Alexandra Lucas Coelho A

 

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

Oswald de Andrade

O mar da Bahia rebenta com tanta força, que, ainda que usassem a mesma língua, não conseguiriam conversar. Na ponta do batel, o primeiro português olha incrédulo para o punhado de índios que vêm ao seu encontro e se questiona: “Terão alma?” Eles, também surpresos, tentam perceber se, por trás de tanta roupa, pelos e mau cheiro, há um corpo. “Nesse dia, 23 de abril de 1500, tudo ainda era espanto, de um lado e de outro. Chamemos-lhe utopia”, diz o narrador de Deus-dará, romance da portuguesa Alexandra Lucas Coelho. Para ela, esse primeiro momento da história comum do Brasil e Portugal – episódio que merece destaque em seu livro - simboliza o choque entre duas visões de mundo. A dos índios, abertos a chegada do outro porque veem nele a possibilidade de tornarem-se mais fortes, e dos brancos, que não querem ser mudados, mas querem, sim, mudar o outro. “Para mim, a experiência do Brasil é muito a experiência da potência desse discurso antropofágico, o Brasil é profundamente antropofágico. É a potência desse pensamento indígena. E esse é um pensamento que pode ser uma inspiração imensa para os dias de hoje, estamos a falar num momento em que Trump acaba de assinar uma lei para bloquear os outros. O outro vai te roubar, vai te tirar o emprego, te destruir, o outro é o mal, outro é o bárbaro. É o fim da curiosidade, o fim do movimento em relação ao outro”, me diz Alexandra enquanto prepara um chá no seu pequeno apartamento em Lisboa, com vista para o Tejo.

Nas mais de 550 páginas do romance, está retratado o presente do Brasil, em especial do Rio de Janeiro, com as manifestações de 2013, a bolha imobiliária, o carnaval, a funk, o morro, a viagem do papa, o clima de euforia pré-Copa do Mundo, a violência dos homens e da natureza, e a beleza das pessoas e da paisagem. Mas também aparece, com muita força, o passado brasileiro e português: a escravidão, os índios, a terra feita colônia, e o começo desses 500 anos de desencontros, como diz o narrador. Publicado no final de 2016 em Portugal pela Tinta da China e ainda inédito no Brasil, Deus-dará é uma espécie de “Aleph luso-brasileiro”. Nele, como no conto de Jorge Luís Borges, o universo se concentra num único ponto, e, ao observá-lo, o espectador consegue ver, simultaneamente, toda a existência. Nesse caso, o que se conflui e se reflete são as relações entre brasileiros e portugueses desde o primeiro encontro até os dias atuais, desde a utopia inicial até o desentendimento e desinteresse dos dias de hoje.

Nascida em Lisboa (1967), Alexandra Lucas Coelho fez carreira como jornalista no Público, principal diário português. Foi correspondente no Oriente Médio, passou temporadas no Afeganistão, em Jerusalém, no Cairo e na Cidade do México, até que, em 2010, com a vontade de cobrir um território que tinha sido colonizado por Portugal, desembarcou no Brasil – onde morou por 4 anos. A estreia na ficção se deu em 2012, com E a noite roda. No final daquele ano, teve a epifania e decidiu escrever um livro sobre o Rio de Janeiro. “Lembro-me claramente de estar a caminhar na Lagoa Rodrigo de Freitas e pensar: eu quero escrever um romance que aconteça nesta cidade. E veio-me o título logo, talvez até o título tenha trazido a ideia. O título não vem da música do Chico Buarque, tem a ver com ouvir essa expressão na rua muitas vezes. O Rio é uma cidade ao deus-dará, a vida no Rio é uma vida ao deus-dará. Uma vida violenta, é uma cidade atravessada constantemente pela violência, sujeita a essa violência o tempo todo. A violência das tempestades tropicais, que é uma violência que vem também do descaso do Estado, do ponto em que o Estado abandona as pessoas de quem deveria cuidar e a forma como os pobres vão sendo empurrados para os pontos de risco.”

POR DENTRO DO ROMANCE

Deus-dará está dividido em sete capítulos, que são sete dias na vida de sete personagens – dois portugueses e cinco brasileiros. “A ideia de gênese e de apocalipse iminente está lá desde o começo, está relacionada com o título e com a própria força da cidade. As pessoas no Rio estão sempre na iminência de um apocalipse, mas também na iminência de um renascimento, do momento em que finalmente a cidade vai disparar. É uma urbe na fenda dessas duas coisas, que está sempre a se recriar, de uma alegria que vem do fundo da tristeza, morte e regeneração, violência e resistência.” O narrador, que só revelará a sua identidade no final do livro, ora se concentra nos acontecimentos da vida desses sete moradores do Rio, ora se desprende e faz panorâmicas sobre a cidade ou viaja até o passado carioca, brasileiro e lusitano. Já no começo do livro, o leitor é advertido de que a língua que será usada é mestiça, saltará de um lado ao outro do Atlântico quando o narrador bem quiser. “Língua que vai ao mar dá nisso, o narrador será transatlântico ou não será,” lê-se na segunda página do romance. Logo adiante, novo aviso: “Cariocas falando com cariocas, portugueses falando com portugueses, e, antes ainda de o papo se misturar, valerá a pena repetir aquela frase que ficou lá atrás, talvez um pouco perdida, porque na presença de Judite tudo se perde um pouco: o narrador será transatlântico ou não será. Tem boas razões para isso, mas para já vai guardá-las”. 

