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No próximo dia 18, o poeta português Manuel António Pina (1943-2012; foto) faria 75 anos. Vencedor do Camões – o maior prêmio literário em língua portuguesa –, Pina faz parte dos numerosos e excelentes autores portugueses que ainda permanecem desconhecidos de boa parte do público brasileiro. 

Nesta quarta (7), a Editora 34 lança O coração pronto para o roubo, antologia com trabalhos de Pina organizada pelo poeta, professor e pesquisador Leonardo Gandolfi. O evento ocorre em São Paulo às 19h, na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37), dentro de uma homenagem maior ao português. Haverá leitura de seus trabalhos por vários poetas brasileiros. 

Deixamos aqui quatro poemas do autor e um trecho do posfácio em que Gandolfi pensa a relação entre os trabalhos de Pina e Fernando Pessoa. 

 

***

 

O que me vale

O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem com
plicações viva aragon
morram as repartições

(Clóvis da Silva)

 


Ludwig W. em 1951

“As palavras (o tempo e os livros que
foram precisos para aqui chegar,
ao sítio do primeiro poema!)
são apenas seres deste mundo,
insubstanciais seres, incapazes também eles de compreender,
falando desamparadamente diante do mundo.
As palavras não chegam,
a palavra azul não chega,
a palavra dor não chega.
Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e
[sem que palavras?

E, no entanto, é à sua volta
que se articula, balbuciante,
o enigma do mundo.
Não temos mais nada, e com tão pouco
havemos de amar e de ser amados,
e de nos conformar à vida e à morte,
e ao desespero, e à alegria,
havemos de comer e de vestir,
e de saber e de não saber,
e até o silêncio, se é possível o silêncio,
havemos de, penosamente, com as nossas palavras construí-lo.

Teremos então, enfim, uma casa onde morar
e uma cama onde dormir
e um sono onde coincidiremos
com a nossa vida,
um sono coerente e silencioso,
uma palavra só, sem voz, inarticulável,
anterior e exterior,
como um limite tendendo para destino nenhum
e para palavra nenhuma.”

 


Mateus, 26, 26

Tomai, este é o meu corpo:
formas e símbolos.

Fora de mim, o meu reino
desmembra-se dentro de mim.

E o que fala falta-me
dentro do coração.

E estou sozinho fora de mim
como um coração fora de mim.

 

 

Chico

Talvez não fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.

Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem

muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.

O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.

 

***

 

FERNANDO PESSOA E EU

por Leonardo Gandolfi

 

“Conjugar a impessoalidade (universal) e a circunstância (singular) é o mistério das letras”, afirma Silvina Rodrigues Lopes (2012, p. 61). Pina encena uma despersonalização que, ao fim, se mostra idealizada. Afirmo isso pensando, sobretudo, em Fernando Pessoa e no sentido moderno de impessoalidade que vemos em sua obra. Porém, não quero assegurar que, por contraste, a poesia de Pina seja pessoal e confessional. Ela está muito longe disso. Entre os poetas portugueses surgidos nos anos setenta, ele é aquele que estabelece uma vizinhança temática e imagética mais próxima com a obra do criador dos heterônimos.

Porém, essa impessoalidade é traçada por Pina de modo dramático, e com ares de impossibilidade. Quanto mais ele mergulha em tal esvaziamento, mais desencantado se torna. Ao escrever obsessivamente a vontade de dissolução, acaba por deslocar uma das questões mais fortes da literatura portuguesa moderna, e realiza isso lendo Fernando Pessoa de modo irônico e melancólico.

