontra amigos de outrora, num ritual que o faz lembrar os tempos de boemia no Savoy, no A Cabana e na Zona do Recife. “A ci-dade me despertou. Estava descrente que isso valia de alguma coisa, mas os amigos me convenceram a retomar esses escritos. Quando comecei a ler eles de novo, tive uma surpresa agradável, eu não sabia que era capaz de fazer isso aqui”, revela.

 

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