Mais do que se encontrarem, o português do Brasil e de Portugal se fundem nas páginas de Deus-dará. “Trata-se da ideia de não reduzir a língua, eu não quero uma redução, eu quero uma ampliação. Se a minha língua pode ganhar não sei quantas palavras e essas palavras vem do iorubá, do tupi, sei lá do quê, acho ótimo. Acho que nós não precisamos de um acordo ortográfico, nós precisamos de nos ler uns aos outros, precisamos de que os brasileiros venham aqui e sejam lidos como eles escreveram, eu quero ler os brasileiros como eles escrevem: com a sintaxe e a ortografia deles, e quero ser lida no Brasil como eu escrevo. Quero esse trânsito constante, estou totalmente aberta a ser atravessada por essas outras dimensões de uma língua que é a minha língua também.”

O plano inicial da escritora era o de concentrar os sete dias entre a semana de 19 a 25 de dezembro de 2012, de uma quarta-feira até a terça seguinte. Durante o processo da construção do livro, estouraram os protestos nas ruas do Brasil e Alexandra decidiu alterar os planos. “Comecei a escrever o livro em janeiro de 2013 e depois fui para Minas, para fazer uma imersão. E, quando eu estava lá, rebentaram as manifestações. O livro, para mim, já tinha uma iminência de apocalipse por causa das previsões maias do dia 21 de dezembro, o terceiro dia do livro é o apocalipse maia. Resisti um bocado, mas voltei para o Rio, já tinha combinado com o jornal de cobrir a vinda do papa, e o que aconteceu foi que parei de escrever o livro e fui acompanhar o que estava a acontecer. Vivi intensamente aquilo e tomei uma decisão, percebi que era impossível manter o meu plano, não fazia sentido, e eu rebentei o livro, abri um buraco nele.” Assim, os dias de Deus-dará foram divididos: três do final de 2012, três da metade de 2013 e um, o derradeiro, em 2014. Ao “abrir” o livro, a escritora viu-se numa crise que a fez deixar o romance de lado por quase um ano - nesse período escreveu O meu amante de domingo, uma novela que se passa no Alentejo, interior de Portugal. “Ainda bem que o livro foi atrasado. Porque ele precisava desse tempo, ele precisava de me empurrar para trás, para eu poder abrir os meus próprios armários, tirar os meus próprios esqueletos, regressar à história de 1500. Parei por vários meses para exclusivamente estudar. Fui para a Torre do Tombo, fui para a Biblioteca Nacional, fui ler fontes de época, li muita antropologia brasileira, história portuguesa, cruzei essas coisas todas”, conta. “Aí, ao pesquisar, emergiram os fantasmas de uma forma que eu não tinha suposto, com uma força muito grande. O narrador usa várias vezes no livro a expressão ‘corda de mortos’, a noção de que o que liga Portugal e o Brasil é uma corda de mortos. Eu tinha uma intuição disso, mas não sabia até que ponto, e eu comecei a puxar essa corda e esses mortos vieram. Percebi, ao estudar, que Portugal foi o maior escravagista do Oceano Atlântico, tirou 5,8 milhões de africanos depois de ter levado a morte de pelo menos 1 milhão de indígenas, e esses números provavelmente estão aquém do real. E isso é uma noção que nós não temos, não temos porque as crianças não aprendem isso na escola, porque os responsáveis políticos não falam disso. Há uma constante glorificação quase infantil sobre os "descobrimentos" de usar as grandes viagens marítimas como medalhas na lapela contemporânea sem que ao mesmo tempo se faça um tributo aos mortos. Essa coisa que é tão fundamental, que vem na cultura desde Antígona, essa ideia de que temos que enterrar os nossos mortos, dar sepultura aos mortos. No fundo, eu sinto que Portugal não deu sepultura aos mortos.”

Para a escritora, revisitar esse passado é importante porque ele ajuda a entender o que vivemos hoje. “Acho que é impossível que um português que chega no Brasil, que mergulha naquelas relações sociais, não sinta as raízes da sociedade escravocrata brasileira. O que é um apartamento típico da zona sul do Rio de Janeiro? É Casa-grande & senzala. Não estamos a falar de uma coisa que está em extinção, estamos a falar de apartamento, que estão a ser construídos agora. “Casa-grande & Senzala Eco Friendly”. Isso continua a ser absolutamente central no que é a estrutura do cotidiano no Brasil, a quantidade de empregados com salários baixos para servirem, aquele mundo de gente que vive nas periferias e favelas e leva duas horas para vir servir à classe media alta, são os resquícios de uma sociedade altamente desigual, herdada da colonização.” Não se trata de substituir o discurso da glorificação dos "descobridores" pelo da culpa, mas de que ambas visões convivem e tenham espaço. Não só celebrar a audácia dos navegadores português e render-lhes tributo, mas também prestar homenagem aos mortos, explica. “Quero esse tributo visível. Gostaria de, quando levar a Belém (zona de Lisboa de onde partiam os barcos para as grandes navegações), alguém que não conhece a história de Portugal, que essa pessoa pudesse ver os navegadores no Padrão dos Descobrimentos, o Mosteiro dos Jerônimos, mas também algo sobre os índios e algo sobre os escravos.” Ao escrever Deus-dará, Alexandra Lucas Coelho constrói, com palavras, esse monumento de que sente falta. No seu Aleph, há espaço para a valentia e coragem dos portugueses e também para o legado de exploração que deixaram. Cabe também a beleza e a tragédia de ser brasileiro, a maravilha e dificuldade que significa a existência de uma língua que quase que são duas, e cabe ainda a possibilidade de um melhor entendimento entre dois países tão distantes e próximos. Chamemos-lhe utopia, uma segunda, que dure mais do que aquela tão fugaz do primeiro encontro.

 

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