Nessa direção, Paola Poma diz que na obra de Pina há um “tipo de ilusionismo” (2008, p. 229) que pode ser contrastado com um tipo de fingimento, sendo o poeta, mais que fingidor, ilusionista. Danilo Bueno (2013, p. 125), seguindo esses passos, vê o Fernando Pessoa de Pina como um Pessoa pós-Wittgenstein (o poema “Ludwig W. em 1951” é um monólogo dramático protagonizado pelo filósofo). Fingimento e silenciamento, por esse ângulo, caminhariam lado a lado: 

“Com que palavras e sem que palavras?”. Não se trata, portanto, de emular ou glosar o autor dos heterônimos, mas sim de modificá-lo. Pedro Serra e Osvaldo Manuel Silvestre chegam mesmo a jogar com a cronologia assegurando que Pina “consegue fazer de Pessoa um discípulo seu” (2002, p. 630).

Entre tantas apropriações, o poema “As coisas” lê o famoso poema “Isto” em que Pessoa escreve: “Tudo o que sonho ou passo,/ O que me falha ou finda,/ É como que um terraço/ Sobre outra coisa ainda./ Essa coisa que é linda” (1986, p. 99). Por seu turno, Pina reage: “Há em todas as coisas uma mais-que-coisa/ fitando-nos como se dissesse ‘Sou eu’,/ algo que já lá não está ou se perdeu/ antes da coisa, e essa perda é que é a coisa”. Pessoa apresenta-nos o esvaziado pronome “isto” e o transforma em “coisa”. Já Pina se apodera dessa “coisa” e a transforma em “uma mais-que-coisa”, esvaziando-a ainda mais com um conteúdo que — tínhamos certeza — era robusto: “Sou eu”. Em outras palavras, aprendemos com Pina que “a nossa própria ausência é uma coisa”.

Aliás, vale dizer, é curioso o uso que o poeta faz do pronome “isto” em alguns textos, evitando contrações comuns da língua: “disto” em Pina se escreve “de isto”. Assim, é como se, a cada vez que usasse tal dêitico, ele estivesse impregnado do referido poema de Pessoa. Tudo se torna ainda mais interessante ao sabermos que o “Tat Tam Asi” — trecho de um dos Upanishads das escrituras sagradas hindus — significa “isto és tu”. Só mesmo Manuel António Pina para fazer de algo tão corriqueiro quanto “isto” uma mistura de hinduísmo com Fernando Pessoa.

E, como se não bastasse, em seus dois primeiros livros o poeta criou personagens-autores — respectivamente, Clóvis da Silva e Slim da Silva — que, menos do que heterônimos, atuam como protagonistas de heterobiografias, conforme anota o próprio poeta. Eles estão presentes nesta antologia. Aliás, os textos do último dão a ver duas mortes, a de Hegel e a de Mao Tsé-Tung, ou seja, o fim de dois fortes modelos de unidade e totalidade, mortes que ajudam a inscrever a poesia de Pina num tempo posterior ao fim, temporalidade tardia ou, como assinalou Américo Lindeza Diogo, uma obra nos “escombros do futuro” (2002, p. 369).

 

BIBLIOGRAFIA

Bueno, Danilo. “A literatura morreu: identidade, paradoxos e melancolia na poesia de Manuel António Pina”. Revista Desassossego, n° 10. São Paulo: Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa da USP, 2013.

Diogo, Américo António Lindeza. “Tat Tam Asi.” In: Silvestre, Osvaldo Manuel; Serra, Pedro. Século de ouro: antologia crítica da poesia portuguesa do século XX. Braga/Coimbra/Lisboa: Angelus Novus/Cotovia, 2002.

Lopes, Silvina Rodrigues. “Marcas do desespero”. Literatura, defesa do atrito. 2a ed. Belo Horizonte/Lisboa: Chão da Feira, 2012.

Pessoa, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

Poma, Paola. “Deslocamentos na poesia de Manuel António Pina”. Inimigo Rumor, no 20. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2008.

Silvestre, Osvaldo Manuel; Serra, Pedro. Século de ouro: antologia crítica da poesia portuguesa do século XX. Braga/Coimbra/Lisboa: Angelus Novus/Cotovia, 2002.

 

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